sábado, 30 de abril de 2011

A vertiginosa beatificação


Não é caso único. Na história da Igreja já houve outras canonizações em tempo recorde, oriundas de movimentos populares que reconheciam em alguém uma inequívoca santidade de vida. Contudo, a de João Paulo II é sui generis porque fez mover, numa precipitação inusitada, toda a poderosa e lenta máquina burocrática do Vaticano. E quando as estruturas de poder investem muito num determinado objetivo é porque, de uma forma geral, ele serve os seus propósitos.
Não gosto de ser unilateral. Aprecio um olhar global sobre as circunstâncias, os factos e as pessoas. Ninguém resume em si todos os defeitos do mundo. Ninguém sintetiza todas as qualidades existentes. A esta regra não foge, com certeza, nem sequer o papa.
João Paulo II era, sem dúvida, um homem fortemente carismático. Arrastava multidões e tocava o coração das pessoas que o ouviam. A sua incansável peregrinação como missionário do evangelho pelo mundo inteiro introduziu uma alteração significativa ao papel tradicional do papa. Investiu nos jovens e eles responderam ao seu apelo, sobretudo através dos chamados encontros mundiais de juventude. Também do ponto de vista político a sua intervenção teve um impacto que deve ser reconhecido. Deu o seu contributo para a queda dos regimes autoritários comunistas, ajudando a libertar a humanidade de uma tensão bélica sempre latente e de regimes que mantinham sob tutela os seus cidadãos. Do ponto de vista ecuménico (no sentido geral do termo) é de assinalar as suas visitas a lugares santos de outras religiões e os encontros de representantes de várias religiões, com vista a criar um ambiente não hostil na relação inter-religiosa, promovendo, assim, a paz no mundo. Os seus documentos atestam a defesa permanente e inequívoca dos direitos humanos e escreveu igualmente belas encíclicas sociais. Reconheceu os múltiplos erros da Igreja ao longo dos séculos, procurando reconciliá-la com o mundo moderno, sobretudo com o campo da ciência, e pediu perdão por aquilo que os seus antecessores haviam dito e feito.
Todavia, também ele teve a sua face sombria e é essa que me levanta muitas dúvidas quanto à pertinência da sua beatificação, sobretudo de forma tão célere, quando em relação a outros os processos se arrastam ou são mesmo esquecidos, só porque não alinhavam inteiramente com o sistema.
A principal pecha que podemos assacar a João Paulo II foi a sua incoerência. Nos discursos e atuações em relação a factos e pessoas fora das fronteiras da Igreja, era regido por princípios diametralmente opostos aos que usava para se relacionar com pessoas e organizações no interior da instituição eclesial. Se é verdade que exigia o respeito pelos direitos humanos na relação entre pessoas e nações, não deixa de ser irónica a sua atitude de silenciamento das teologias e perspetivas que não alinhassem pelos padrões do seu profundo conservadorismo. Mandou calar teólogos, expulsar alguns das faculdades de teologia e arrasar a golpes de martelo, silenciosos mas certeiros, as teologias da libertação que eram profundamente promissoras na América Latina e não só. E com isto, ficaram comprometidos todos os seus discursos sobre a dignidade humana e a salvaguarda da liberdade.
E não nos deixemos enganar pela sua aparente vontade ecuménica. Em relação às diversas Igrejas cristãs, não foi capaz de dar um passo firme que desmoronasse barreiras e lançasse pontes para um diálogo autêntico e frutuoso. Tudo ficou ao nível das boas intenções. A sua conceção de Igreja impedia-o de abrir caminhos ousados. Para ele era claro que só a Igreja católica romana era a verdadeira Igreja de Cristo e que um percurso ecuménico autêntico tinha de ser no sentido de as outras «comunidades eclesiais» se converterem ao catolicismo! Uma tal postura dinamita à partida qualquer propósito ecuménico e inviabiliza um diálogo autêntico que não parta de preconceitos seculares.
