sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Rebelião e globalização

As notícias que nos assaltam a pacatez do lar trazem-nos as marcas de violência, mas também de esperança, que ensombram o mundo muçulmano. Os povos parecem querer aquilo que lhes foi sendo negado ao longo de séculos: o direito a construir o próprio futuro, sem tutelas que os mantenham num estado de menoridade. A essa realidade não é certamente alheia a condição global do mundo moderno. A informação corre à velocidade das ondas de rádio e dificilmente pode ser inteiramente obstruída pelos senhores que usurpam aos seus concidadãos o direito de participar e de intervir na organização da coisa pública.
A globalização arrasta consigo muitos aspetos negativos. Mas se formos honestos havemos de ver neste fenómeno atual muitos outros que abrem portas inesperadas sobre o futuro dos povos e dos indivíduos. Conhecendo a situação em que vive a população dos países mais ricos, também os pobres exigem sentar-se à mesa da abundância. E têm todo o direito a requerer assento nesse banquete. Sabem também que tal não é possível em sociedades onde a corrupção alastra como vírus à conquista do organismo onde se instalaram.
Apesar dos problemas das democracias pluralistas — e são muitos — ainda é o sistema que melhor responde aos anseios mais profundos das populações, ávidas de condições de vida verdadeiramente humanas. E eles sabem que só derrubando os poderes instituídos é possível reconstruir as sociedades sobre outras bases, e que a sua queda nunca será voluntária. A rebelião — embora não violenta — é a condição de possibilidade das transformações sociais e políticas desejadas, e algumas perdas humanas constituem os efeitos nefastos mas quase inevitáveis. Ainda assim, não se esquivam, corajosamente, ao confronto não violento com as autoridades.
Um dos aspetos que nos revela a alteração profunda das sociedades contemporâneas, empurradas pelo movimento da globalização, é a necessidade de os poderes autocráticos desses países sentirem obrigação de se explicarem frente à opinião pública não apenas interna mas também externa. É que eles sabem que nenhum povo pode florescer sem se relacionar com os demais e essa relação fica inevitavelmente manchada por eventuais imagens de violência exercida brutalmente contra os próprios concidadãos. Os governantes dos povos estão hoje, mais do que nunca, sob o olhar atento da opinião pública mundial e porque nos tornámos uma comunidade global a imagem que nela imprimem tem efeitos sobre a sua credibilidade e eventualmente sobre a sua subsistência.

Este texto foi escrito ao abrigo do novo acordo ortográfico.

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