sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Homo sapiens sapiens

As notícias televisivas — aquele rosário de penas que nos confrange e nos distorce o sentido da realidade (porque nunca é tão má como a representam) — estabelecem connosco uma espécie de relação amor-ódio. Não desejamos ser confrontados com tamanha quantidade de desgraças e, contudo, somos incapazes de viver muito tempo sem nos aninharmos frente às narrações, curtas e acutilantes, do terror que por aí anda. É certo que sossegamos a nossa consciência dizendo que o fazemos para estarmos a par do que sucede no mundo onde a nossa existência está inevitavelmente inscrita. Mas, por vezes, suspeito que o fazemos pelos mesmos motivos que os nossos antepassados tinham, sem os dissimular, quando saíam à rua para, de certa forma, participar nos espetáculos públicos dos autos de fé. Um certo sadismo interior que nos impele a ver, com algum agrado (apesar de simultaneamente nos horrorizarmos), esse rol de desventuras. Ou o facto de podermos comparar o sofrimento que à mesa da vida nos é servido com o sofrimento alheio e, fazendo-o, nos tranquilizarmos com a leveza relativa da nossa situação. De certa maneira, a dor dos outros apazigua-nos, porque sentimos que são solidários connosco quando nos toca à porta a negrura das adversidades. O que não toleramos, de modo nenhum, é vivermos inteiramente sós. As experiências singulares, sobretudo quando negativas, inquietam-nos tanto que, se não estivermos munidos da necessária força interior, podemos ser definitivamente abalroados por elas.
Ponhamos de lado estas considerações e vamos ao que me aqui trouxe. Duas notícias pronunciadas de forma desgarrada, como se não houvesse qualquer conexão entre si: mulheres romenas transformadas em prostitutas por um bando de malfeitores e queixas de violência doméstica que aumentaram entre pessoas com níveis académicos superiores.
Estamos no início da segunda década do século XXI. Os avanços são a quase todos os níveis sensacionais e vertiginosos. Só a nossa condição de seres humanos continua tão ambivalente como no tempo das cavernas. Compramos mulheres como escravas, instrumentalizamo-las para fins financeiros, exercemos sobre elas a violência que toda a pujança da nossa massa muscular permite, submetemo-las ao nosso arbítrio, inteiramente discricionário e irracional, fazemos percutir sobre as suas consciências, vezes sem conta, a ideia de que estão destituídas de qualquer valor, se pretenderem viver fora da ligação que lhes impomos, até demolirmos a sua autoestima e as transformarmos em objetos que arrumamos nos recantos da nossa vida como nos der prazer.
E é assim que, quando chamadas a depor contra os seus opressores, muitas delas defendem-nos quanto podem, pois não encontram noutro contexto qualquer sentido para a sua mísera existência. Reduzidas a sombras, nem se apercebem da crueldade a que estiveram sujeitas! Tornaram-se incapazes de construir realidade. Vivem passivamente, ao sabor dos eventos que outros fazem acontecer.
Outras temem pela própria vida, temem pelos filhos, temem pelos juízos que outros possam fazer a seu respeito. E o temor — ou melhor, o pânico — mantém-nas sequestradas em salas perdidas no próprio mundo interior, ou do que sobra dele.
Cerca de cem mil anos de evolução (se não contarmos com os hominídeos anteriores ao homo sapiens sapiens) não foram suficientes para fazermos justiça ao nome que convencionalmente nos atribuímos. Talvez tenha sido presunção nossa não só autointitular-nos sapientes como o fazermos duplamente. Bem sei que esta sabedoria talvez queira apenas dizer que temos um cérebro tão desenvolvido que dominamos os quatro cantos do mundo e exploramos o que existe até ao horizonte do universo.
Para mim, todavia, o homem sapiente é aquele que sabe viver, que reconhece nas pegadas dos outros o mesmo traço de humanidade, que não se ilude quanto ao facto de poder alguma vez ser feliz sem ao mesmo tempo proporcionar condições para que os outros o sejam também. Quantos milhares de anos ainda serão necessários até alcançarmos a nossa verdadeira condição de humanos?

Este texto foi escrito ao abrigo do novo acordo ortográfico.

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