quarta-feira, 23 de março de 2011

À beira da crise política


A política tem mostrado ultimamente o seu lado mais selvagem. Conduzida por seres humanos que carregam o fardo dos seus defeitos e dos seus limites, terá sempre algo de caduco. Nenhuma política será a solução para todos os problemas existentes. Por um lado, porque novas circunstâncias trazem novos problemas. É preciso encontrar, portanto, novas soluções que resolvam as areias na engrenagem da vida social. Por outro lado, porque todas as políticas são falíveis, tal como os seres humanos que as esboçam.
A juntar à complexidade das dificuldades e à falibilidade das possíveis soluções, temos, também, os limites pessoais de cada político. E é aqui que as coisas se complicam ainda mais. Uns gostam de se mostrar intransigentes porque julgam que qualquer abertura às posições dos outros será sempre entendida como sinal de fraqueza e punida em futuras eleições. Outros, ávidos de poder, conduzem a sua ação exclusivamente com o fim de derrotar quem detém o poder (se não for o próprio) e conquistar e manter a liderança, talvez por considerarem que se aproximam um pouco mais daquela autonomia infinita a que até a morte terá de obedecer. Outros, ansiosos por atingir um status social de elevado grau, gostam de ocupar os lugares cimeiros da vida pública. É possível que pretendam sentir-se simultaneamente úteis e indispensáveis, enquanto o reconhecimento dos demais lhes acaricia a vaidade. E talvez todos pretendam agir convencidos de que têm para os problemas concretos as soluções definitivas ou, pelo menos, certas.
Num momento de crise como o atual, seria de esperar que cada um tomasse consciência da sua falibilidade intrínseca, da sua incapacidade para encontrar todas as soluções desejáveis e necessárias e se dispusesse a escutar os outros. Mas como os fins mais altos parecem ser de ordem pessoal, toda a intervenção crítica é interpretada como um ataque numa guerra sem tréguas, de vida ou de morte. E quando o país precisava de alianças profundas e alargadas que fizessem convergir os contributos de todos (ou de muitos), vemos os nossos políticos assestarem as armas para que nada de exógeno possa ressumar a carapaça em que se escondem. Todos sabem o que implica semelhante atitude. Todos sabem que os problemas de vão avolumando, atingindo dimensões que põem em risco não só a presente geração, que os não resolve, como as gerações futuras que hão de herdar os desmandos dos pais.
E é assim que, quando nos estamos a afogar num lamaçal económico e financeiro de dimensões apreciáveis, estamos também à beira de uma grave crise política, adiando as soluções e entregando a chave do país às grandes instituições do capitalismo «moderno». Depois queixam-se da má imagem que a classe política tem e do contínuo aumento da abstenção eleitoral! Num país onde cada um parece estar mais interessado em resolver a sua vidinha — quer tenha ou não implicações sociais — do que em executar projetos credíveis que produzam efeitos positivos, até me admira que alguém se mace no dia de eleições e vá ao local de voto escolher a mesquinhez que nos governa ou nos quer governar.

Este texto foi escrito ao abrigo do novo acordo ortográfico.

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