quinta-feira, 3 de março de 2011

Uma entrevista por cumprir

Assim Juan José Tamayo, teólogo reputado, numa entrevista a 14 de Abril de 2005:

Quais deveriam ser as prioridades do novo papa?
A primeira, creio que é a de democratizar a Igreja. Sem democracia, as instituições convertem-se em organismos autoritários que não respeitam a opinião dos membros que as compõem. A democracia é necessária na Igreja para sair do autoritarismo que a caraterizou durante mais de mil anos. As razões da democracia são duas. A primeira é que a Igreja é uma comunidade de crentes e, portanto, os seus membros devem participar na tomada de decisões e na eleição dos seus representantes e isso tem dois fundamentos: as origens do cristianismo, em que os cargos diretivos eram eleitos popularmente e em que as grandes decisões se tomavam de maneira corresponsável. Em segundo lugar, a democracia é necessária dentro da Igreja para que os próprios dirigentes sejam consequentes com os seus discursos: defendem a democracia na sociedade e desconhecem-na dentro da própria instituição, e isso é uma incoerência. Por isso, a democracia na Igreja católica constitui a melhor prova da coerência no discurso eclesiástico. Democracia na sociedade sim, democracia na Igreja católica também. Esse é o primeiro desafio.
O segundo é a incorporação das mulheres nos cargos de responsabilidade e nos ministérios ordenados em igualdade de condições com os homens, sem que se produza a discriminação de género que atualmente existe.
E o terceiro grande desafio é a mudança de lugar social: a Igreja deve deixar de estar com o poder para se colocar do lado dos pobres e acompanhá-los no processo da sua libertação.

Agora que já passaram seis anos depois desta entrevista ter sido publicada, as tarefas do novo papa mantêm-se inalteradas. Não ocorreu qualquer democratização na Igreja — autocrática era e autocrática continua. Não se vislumbrou qualquer sinal de abertura no sentido de extinguir a intolerável discriminação das mulheres — talvez o medo das mulheres esteja associado a antigas representações do feminino. E nenhuma mudança de lugar social pôde ser observada. Hoje como ontem, vemos a Igreja (institucional) mais preocupada com o lugar que ocupa no seio da sociedade, com o seu prestígio, com o seu poder ou com a sua influência junto dos poderosos, do que com a situação dos pobres e do seu processo de libertação.
O balanço geral do mandato deste papa é, portanto, fundamentalmente negativo, uma vez que não realizou nenhuma das reformas estruturais de que a Igreja precisa urgentemente. Contenta-se com a gestão do quotidiano, para não levantar ondas, não vá um maremoto despojar a cadeira de Pedro da ganga dos anos. Mas a continuar tudo como dantes, talvez não sobeje na cadeira de Pedro senão a ilusão de um tempo que passou e de uma influência que se esvaiu pelos esgotos da história. Felizmente, Cristo nada tem que ver com esta perturbadora miséria humana!

Este texto foi escrito ao abrigo do novo acordo ortográfico.

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