domingo, 20 de fevereiro de 2011

Um Memorandum

 Judith Könemann, teóloga de Münster

Um Memorandum subscrito por duzentos e trinta teólogos alemães e vinte teólogos de outras partes do mundo, publicado no dia 3 de fevereiro de 2011, põe o dedo na ferida e aponta os necessários caminhos para a renovação, tão necessária quanto urgente, da Igreja Católica. De facto, só uma miopia extrema não vê a crise profunda com a qual a Igreja se debate. Não seria grave se os efeitos se fizessem sentir apenas na Igreja, enquanto estrutura, e até na sua credibilidade como instituição. Grave é, na verdade, o efeito que essa cada vez menor credibilidade tem sobre a maneira como as pessoas avaliam o conteúdo do seu anúncio, ou seja, o Evangelho de Cristo. É que a Igreja não vive para si mesma, mas para o Evangelho (a boa nova) de um Deus inteiramente dedicado aos seres humanos e à sua felicidade. Privar as pessoas dessa boa nova por incúria da instituição e rigidez ideológica é faltar aos fins para que foi fundada e negar a Cristo o seu justo lugar no mundo.
Assim sendo, propõem estes teólogos as seguintes reformas:
1.      Introdução de estruturas de participação de todos os crentes na vida da Igreja e nas decisões que a todos dizem respeito, desde a escolha dos párocos à escolha dos bispos;
2.      Ordenação de homens casados e de mulheres;
3.      Reforma do direito canónico, permitindo o direito dos crentes à própria defesa e a criação de uma magistratura eclesiástica inteiramente imparcial;
4.      Respeito pela liberdade de consciência individual, sobretudo no que se refere às opções da vida privada, incluindo a negação de qualquer forma de exclusão de casais do mesmo sexo que vivam responsavelmente o amor recíproco ou de divorciados recasados;
5.      Recusa de uma moral rigorista, onde dificilmente se encontram vestígios de misericórdia, e incremento de atitudes de reconciliação que se abstêm de usar violência, privar os crentes dos seus direitos ou subverter a mensagem bíblica da liberdade;
6.      Rejeição de uma liturgia tradicionalista e única para todas as comunidades, independentemente do contexto cultural onde vivam; liturgia essa que tende a satisfazer-se com os ritos que o passado lhe legou sem ter em conta o contexto moderno e diversificado em que a Igreja existe pelo mundo fora; isto significa uma maior liberdade de criação litúrgica local e consequente adaptação a contextos específicos.
Aqui fica mais uma nota deste movimento universal que, no interior da Igreja Católica, clama pela transfiguração da Igreja, no sentido de a tornar credível e mais conforme à mensagem originária de Cristo.
Oxalá a hierarquia dê atenção a estes ecos que lhe vão chegando abundantemente de muitas partes do mundo e desembarace a Igreja de atavismos inúteis (e, a meu ver, errados) como a crença no Diabo e nas suas supostas possessões, a prática de exorcismos, a crença em milagres (ainda necessários para declarar alguém santo, como se a santidade de uma pessoa derivasse de fenómenos extraordinários e não da sua conduta de vida), a adesão a aparições de seres transcendentes e outras crendices que mais se aproximam da superstição do que da fé autêntica.

Este texto foi escrito ao abrigo do novo acordo ortográfico.

1 comentário:

  1. Ola meu caro Paolo,

    Prefiro nao me identificar por algumas razoes, contudo gostei imenso deste artigo. A Igreja tem de ser mais audaz e menos institucionalizada... Alias esse foi uum dos propositos do concilio Vaticano II. Nao foi esta a linea do concilio ? Um abraço e continue a escrever ...

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