E era até hilariante ouvir este homem — cujas intenções seriam certamente boas — pedir perdão por todos os erros cometidos no seio da Igreja, ao mesmo tempo que mostrava a mesma incompreensão do mundo que os seus antecessores haviam mostrado no tempo em que tinham cometido aqueles erros. A morte sangrenta de muitos dos que ousaram pensar de forma diferente era agora operacionalizada pela imposição do silêncio ou pela expulsão do ensino da teologia. Na verdade, os erros do passado tinham continuidade nas atuações do presente. A única diferença residia apenas no facto de a Igreja já não ter o mesmo poder e a mesma influência de que gozara nos tempos em que Giordano Bruno fora queimado vivo em plena Piazza dei Fiori. Neste contexto, é justo citar as palavras de Jesus: «Ai de vocês (…) que constroem os túmulos dos profetas e fazem belos monumentos aos herois e declaram: “ Se tivéssemos vivido nos tempos dos nossos antepassados, não nos teríamos juntado a eles para matar os profetas!” Desse modo confessam que são descendentes daqueles que assassinaram os profetas. Acabem lá, então, o que os vossos antepassados começaram!» (Mt 23, 29-32).
Também não é possível esquecer que foi durante o seu pontificado que ocorreram muitos dos atos de pedofilia, perpetrados por eclesiásticos, que só agora vieram a lume. O papa sabia o que se estava a passar e ocultou conscientemente, num ato de injustiça em relação às vítimas, todos os crimes. Infelizmente, não ocultou apenas, com a sua inação foi cúmplice desses atos e de todos os outros que os mesmos pedófilos cometiam impunemente. E se compararmos a intransigência com que eram silenciados os teólogos não alinhados com a bonomia com que eram tratados os pedófilos, temos um retrato claro da sua forma mentis.
E o que é ainda mais caricato é que, enquanto os pedófilos atuavam sem grandes limitações à sua ação, este papa mantinha imposições inaceitáveis no plano da moral sexual, como a condenação dos métodos anticoncecionais artificiais ou dos métodos homólogos de fecundação medicamente assistida. Para uns, a rigidez da lei; para outros, uma misericórdia inteiramente cega aos direitos das vítimas.
Quando o bispo Oscar Romero veio a Roma, no meio da maior turbulência em El Salvador, não encontrou no papa nem compreensão nem ajuda. Depois da sua visita a João Paulo II, em 1979, o arcebispo de San Salvador disse profundamente desiludido: «Não creio que voltarei outra vez a Roma. O papa não me compreende». E afinal, este homem bom e corajoso queria apenas — na linha do evangelho — que a sua luta pela justiça e pelos direitos dos mais fracos fosse apoiada pelo papa. Mas a conceção que o papa tinha de Igreja ainda era demasiado política e demasiado medieval para poder estar aberto a novas orientações.
Contrariamente àquilo que vai ser o discurso oficial, este papa foi desferindo golpes constantes contra a relação da Igreja com o mundo contemporâneo. Só a título de exemplo, basta referir a sua desconfiança em relação aos avanços da ciência (vertida nos documentos de condenação acima referidos), a sua incapacidade para perceber que o lugar da mulher não é nem pode ser apenas o lar e a família, que tem direito a intervir, em pé de igualdade com os homens, na vida pública, e que esse lugar da mulher no mundo não pode ocorrer apenas fora das fronteiras da Igreja, mas também dentro, permitindo que tenha acesso aos mesmos cargos que os homens e que intervenha em todos os domínios da vida da Igreja. O seu conservadorismo cegava-o, impedindo-o de reconhecer a bondade das novas realidades emergentes. Tudo o que não se enquadrasse dentro dos seus apertados esquemas mentais era condenado. Num tal contexto, tornou-se impensável qualquer reforma da Igreja no sentido da sua democratização, do reconhecimento efetivo da igualdade entre todos os cristãos e da criação de um clima de liberdade de pensamento e ação que permitisse experiências diversificadas de vida cristã.
Manifesta-se assim com clareza a razão por que João Paulo II é apressadamente elevado às honras dos altares. Serviu o modelo conservador e medieval de Igreja, inteiramente defendido pelo seu sucessor e pela trupe de cardeais que pululam nas instituições vaticanas. É o sistema a alimentar-se a si mesmo.

