quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

«Uma viagem à Índia»


Em «Uma viagem à Índia», de Gonçalo M. Tavares, Bloom é o «herói». Acolhendo a estrutura d’ «Os Lusíadas» e permitindo que ressoe no interior da narrativa uma miríade de textos fundacionais da literatura ocidental — entre os quais o «Ulisses» de James Joyce —, o autor relata a história de um homem igual a tantos outros, perdido no mundo humano, no qual lhe não cabe nenhum papel de relevo. Um homem literalmente perdido para a vida e para o sentido que ele possa ter ou possa adquirir no processo existencial de um itinerário autoimposto.
Bloom decide viajar para a Índia, não já como os seus antepassados em busca de glória e de riqueza, mas simplesmente em busca de um amor que se havia extraviado, ou da sabedoria, ou do Espírito… Enfim, de qualquer ponto de referência a partir do qual a sua existência pudesse ganhar sentido, se é que alguma vez o teve.
Bloom amara Mary (um remoto vestígio de Inês de Castro). O seu pai (um remoto vestígio de Afonso IV) assassinara-a. Entretanto, Bloom matara o pai, sem dúvida para vingar Mary. Havia que deixar Lisboa e embarcar para onde o esquecimento de todo o sofrimento tornasse possível a vida, mas também para onde fosse possível preencher o vazio da morte de Mary e do pai, que amara também. Viajar para o outro lado de si mesmo, numa espécie de purificação do eu para que se possa conceber mais humano. A Índia, pois, a Índia, o país da mística, do Espírito, do encontro com a totalidade do ser, do reencontro de cada um consigo mesmo… Chegar à Índia por dentro — construindo o esquecimento, buscando na calma e na inação a sabedoria —, antes de lá chegar fisicamente, eis o que Bloom pretende.
Contudo, para onde quer que vá transporta consigo o seu próprio ser que tem inscrito a sangue a memória do que fez e do lhe foi feito. Não é pois possível escapar a si mesmo. A viagem é sempre o caminho de si para si, o regresso à origem e nesse regresso o reencontro com a falência do que se é. Leva no bolso o rádio avariado do pai. É todo o passado que se impõe no bolso da sua consciência, incluindo a memória do pai, danificada pela morte, que não consegue abandonar, por mais que o queira. Somos a totalidade do que construímos em cada opção, em cada decisão, em cada ação…
Antes de aportar na Índia, Bloom decide que o percurso deve ser longo. Só assim será tomado pelo cansaço, podendo transformar o seu local de chegada num autêntico destino onde pernoitar até onde a vida o permitir. Afinal, para quê regressar?
Passa então por Londres onde se acumulam experiências negativas que o confrontam com o pior da condição humana: a avidez, a instrumentalização do outro, a morte de qualquer relação que se possa remotamente aproximar daquilo que se concebe como humano.
Nova paragem, agora em Paris, onde faz amizade com Jean M. Paris é o paraíso e será a Ilha dos Amores, do prazer da vida, da luxúria, e também da amizade.
Depois de várias peripécias recordando o Magriço e os Doze de Inglaterra, embarca e é tolhido pelo medo da tempestade. E o medo é, para Bloom, a origem de toda a religião. Por isso, reza, enquanto a intempérie dura.
Agora é tempo de aportar onde a sua decisão o havia levado: a Índia tão sonhada, tão ideal, tão distante do tumulto dos acontecimentos. Bloom mergulha numa Índia que não procurara e que não desejara: a Índia dos contrastes sociais e sócio-religiosos. A religião é uma promessa adiada junto da miséria urgente!
O Oriente místico revela-se, afinal, profundamente doente, inquinado pela maldade humana, ínsita na condição de cada cultura, de cada povo, de cada ser. Um místico procura roubá-lo; sobretudo, roubar-lhe os dois livros que consigo transporta como síntese da cultura ocidental: as «Cartas a Lucílio» e o teatro de Sófocles. Porém, Bloom leva a melhor e não só parte com os seus bens como ainda se apodera de uma edição rara do Mahabarata — a síntese da mística oriental. E foge. Foge do local onde — sabe agora — nunca há de encontrar a sabedoria. A Índia é o lugar da perda de todas as ilusões. Todos os seres humanos são iguais, seja qual for a cultura a que pertençam. Todos estão intimamente destroçados pela ganância e pelo egoísmo.
Regressa, assim, dececionado, a Paris. Entrega-se ao prazer, que se desdobra na luxúria e na bebida. A única sabedoria que lucidamente encontra. Toda a existência se refaz em torno do único valor que ainda resiste a todas as desilusões, porque real e concreto, porque possível de alcançar. E afinal não será o prazer o único valor capaz de levar o ser humano a esquecer a dura realidade da morte, da vingança e até do amor, porque efémero? É o afastamento do mundo ético, quase religioso, que o levara à procura de si mesmo na Índia distante, onde não existia. Agora, livre de todos as amarras éticas, pode fruir das delícias que a Ilha dos Amores, encerrada num apartamento de Paris, lhe oferece, numa fuga para a frente. Fuga de si mesmo, alienação no outro que se transforma em mero instrumento do próprio prazer.
«Ninguém se conhece antes de morrer»; estamos demasiado perto de nós mesmos. A procura de distância em relação a si mesmo, para se poder observar como objeto e assim compreender-se, levara-o à Índia, onde descobrira que se não pode olhar do próprio exterior. Está inevitavelmente encerrado no cárcere de si. E neste degredo onde vive não há companhia. O Espírito, que outrora fora hóspede de cada ser, é hoje uma mera ilusão. A derrota da pobreza e a descoberta da imortalidade hão de inumar as religiões. Na verdade, o ser humano existe inteiramente só, na luta pela sobrevivência e pelos bens que a tornam possível.
A felicidade — que na Índia não pôde ser achada — está ali, num simples bordel de Paris. A alienação de si e, simultaneamente, elevação da sua liberdade individual sem pontos de referência a fonte inesgotável de toda a existência individual. O mundo incoerente desfila diante de Bloom como numa bola de cristal. Afinal, Oriente e Ocidente coincidem, falam a mesma linguagem: a do predador. Por isso, Bloom pode transformar-se, sem pestanejar, num assassino que mata pelo simples prazer de o fazer, sem qualquer razão que sustente o ato.
E enquanto o relógio avariado do pai ainda preenche o bolso de Bloom, o nosso herói desembarca em Lisboa e despoja-se de tudo quanto tem, de todas as referências que habitam a sua mala de viagem, depositando-as nas mãos de um sem-abrigo. Porque o mundo de Bloom não pode senão soçobrar no tédio da vida sem qualquer espécie de sentido.


Este texto foi escrito ao abrigo do novo acordo ortográfico.

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