domingo, 27 de fevereiro de 2011

Diplomacia ou hipocrisia?

O ministro dos Negócios Estrangeiros, Luís Amado, nitidamente pouco à vontade com a relação diplomática de Portugal com a Líbia, veio afirmar que «uma política externa não se funda apenas em princípios mas também em interesses». Esta frase revela o triunfo prático do maquiavelismo nas relações entre Estados, sobre todas as teorias que pretenderam humanizar a política dando primazia aos princípios éticos sobre os interesses materiais.
No fundo, Luís Amado não faz mais do que declarar aquilo que é a orientação diplomática de todas (ou porventura quase todas) as nações do mundo. Nada de novo sob o Sol! Mas a questão central não está em sabermos que os princípios e os interesses jogam, cada um a seu modo, um papel importante nas relações internacionais; a questão central é a de sabermos qual das orientações tem, na nossa hierarquia de valores, a primazia: se os princípios éticos, se os interesses materiais. E embora a frase o não admita, lê-se, como num texto apagado de um palimpsesto, que os interesses materiais têm prioridade na ação diplomática.
E o que sobra nas mãos dos povos é a esquizofrénica circunstância de os seus governantes defenderem nos fóruns internacionais e no discurso político o que não praticam na relação concreta com os demais países. Se, mutatis mutandis, aplicássemos à relação interpessoal esta mesma atitude, diríamos aos outros que estamos com eles porque reconhecemos serem portadores de uma inalienável dignidade. Contudo, logo que os nossos interesses se mostrassem opostos aos seus, retirar-lhes-íamos o tapete debaixo dos pés sem perdermos tempo com qualquer reflexão sobre as nossas prioridades e, sobretudo, sobre a relação entre o que defendemos e o que efetivamente realizamos. Diríamos de uma pessoa assim que é hipócrita e indigna da nossa confiança. E na verdade, o que vemos acontecer na cena internacional? Agora que os ditadores estão sob o fogo cruzado do seu próprio povo e as suas decisões não podem implicar com os nossos interesses, uma vez que sairão vencidos na luta pelo poder, puxamos-lhes o tapete e deixamo-los cair com a mesma facilidade com que os abraçávamos efusiva e descaradamente, aquando das abundantes visitas que até há bem pouco tempo se cumpriam.
Com isto não pretendo defender que o nosso governo devesse manter o seu apoio aos tiranos do Norte de África. Apenas me contentaria se tivesse observado uma relação mais fria e distante quando esses senhores nos visitavam ou os nossos líderes políticos iam aos seus países para tratar de negócios. Reconheço não ser possível pura e simplesmente deixar de manter relações diplomáticas com países estratégicos para a política externa que não cumprem as mais elementares regras consagradas nas declarações de direitos. No entanto, há maneiras de o fazer, assegurando ao mesmo tempo os interesses estratégicos e a luta constante pela universalidade dos valores contidos nessas declarações.
 
Este texto foi escrito ao abrigo do novo acordo ortográfico.

1 comentário:

  1. Achei muito interessante, o modo convidativo e agradável com que transmite os fatos ao leitor! Parabéns pelo post e pelo blog!

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