Este texto foi escrito ao abrigo do novo acordo ortográfico.

segunda-feira, 25 de abril de 2011

Abril de outrora, abril futuro



No meio de um arrastão económico, financeiro e social, o vinte e cinco de abril de mil novecentos e setenta e quatro é de novo comemorado. Mesmo descontando todos os excessos que se lhe sucederam, não há dúvida de que a revolução pacífica nos trouxe um dos aspetos mais importantes da história humana pessoal e coletiva: a liberdade vivida no contexto do princípio da igualdade entre todos os cidadãos. Se mais não tivesse sido, já estava justificada a rebelião dos capitães que depuseram um regime decadente, inflexivelmente ligado a uma conceção megalómana do país, inteiramente alheia à realidade. Mergulhado numa guerra sem fim, perdida a prazo por não corresponder a nenhum princípio de justiça, o despotismo mutilara uma geração de portugueses, condenando-os à ignorância e à pobreza.
O regime democrático, decorrente da revolução, não recuperou apenas a liberdade, mas transformou também em direitos sociais aquilo que a geração anterior nem sonhava ser possível obter.
E é natural que, num mundo em mutação drástica, rumo a um neoliberalismo desregrado onde parece vigorar a lei do mais forte, muitos se indignem e insurjam contra as manobras políticas e económicas que pretendem desferir golpes fatais sobre os direitos que sustentam o chamado estado social. Talvez nem todos os direitos possam manter-se num mundo globalizado que funciona a partir de outras regras. O Estado não pode gastar mais do que consegue obter em receitas. Contudo, fica-nos a perceção de que, no caso português, grande parte do descalabro do estado social provenha do desgoverno a que temos sido sujeitos durante as últimas décadas. Gastos desmesurados com obras públicas de duvidoso interesse permitiram a descapitalização do Estado e o seu endividamento, já para não falar nas insanas despesas internas do próprio Estado.
Hoje, a indignação é grande porque, uma a uma, se veem definhar as conquistas que abril nos trouxe. E não admira que uma geração sem emprego, vendo a sua situação pessoal e familiar ser adiada sem prazo à vista, se sinta defraudada nas expetativas que os seus pais lhes criaram. O que fazer então? Creio que manter viva a chama de um sonho em parte por concretizar, resistir a toda a capitulação que outros propõem e, com lucidez, lutar por valores em que se acredita será a melhor forma de tornar sustentável, a médio ou longo prazo, uma sociedade onde todos tenham lugar e a exclusão seja definitivamente banida. É um sonho inalcançável? Não creio. É, sem dúvida, um sonho, mas torná-lo possível está nas nossas mãos, no investimento que fizermos para o tornarmos presente e na capacidade de mobilizarmos os outros para a sua realização. Abril há de ser a via que iniciámos há trinta e sete anos mas cujo termo estará sempre na linha do horizonte. E entretanto, trabalhamos para que o comboio da vida nos conduza até onde for possível. Outras gerações irão além e nelas manteremos vivo o sonho de um mundo autenticamente fraterno no qual a exclusão de um só é já motivo para nos sentirmos todos um pouco excluídos.


Este texto foi escrito ao abrigo do novo acordo ortográfico.

sexta-feira, 22 de abril de 2011

Sexta-feira Santa


 
A morte é talvez o maior mistério da existência. Nela se detêm todas as certezas. Ficamos nus, diante de nós mesmos, seres autênticos onde nada se esconde a quem somos. E se no percurso da vida podemos atrever-nos a ter certezas, a afirmarmos as nossas convicções como se fossem dados que a realidade nos oferece todos os dias, como o nascer do sol ou o movimento das plantas sob a força do vento, perante a morte cessam os dogmas e somos a nós mesmos humildes peregrinos da verdade, sempre esquiva, sempre além do que somos.
«Meu Deus, meu Deus, porque me abandonaste?». É o desmoronamento das convicções sob o olhar inquieto do mistério da morte. E ainda no dia anterior, havia juntado à mesma mesa os seus amigos num banquete que prefigurava a plenitude da vida. Agora, era a plenitude do nada, fazendo definhar o fulgor simbólico que incendiara o dia anterior.
Depois o silêncio. O absurdo escavado numa rocha. Corpo de pedra que à terra havia regressado. E Deus calado no silêncio das horas.
Não tenho certezas, como acho que ninguém honestamente as pode ter. Mas há uma esperança que não cessa de penetrar nos escaninhos recônditos da alma e me diz que a vida não se detém na inércia da morte. Posso estar errado. Posso viver sob o vulto irreal de uma ilusão. Mas porque haveria de calar esse anseio profundo que me não abandona apesar da luxúria da noite?

