sábado, 22 de janeiro de 2011

Um sentido para o sofrimento?

O fariseu e o publicano

O livro bíblico de Job pretende responder a uma das maiores perplexidades humanas: como pode Deus conviver com o mal que todos os dias atravessa a nossa existência? Sendo Deus, por definição, sumamente bondoso, não seria de esperar, se existisse, que interviesse quando o curso do mundo põe em risco a justiça e, com ou sem o concurso da ação humana, o ser humano é injustamente submetido a maus tratos intoleráveis?
O livro de Job manifesta, pois, o conflito entre uma visão tradicional, assumida pelos seus amigos, e uma visão mais lúcida que não mascara a realidade e se defronta com toda a injustiça que assalta o mundo sem que seja possível descortinar qualquer explicação racional convincente. A conceção tradicional pretende assegurar que tudo o que sucede é o resultado da justiça de Deus, que conflui de forma inexorável na história humana. Job, pelo contrário, observa a vida e não vê nela essa transparência que os seus amigos teimam em repropor.
O próprio livro avança com diferentes explicações para a questão do sofrimento do justo. A primeira, que abre o livro de Job e constitui o seu prólogo, é a de que o sofrimento existe para pôr à prova o ser humano e verificar se a confiança em Deus vacila perante as intempéries da vida. Mas esta argumentação não convence. Como conciliar a imagem de um Deus inteiramente bondoso com alguém que permite a tortura do homem justo a fim de provar a sua lealdade?
A segunda razão parte do pressuposto de que não existe qualquer ser humano inteiramente justo. Assim, o problema do sofrimento do homem santo não se colocaria com a mesma acuidade, simplesmente porque nenhuma pessoa poderia considerar-se justa, aos olhos de Deus. Esta questão é tão central e até tão evidente que nos levaria a dar razão aos amigos de Job quando o acusam de sobranceria. Estaria Job na condição de julgar Deus exatamente por se autoconceber, sem sombra de dúvida, como homem justo? Só alguém falho de sabedoria e incompetente para perscrutar a sua vida e o íntimo da sua consciência pode arrogar-se tamanha soberba. Um tal ser humano poderia exigir a Deus a sua recompensa. A salvação já não seria um dom gratuito de Deus, mas uma conquista humana por obra dos méritos adquiridos em permanentes ações justas.
E se avançarmos alguns séculos, poderemos ler nos evangelhos a indignação de Jesus em relação a esta inaceitável postura. Leia-se, a título de exemplo, a parábola do fariseu e do publicano (Lc 18, 9-14) que entram na sinagoga para rezar. O primeiro, cheio de si mesmo, enuncia perante Deus toda a sua justiça e os méritos que daí decorrem. É verdade que agradece a Deus o facto de ter percorrido o caminho do bem (da Lei), mas, na sua postura enfatuada, transforma-se em alguém que angariou por sua própria conta os méritos que o hão de salvar. Este homem jamais há de conhecer a bondade de Deus, porque tudo o que tem é conquista sua. Pelo contrário, o publicano reconhece a sua condição de pecador. Tudo o que vier de Deus será experimentado como um puro dom da sua bondade infinita. Nada exige, nada reclama, espera apenas, cheio de confiança num Deus do amor absoluto. E a conclusão de Jesus é a seguinte: Deus justificou (tornou justo, salvou) o publicano, ao mesmo tempo que o fariseu foi para casa exatamente igual a si mesmo, ou seja, afastado da experiência que só o amor de Deus pode proporcionar.
Para Paulo esta é talvez a questão central da sua obra-prima: a carta aos Romanos. A tese de Paulo é a da universalidade do pecado: «Tanto os judeus como os outros [os gentios] estão dominados pelo pecado.» A única via para a salvação é, pois, a confiança em Deus, na sua bondade amorosa, na sua ação remissora.
Ora Job afirma indiscutivelmente a sua justiça, achando-se, por isso, no direito de julgar Deus pela não conformidade entre os seus méritos e os acontecimentos que se abateram sobre a sua vida e a da sua família.
Mas voltemos um pouco atrás. A segunda razão funda-se, pois, na inexistência de um só ser humano que se possa colocar perante Deus como justo. Deste modo, o sofrimento é encarado como o merecido castigo pela maldade praticada, ou como atitude corretiva no sentido de levar o pecador a arrepender-se do mal que havia cometido. Contudo, basta sermos observadores medianos para nos apercebermos que não há, em muitas situações (sobretudo no sofrimento das crianças), proporção entre o padecimento de uns e o mal que eventualmente tenham praticado. E é este facto incontornável que nos constrange a considerar inválida semelhante explicação.
Talvez a melhor perspetiva acerca do sofrimento humano, em geral, e do tormento do justo, em particular, esteja na impossibilidade humana de conhecer o seu eventual sentido — se é que o tem — e, na mesma linha, na incompreensibilidade do agir de Deus no contexto da vida humana e do mundo.
Não será esta explicação, ou ausência de explicação, uma fuga para a frente? Uma maneira de nos sairmos airosamente sem termos de pôr em causa a existência de Deus? É possível que sim. De qualquer forma, perguntemo-nos qual é a alternativa. Que sentido teria um mundo onde o sofrimento e a morte seriam realidades incontornáveis e Deus não existisse? Não teria decerto qualquer espécie de sentido. Uma tal realidade não só é estranhamente incompreensível no seu desenrolar histórico, mas uma vez que permanece fechado em si mesmo, sem pórticos sobre a eternidade, não pode alimentar a esperança de que, não se sabe onde ou quando, a justiça poderá ser cumprida e tudo poderá ganhar um sentido absoluto e inesgotável. E é esta esperança que alimenta a fé dos que acreditam num Deus pessoal. Talvez por ora não seja possível encontrar sentido para todos os factos do mundo, mas, se Deus existir, o não sentido, a injustiça, a mentira e a desolação não levarão a melhor. A utopia do Reino de Deus torna racional um mundo que teima em se ocultar nas pregas do tempo.
Todavia, esta abertura para o futuro absoluto (a ressurreição) não nos pode deixar ociosos em relação à construção de um mundo mais justo e humano. Antes pelo contrário. É a certeza de que «a glória de Deus é o homem vivo» que nos permite trabalhar incansavelmente pela paz e pela justiça mundial.

Este texto foi escrito ao abrigo do novo acordo ortográfico.

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