domingo, 13 de março de 2011

Reconstruir o mundo


Umas pequenas férias para revigorar o coração. Abandonar o quotidiano, romper com as práticas diárias, realizar ações inabituais são terapêutica adequada para o cansaço que a rotina introduz no corpo e na mente. Enquanto subia a mata do Buçaco, revendo o passado histórico de Portugal e identificando-me com o ambiente natural, percebi melhor a importância que tinha para os monges que ali haviam habitado a sua fuga mundi e a reconfiguração do mundo — como um novo Éden — onde fosse possível habitar em harmonia com Deus e com a natureza. De certa maneira, olhamos para o mundo natural e nele revemos o mundo ideal que a civilização humana foi decapitando lenta mas eficazmente. E quando tomamos consciência disso apetece-nos seguir as pegadas dos monges: fugir de tudo e refundar noutro lugar essa beleza perdida.
Mas teremos o direito de recriar as condições ideais longe dos nossos irmãos em humanidade? Não creio que o cristianismo seja isto, que é afinal a essência do monaquismo. Cristo não fugiu do mundo, nem pretendeu recriar longe do olhar ameaçador da sociedade humana um ambiente perfeito, como aliás o tentaram os seus contemporâneos qumranitas. Era no meio do mundo que Cristo entendia a sua função e o sentido da sua existência. E foi exatamente por isso, pela sua vontade de reformar o mundo a partir do seu interior e de intervir na vida pública, que acabou de forma trágica. No entanto, vemo-lo também, de vez em quando, afastar-se da multidão e encaminhar-se para lugares ermos onde possa reencontrar-se e ouvir o Inaudível, no silêncio das vozes alheias.
Mas este paraíso terrestre para onde desloquei a minha vida no lapso temporal de apenas três dias foi abalado pela notícia funesta de um sismo fortemente destruidor, seguido de um maremoto que tragou boa parte do litoral japonês, arrastando em escombros a vida e o ser de muitos irmãos nossos. Senti-me uma leve comichão na pele do ser e perguntei-me por que razão haveriam de acontecer semelhantes catástrofes. Hoje estamos aqui, num local onde a eternidade parece ter posto a sua tenda, e no momento seguinte a natureza benigna remete para si a sentença sobre o nosso próprio fim. Por muito que expliquemos o mundo, há fronteiras para lá das quais nada nos é concedido. E todavia, teimo em crer que o silêncio está grávido de sentido…

Este texto foi escrito ao abrigo do novo acordo ortográfico.

Sem comentários:

Enviar um comentário