Este texto foi escrito ao abrigo do novo acordo ortográfico.

segunda-feira, 18 de abril de 2011

Um ritual de iniciação


 
Há comportamentos cuja justificação não consigo entender. E para tudo encontramos justificações mais ou menos plausíveis, com o intuito de lavarmos a alma e expulsarmos dela o sangue que derramamos. Somos peritos no uso defensivo da nossa inteligência. Independentemente da validade dos argumentos, o que importa é convencermos os outros de que os factos por nós criados estão inscritos na natureza como uma espécie de destino inevitável. O que importa realmente é sermos persuasivos. Para que serve a verdade? A maior parte das vezes até empata! O que realmente releva é a verdade que cada um encontra quando responde aos seus impulsos — ainda que irracionais — e persuade os outros de que se comporta de acordo com valores aceitáveis ou não é mais do que o elo de uma cadeia cujo início se perde no tempo. A tradição e o seu peso são, em muitos casos, um argumento recorrente, embora de valor duvidoso.
Parece que numa qualquer ilha da Dinamarca há um ritual de passagem que os jovens cumprem desde tempos remotos. Junto à linha da costa, os golfinhos aproximam-se das pessoas sem outra intenção que não seja interagir com elas. Estes seres belos e inteligentes veem nos humanos uma espécie de vizinhança familiar. Em certas condições ficamos enternecidos com o seu afeto e amamos retribuí-lo. Contudo, nesta ilha dinamarquesa, chegado o tempo do ritual de investidura na idade adulta, os jovens tomam nas mãos objetos contundentes e esventram lenta e vorazmente os animais indefesos, deixando um rastro de sangue nas águas límpidas e azuis.
E afinal que diferença faz em relação ao que nós portugueses orgulhosamente fazemos, para gáudio de muitos, nas arenas de morte que servem de palco às selváticas touradas? Por mais que me expliquem, não entendo por que razão haveremos de continuar uma tradição que nos conspurca a consciência e avilta a condição humana. Houve tempos em que fazíamos tudo isto com seres humanos a quem não era reconhecida qualquer dignidade. Muitos juntavam-se para rejubilarem, enquanto as vítimas eram, sem piedade, dilaceradas. Quando, coletivamente, crescemos um pouco mais, banimos estes espetáculos, que tristemente ostentavam a brutalidade geneticamente herdada. Mas não fomos ainda capazes de perceber que não somos os únicos portadores de dignidade. Os seres que connosco convivem também são dela são portadores, cada um à sua medida. E se se justifica matarmos para garantir a nossa sobrevivência, não vejo que haja qualquer justificação para nos afogarmos num riso estúpido e insaciável perante o sofrimento de animais que partilham connosco o mesmo espaço na Terra.
Acordemos, pois, desta letargia que nos cala a indignação e gritemos tão alto quanto pudermos que toda a insensibilidade brutal é merecedora de reprovação ética, por desumana e desonrosa.

Este texto foi escrito ao abrigo do novo acordo ortográfico.

sexta-feira, 15 de abril de 2011

No abismo impenetrável do tempo

 
«(…) vaguear pelas ruas da cidade à procura de uma parte de mim que desaparecera (…) de uma pessoa que se perdera onde nos vamos sempre perdendo, no abismo impenetrável do tempo.» (João Tordo, Hotel memória).
Agora que nos aproximamos do tempo de Páscoa, é mais translúcida esta citação. Afinal, não é no abismo impenetrável do tempo que nos perdemos nós apenas, também Deus se perde no lugar do seu exílio. E que outra esperança nos resta se até o ponto de orientação absoluto se desencontra de si mesmo e se arruína no cimo de um monte, fora da cidade dos vivos? E contudo, a narrativa da vida teima em fazer-se num qualquer domingo, junto a um túmulo vulgar, ou junto à renúncia das trevas sem regresso. Também por aí passou o tempo, polindo os textos à medida dos medos e das esperanças, dos tormentos e da coragem desmedida, até ao tutano da escuridão inquieta.
Afinal, é a nossa própria condição. Condenados ao fracasso da vida, somos objeto da irrisão daqueles que connosco partilham o mesmo destino. Esperamos tão-só que uma mulher, ao romper da aurora, venha ao túmulo tratar o corpo que não regressa. E sejamos, então como outrora, confundidos com o jardineiro. E possamos passear pelo jardim da vida, como Deus fazia no Éden, antes de a cobiça humana ter estilhaçado a primitiva ingenuidade. Agora, lúcidos e doentes, caminhamos pelo tempo sem nos acharmos, à espera daquele encontro que tudo refaz.

