domingo, 27 de março de 2011

Sínodo dos bispos


 
Em 2012 vai decorrer o Sínodo dos bispos sobre a «Nova Evangelização». Parece-me importante que os bispos reflitam sobre a maneira como deve ser realizada a evangelização em pleno século XXI, tendo em conta contextos culturais tão diversificados como a Europa, África, Ásia ou Oceânia. Tenho, contudo, muitas dúvidas quanto à eficácia prática de tais encontros. Para que sejam profícuos, o ambiente tem de ser propício a aceitar discussões inteiramente livres, porque este é o único caminho que o ser humano, falível por condição, tem à sua disposição para se encontrar com a verdade, ou pelo menos para dela se aproximar. Se a verdade não decorre mecanicamente do consenso das pessoas nem automaticamente do número de pessoas que defendem uma determinada posição, o conhecimento finito do ser humano tem uma arma poderosa para dela se aproximar com maior probabilidade: a discussão livre e honesta de posições múltiplas.
Num contexto em que a discussão é ferreamente controlada pelos corredores do Vaticano não se pode esperar muito de semelhantes reuniões pomposas. Ainda que concedamos que há inteira liberdade de expressão nas intervenções dos bispos — coisa que me parece altamente duvidosa —, as ideias saídas das discussões são cuidadosamente filtradas na redação do documento final, a cargo exclusivamente dos omnipotentes senhores do Vaticano.
No terreno de seres humanos finitos, sem liberdade não há processo que nos encaminhe para a verdade. E é esta a grande pecha que a Igreja Católica tem de resolver para que se possa encontrar com a modernidade, sem medo do que possa acontecer, porque é nestas circunstâncias que mostra acreditar autenticamente na presença do Espírito de Deus que a conduz no seu processo de procura da verdade. Cercear a liberdade é anular a presença do Espírito, sufocá-lo sob o autoritarismo de meia dúzia de eleitos, não permitindo que se revele onde, quando e em quem entender. Foi para a liberdade que fomos salvos, escrevia S. Paulo. E é na liberdade que o Espírito se pode revelar, seja na palavra do mais humilde dos cristãos, seja no discurso do mais célebre dos bispos. Mas quando os próprios bispos se sentem ameaçados quando não defendem abertamente as orientações do núcleo que ocupa o poder na Igreja, pouco há a esperar de semelhantes sínodos.
Em meu entender, falar em Nova Evangelização implicaria — se fosse verdadeiramente nova — uma revisão desapaixonada e rigorosa da maneira como a Igreja se apresenta na época atual. Antes de nos lamentarmos sobre as alterações que ocorreram no mundo e fazermos dele um diagnóstico hostil e pavoroso, talvez devêssemos olhar para dentro dos muros da Igreja e refletir sobre o que a torna tão opaca ao mundo contemporâneo. Nova Evangelização seria, então, não apenas uma mudança epidérmica da linguagem usada ou dos meios tecnológicos, e muito menos uma tentativa de alterar a cultura contemporânea pela raiz, mas uma reforma profunda da própria comunidade eclesial que a torne mais compatível com o Evangelho de Cristo. É que a evangelização, tal como a educação, faz-se mais pelo exemplo dos que pelas palavras.
Mas estará a Igreja disposta a deixar-se converter em todas as suas dimensões, antes de pretender converter o mundo?

Este texto foi escrito ao abrigo do novo acordo ortográfico.

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