sábado, 5 de março de 2011

«A minha fé»



Terminei hoje a leitura do livro «Ciò che credo» («A minha fé»), de Hans Küng. É o resumo, denso e profundo, de um octogenário que dedicou toda a sua vida à investigação teológica e à relação da teologia com outras áreas do saber, como a filosofia, a ciência, a arte, a história geral e a história das religiões em particular, a economia, a política, etc. A sua monumental obra é o testemunho deste incansável diálogo com o mundo, procurando oferecer sentido onde ele escasseava.
Talvez valha a pena, para quem não conhece os meandros da teologia católica, dar algumas notas biográficas. Hans Küng nasceu em 1928, na Suíça de língua alemã. Estudou teologia em Roma e em Paris onde concluiu o doutoramento. Muito jovem ainda ocupou a cátedra de teologia fundamental na universidade de Tubinga. Depois do papa João XXIII ter declarado a sua vontade de convocar um concílio ecuménico, as suas intervenções arrojadas estiveram na base do convite para participar nos trabalhos conciliares enquanto perito. E foi assim que influenciou — ao lado de outros grandes nomes da teologia e de uma maioria corajosa de bispos — o percurso reformista do concílio, procurando a todo o custo limitar a influência excessiva da cúria romana nos trabalhos, que provocaram não poucos entraves às reformas necessárias.
Terminado o concílio, a sua intervenção, através de pesquisas de grande fôlego, foram provocando algumas fissuras na estrutura eclesial romana. A relação com a cúria e com o papa João Paulo II (homem de grandes qualidades, mas profundamente conservador em matéria religiosa) atingiu o ponto de maior conflito quando Hans Küng publicou o seu estudo sobre a infalibilidade e o poder universal (jurídico) do papa sobre toda a Igreja. Contra uma visão centralista e não democrática da Igreja, preconizava a existência de um serviço universal do papa despojado de todo o poder absoluto que foi adquirindo a partir da Idade Média. A rutura com as instâncias de poder não podia deixar de acontecer. Em 1979, Roma retirou-lhe a licença para ensinar teologia católica. Continuou, no entanto, a ensinar em Tubinga onde foi criada para ele a cátedra de teologia ecuménica, dado o prestígio que tinha adquirido a nível interno e internacional.
O livro que publicou recentemente é uma obra profundamente sentida de um ancião que sabe estar a chegar ao fim do seu percurso existencial e tem a plena consciência do dever cumprido. Num único volume passa em resenha as principais áreas sobre as quais se debruçou ao longo da sua vasta carreira, não deixando de propor linhas de orientação para o futuro planetário, sobretudo, a importância de uma ética partilhada universalmente que sirva de bússola à ciência, à economia, à política, à religião e, em geral, às relações sociais.
Estamos longe de ter alcançado as reformas por ele defendidas, mas não tenho muitas dúvidas sobre a sua inevitabilidade, tanto no que se refere à Igreja católica, como às relações ecuménicas cristãs, à paz e colaboração entre as religiões mundiais, à formulação e aceitação universal de princípios éticos que norteiem as relações económicas e políticas, à paz mundial, fundada exatamente nesse conjunto, partilhado por todos, de orientações éticas essenciais. Citando Gorbaciov alerta para o facto de a vida punir quem chega demasiado tarde. E esta advertência deveria fazer pensar quem tem influência, no interior das Igrejas, das religiões, dos Estados, das organizações e das sociedades.
Um livro que parte da afirmação da necessidade de se adotar e manter uma confiança fundamental na vida, a qual produz em cada ser humana uma autêntica alegria de viver, afirma a importância de abraçar um sentido absoluto e permanente (Deus), em quem o ser humano pode encontrar uma orientação segura e estável no mar inconstante da existência, e desfia sábias reflexões sobre o sofrimento e a falência da vida que só o regaço eterno do Ser poderá resgatar ao nada onde aparentemente mergulhara.
Um livro a não perder. Como tantos outros que este homem desabrido, corajoso e livre foi escrevendo durante cinquenta anos.


Este texto foi escrito ao abrigo do novo acordo ortográfico.

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