quarta-feira, 30 de março de 2011

Crer em Deus num mundo sem lugar para Deus


Em conversa de café, um colega de trabalho perguntou-me à queima-roupa:
— Mas tu acreditas mesmo que existe um deus?
Na minha ingenuidade, disse-lhe que sim, que a existência de Deus era convicção profunda. E depois desfiei os meus argumentos, certamente destituídos de um grau de probabilidade elevado, mas suficientes para que continue a acreditar, perante a incredulidade do meu colega que não é capaz de vislumbrar nenhuma manifestação de Deus no universo imenso.
É bem verdade o que dizia Paul Ricoeur a este respeito: é preciso adquirir uma segunda ingenuidade para ter fé, apesar de tudo, num Deus inteiramente bom que se interesse pelo universo, inclusive por esta poeira cósmica que se chama humanidade. Tal como a criança, num primeiro grau de ingenuidade, se lança no colo reconfortante e seguro dos pais, assim o adulto crente vive na confiança de que o nada, a morte e o absurdo não são resposta credível e aceitável para a condição humana: e deixa-se levar confiadamente ao colo de um mistério que desconhece mas no qual encontra todo o sentido para lá das intempéries da vida. É o segundo grau de ingenuidade.
Todas as provas soçobraram. Todos os argumentos racionais se mostraram de valor diminuto. E a ciência foi retirando a Deus o seu lugar de guardião dos fenómenos naturais inexplicáveis. Hoje, parece quase um absurdo atrever-se a crer num deus, qualquer que seja a sua configuração. Fazê-lo é assumir tão pouco rigor racional como quem acredita em extraterrestres ou em fantasmas. O dogma do mundo contemporâneo — que, evidentemente, não é imposto a ninguém com as armas que a fé outrora usava, mas não deixa de ser imposto com a subtileza do ar que se respira — é que o sentido da existência humana se esgota na fruição do pouco tempo de vida que cabe a cada indivíduo. Diverte-te, aproveita o tempo, não deixes que as horas passem sem que as saboreies segundo após segundo, faz o que te dá prazer, abraça as coisas boas da vida… E, no seu reverso, afasta todas as experiências de angústia, onde a nulidade da vida flutua. Quais aves raras, os crentes parecem ser uma espécie em vias de extinção, mergulhados na ilusão de quem olha para lá do visível e vê o que não é possível ser visto, pressente o que a lucidez da razão não permite que se pressinta.
E já não falo no cúmulo de dogmas que as religiões tendem a codificar, como se fossem evidências! Se nem Deus — essa necessidade absoluta que o coração acolhe — é transparente às pessoas que nos rodeiam, o que será de toda a parafernália de catecismos e códigos repletos de afirmações que colidem com o mais elementar sentido racional?

Este texto foi escrito ao abrigo do novo acordo ortográfico.

Sem comentários:

Enviar um comentário