terça-feira, 15 de março de 2011

«O bom inverno»



«O bom inverno»: um livro de cuja leitura se frui, quase sem ter tempo para retomar o fôlego. Uma escrita segura e bela, uma história recheada de amor, perversidade, estranheza e culpa, um discurso escorreito e sem tropeços: tudo num romance que funde a linguagem metaliterária com o texto propriamente literário, numa amálgama saborosa em que o leitor é confrontado com a ação ficcional da escrita estética — o seu afastamento em relação à «verdade», a sua «mentira» — e com o facto de o texto pretender afinal responder a uma pergunta e, portanto, estar intrinsecamente enraizado na realidade.
Será a mentira de um romance uma autêntica mentira, ou seja, o fruto despudorado de uma construção arbitrária de quem pretende recriar o real com o fim de o transformar conscientemente, aos olhos do leitor, numa reportagem? Não creio. Penso antes na verdade como um conceito polissémico. E se é incontestável que os factos narrados não são necessariamente factos existentes nalgum tempo e nalgum espaço, a relação entre história humana e história narrada é sempre discutível, mesmo quando se trata de uma narrativa historiográfica. É um ponto de vista sobre a realidade, não é decerto o único ponto de vista possível. E quanto à história literária, faz ressurgir nas relações entre personagens, nas paisagens descritas, nas emoções provocadas, nos factos narrados, etc. o humano na sua pluridimensionalidade, com a qual nos deparamos em cada instante da nossa existência. Não é uma imitação «fotográfica» do real, é uma sua transfiguração. Não é o resultado arbitrário de uma criação individual, é o fundo da história humana para lá dos fenómenos que possamos simplesmente e superficialmente observar. Por mais ficcional que seja, um romance, um bom romance, tal como uma qualquer obra de arte de qualidade superior, expõe-nos à grandeza e à miséria do ser humano e coloca-nos perante o que somos ou o que poderíamos ser se alguma vez tivéssemos vivido uma experiência semelhante.
E neste sentido, o livro de João Tordo fez-me refletir.


Este texto foi escrito ao abrigo do novo acordo ortográfico.

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