Este texto foi escrito ao abrigo do novo acordo ortográfico.

domingo, 10 de abril de 2011

Deus e o universo


Em «A teoria de tudo. A origem e o destino do universo», Stephen Hawking, um dos mais conceituados físicos da atualidade, descreve vários modelos explicativos do universo, sendo cada um incompatível com os outros. No estado atual da investigação, ainda não é possível que os físicos se entendam sobre o modelo que explique melhor o universo, a sua configuração e as leis que o regem.
Mas o que surpreende é o facto de a hipótese de Deus ter sido posta pelo autor como explicação do universo, compatível com determinados modelos.
Assim, «o estado inicial do universo deve, na realidade, ter sido escolhido com muito cuidado para que o modelo do Big Bang quente esteja correto desde o princípio do tempo. Seria muito difícil explicar porque começou o universo precisamente desta forma, a não ser por um ato de Deus, que tenha querido criar seres como nós» (p. 94).
No modelo do Big Bang quente, o espaço-tempo tem uma fronteira, porque inicia a partir de uma singularidade com o Big Bang. Mas não tem de ser necessariamente assim. Nos modelos inflacinários, o universo, o espaço-tempo, embora finito, não tem quaisquer fronteiras. Funciona mais ou menos como uma superfície esférica: finita, mas sem princípio, nem fim. A Terra é o exemplo mais próximo de nós. Por mais que caminhemos ao longo da sua superfície, nunca encontraremos qualquer fronteira, qualquer início ou fim. E Hawking conclui: «A ideia de que o espaço e o tempo possam formar uma superfície fechada sem qualquer fronteira tem também profundas implicações no papel de Deus no universo. Com o sucesso das teorias científicas na descrição de eventos, a maioria das pessoas começou a acreditar que Deus permite que o universo evolua de acordo com um conjunto de leis. Ele não parece intervir no universo para quebrar essas leis; contudo, as leis não nos dizem como era o universo quando nasceu. Ainda teria de ser Deus a fazer o relógio voltar para trás e escolher o seu início. Desde que este tenha tido um princípio numa singularidade, podemos supor que o universo foi criado por uma entidade externa, mas, se o universo já contém tudo o que é necessário em si próprio, não existirá qualquer fronteira ou extremidade, e ele não será nem criado, nem destruído. Será, simplesmente. Que lugar haverá então para um criador?» (pp. 107-108).
Mais adiante (pp. 137-139), o autor coloca questões que, estando na fronteira da ciência com a filosofia, enquadram de outra forma o problema de Deus.
Num modelo de universo sem fronteiras, Deus não poderia ter escolhido as condições iniciais, uma vez que não houve início. Apenas poderia ter escolhido as leis de funcionamento do universo. Contudo, parece que apenas exista um sistema de leis, ou talvez um pequeno número, com coerência interna, que permita a existência de seres inteligentes. Logo, Deus não teria grande margem para escolher uma vez que as alternativas são escassas. A sua liberdade fica automaticamente limitada, se a sua intenção era que o universo contivesse as condições necessárias ao aparecimento de seres inteligentes. Ora, no que me diz respeito, penso que é exatamente por isso que a hipótese de Deus se torna mais premente. Numa infinidade de possibilidades de sistemas de leis, nenhuma conducente a seres inteligentes, só aconteceu a que permitiu tal existência, apesar da sua ínfima probabilidade. Tal estado de coisas parece-me ser um bom indício de que Deus tenha programado a realidade nesse sentido.
Outra questão, talvez mais fundamental, é perguntarmo-nos porque é que existe o universo tão racionalmente disposto, de acordo com modelos matemáticos complexos. «Porque tem o universo de existir? Ou será que existe um Criador e, se isso for verdade, será que Ele tem algum efeito no universo para além de ser responsável pela sua existência? E quem o criou a Ele?»
De acordo com o pensamento deste célebre físico, Deus enquanto hipótese de explicação do início do universo só parece ter razão de ser se e enquanto a ciência não encontrar outros meios de explicação internos ao universo. A conceção de Deus que está por detrás deste pensamento é a de um Deus tapa-buracos, um Deus que é necessário para ultrapassar os limites do conhecimento humano e só tem cabimento onde se aninha a ignorância das causas internas que expliquem os fenómenos.
