quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

Funeral

Quando atendi a chamada, ouvi, do outro lado, a voz cava da minha tia. Soube quase imediatamente o que se havia passado. A minha avó morrera. Já era notícia esperada, dado o estado de decadência física (mas não psíquica) em que se encontrava, no interior dos seus noventa e dois anos.
A vida não fora para ela nada benevolente. E apesar de tudo, aguentara a violência com que as circunstâncias a haviam várias vezes fustigado. Agora terminara tudo. Ou talvez não. A voz calma do padre assegurava que não, que havia ressurreição, que Deus não permitia que o que havia sido se perdesse na vastidão do nada. E eu, convicto de que assim era, tomava o cadáver presente pela ausência da minha avó.
Ainda que sejam de recolhimento, estes momentos são igualmente de encontro. Há familiares ou conhecidos que só se veem em acontecimentos que fogem à rotina quotidiana. E a morte de alguém é certamente um desses eventos. Se fôssemos autenticamente cristãos, se acreditássemos até ao limite, negando à dúvida que se instale na alma, talvez até pudéssemos transfigurar o ritual da morte num encontro com a luz, com a vida, com a eternidade, por onde caminham os nossos sonhos. E em vez do ar fechado que os rostos ostentam, a alegria do desfile da vida abriria a face de cada presença. A morte inteiramente transfigurada pela vitória da vida!
Chegou a hora de conduzir o corpo até ao silêncio da Terra. E o cortejo seguiu, sob um sol de inverno limpo e promissor. Entretanto, um primo disse-me, recatadamente:
— Quando chegarmos, vão abrir.
— Para quê? — perguntei, apesar de conhecer a resposta.
— Para as pessoas se despedirem. Antes de fecharem o caixão, perguntei ao tipo da agência se não dava tempo para a despedida e ele disse-me que o haviam de abrir ainda no cemitério. E é o que vão fazer — disse ele enquanto debandava, sem permitir que eu respondesse, quase irritado com a minha incompreensão.
Chegados ao local, o ritual cadenciado das orações fúnebres aconchegaram os corações entristecidos. E depois, o ritual da despedida, cuja existência era impenetrável à minha compreensão, pela inutilidade do gesto e pela distância entre o que ali está e o que choramos. A minha tia, irmã da minha avó, aproximou-se do cadáver e chorou sobre o rosto macilento, enquanto dizia «a próxima sou eu, a próxima sou eu». E é assim que na morte do outro nos encontramos todos junto ao abismo da nossa própria ausência ou da ausência do mundo para nós. E se é certo que morremos um pouco com os mortos que amámos, também com eles nos lembramos da eternidade que nunca vivemos, antes de termos vindo ao mundo, e da eternidade que virá, depois de sairmos dele. Um ponto na extensão do tempo e do espaço. Um ponto inútil. Ou talvez não.

Este texto foi escrito ao abrigo do novo acordo ortográfico.

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