terça-feira, 8 de março de 2011

Um estranho desfile


Carnaval chuvoso em tempo de crise. O que vale é que temos um primeiro-ministro profundamente otimista que pinta de fresco as paredes em ruínas. Sempre não vemos a caliça prestes a escamar a pintura, apressada e recente. E até parece ser melhor do que um primeiro-ministro que nos atirasse à cara a verdade toda! A nossa tendência depressiva é amplamente conhecida e vigorosamente reforçada pela realidade de há séculos. Não sei se aguentaríamos a nudez lúcida da transparência. Assim, sempre permanecemos mais uns tempos no doce engano de julgarmos ter feito o que estava ao nosso alcance e de estarmos hoje à altura dos tempos, mesmo quando mendigamos clemência nos palácios imperiais da Alemanha.
Que tudo se faça como o tempo exige: carnaval nas ruas e nos areópagos onde as nossas vidas são decididas sem dó nem piedade, sob gráficos inclementes que mostram, pelo menos, uma das faces da verdade.
Que pode fazer um povo sob tais condições senão suspirar e carregar o fardo quotidiano que outros lhe impõem? Talvez a revolta fosse solução, ou pelo menos uma alternativa viável. Mas a da Tunísia ou do Egito, que não temos feitio para a violência feroz da Líbia, ou até da Grécia.
Os jogos políticos, que pouco têm que ver com as reais necessidades do país, sucedem-se numa luta surda entre governo e oposição, sem se vislumbrar o que seria necessário em tempo de crise: um pacto sobre as questões fundamentais do país, aquelas que nos arrancariam ao atraso de séculos e nos poriam no comboio da alta velocidade civilizacional (não confundir com o outro, que poderá ser um nado-morto, no cemitério do Poceirão). E o diagnóstico está feito. Era apenas necessário redigir o texto a apor as devidas assinaturas, tanto no campo da educação, como, sobretudo, no da justiça, finanças e economia. E depois, claro está, executá-lo. Mas a sensação com que ficamos é que ninguém (dos que têm responsabilidades) sabe ou quer saber do rumo a dar ao país. Em vez disso, contentam-se com medidas avulsas — numa espécie de gestão do desespero —, cortando despesas onde é possível, sem assumir uma visão global dos problemas, das soluções mais adequadas e do futuro a dar ao país.
É o desfile das vaidades no corso da política!

Este texto foi escrito ao abrigo do novo acordo ortográfico.

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