Qual é o erro desta forma de pensamento? Creio que é o de identificar a natureza de Deus com a de um qualquer objeto interno ao próprio universo. Assim como explicamos o movimento de uma bola com o pontapé que alguém lhe deu, explicamos o início do universo pelo ato criador de Deus, uma vez que ainda não encontrámos forma de prescindir dessa hipótese explicativa, aparentemente externa ao universo. Na verdade estamos a usar Deus como uma causa explicativa ao mesmo nível de qualquer outra causa interna ao próprio universo. Ora Deus é — na hipótese de existir — um ser cuja natureza é totalmente diferente da do universo, não podendo, pois, a sua ação ser confundida com a de uma causa natural. Por conseguinte, quer seja mais correto o modelo que prevê o início do universo numa singularidade, quer seja mais correto o modelo de universo sem início nem fim espácio-temporal, nada disto interfere na questão da existência de Deus.
As últimas perguntas que o autor levanta são, por isso, bem mais interessantes e pertinentes. Já outros filósofos haviam posto a questão essencial: «Porque existe algo e não o nada?» Esta problemática prende-se com a natureza precária do universo: a sua natureza contingente. O universo não é necessário. Tal como nenhum dos elementos que o compõem o é. Podem ser ou não ser. Não incluem na sua natureza a obrigatoriedade da sua existência. Tanto é verdade que estão sujeitos à mudança, à corrupção, ao desaparecimento, etc. E se isto é verdade em relação a cada uma das partes do universo, porque não há de ser verdade para o universo enquanto totalidade?
Esta questão foi refletida por Desidério Murcho no seu livro «Filosofia em direto». Depois de mostrar não conhecermos a existência de objetos no universo que sejam necessários (ou seja, que não poderiam não existir), o autor pensa que a explicação da totalidade do universo está contida na explicação de cada uma das suas partes e a via mais satisfatória para o fazer é a via científica. Logo, se queremos saber porque existe o universo devemos dedicar-nos à investigação científica e explicar cada uma das partes que o compõem até termos uma explicação global que não é mais do que a soma das explicações parciais.
Tenho dúvidas sobre a capacidade da ciência de explicar a razão porque existem todos os objetos que compõem o universo. E não porque seja cético em relação à validade do pensamento científico, mas apenas porque sendo o universo globalmente contingente, ele parece precisar de uma explicação «exterior» a si mesmo. E é aqui que se enxerta a hipótese de Deus, enquanto absoluto necessário, cuja existência coincide com a sua essência, que não precisa de ulterior explicação porque é o princípio sem princípio, a origem última de todas as coisas, o fundamento de tudo quanto existe — claro, sempre na hipótese de existir. Deste modo, a existência do universo estaria explicada pela sua dependência em relação a Deus — como seu fundamento — e o problema está em clarificarmos o tipo de relação que Deus tem com o universo.
Sendo Deus uma realidade inteiramente distinta de todas as outras (o Totalmente Outro), não pode ser confundido com o universo ou com um objeto qualquer interno ao cosmos, nem a sua ação pode ser confundida com a ação que os objetos exercem uns sobre os outros. Está, portanto, posta de parte a possibilidade de explicarmos fenómenos concretos interiores ao universo a partir da ação de Deus, sejam eles milagres ou outros eventos cuja causa natural nos é desconhecida.
Mas será Deus totalmente alheio ao universo? Não me parece possível, porque se é o absoluto, tem de conter em si a totalidade das coisas existentes. O universo só pode existir em Deus, enquanto sua manifestação finita. Torna-se assim compreensível que o universo seja tão matematicamente organizado, se reja por leis tão estritas e tenha, a partir do Big Bang, as condições ideais para que surjam seres inteligentes que possam pensar-se a si mesmos, pensar o universo e pensar Deus. É evidente que, no âmbito desta conceção, perguntarmo-nos quem é que criou Deus não faz qualquer espécie de sentido.
Deus permanecerá sempre um mistério, por ser a sua natureza tão distinta da natureza das coisas contingentes. E, por mais que procuremos explicá-la, a sua relação com o universo será sempre um enigma por decifrar. Todas as nossas teorias são aproximações, não explicações acabadas. Resta-nos apenas a humildade de quem se põe a caminho mesmo sabendo que o seu contributo será sempre modesto e precário.

Este texto foi escrito ao abrigo do novo acordo ortográfico.