sábado, 29 de janeiro de 2011

Revoluções no Norte de África

O Norte de África parece ter despertado para a democracia. Passo a passo, lá vai conquistando novos terrenos e renovados corações. É que a liberdade não é um quê de supérfluo que se acrescente à condição humana. É o seu próprio núcleo. Privados de liberdade, seremos um arremedo humano, mas não gozaremos inteiramente do nosso estatuto especial de pessoas que ocupamos no conjunto mais vasto de seres vivos. E apesar de todos os seus limites, a democracia é a tradução política da liberdade humana. Podemos atrasar o processo da sua consecução ainda mais umas décadas ou até mesmo alguns séculos, mas a autonomia há de ser o futuro da humanidade.
Contudo, não temos ainda motivos para sermos demasiado otimistas. Já houve sistemas democráticos (ou próximo disso) na história da humanidade: a república ateniense e a república romana. E ambos soçobraram perante a avidez, que se traduziu em corrupção e implicou o desmoronamento lento e agonizante daquelas civilizações. A história não é linear. Evolui — parece-me — mas através de avanços e recuos.
Quando observamos o que sucede no berço da democracia hodierna (a Europa) invade-nos alguma perplexidade e um certo receio de que estejamos a percorrer o mesmo ínvio caminho das antigas sociedades democráticas na fase do seu desmantelamento e da sua substituição por sistemas autocráticos. A descrença no poder político, a enorme abstenção no exercício do direito de voto, a corrupção, as crises políticas, financeiras e económicas, o empobrecimento das populações e muitos outros fenómenos são sinais eloquentes e simultaneamente preocupantes de que podemos estar a aproximar-nos desse ponto crítico. E enquanto vemos, com esperança, os povos submetidos a oligarquias autoritárias reduzirem a escombros os sistemas que lhes tinham imposto para que a liberdade e a democracia possam florescer, olhamos para o cansaço europeu que se revela na indiferença e na desistência de muitos e bem como no desfrute de todas as possibilidades de que poucos se aproveitam, descarnando até ao tutano a maioria mais ou menos silenciosa, mais ou menos apática.
Haverá maneira de salvaguardar a democracia? Sem dúvida! Mas não será obra dos que engordam à sua custa. Só as bases o poderão fazer, se acreditarem que a sua ação pode transformar a realidade. Infelizmente, o desespero e a indiferença reinam um pouco por todo o lado. E a tal oligarquia agradece.

Este texto foi escrito ao abrigo do novo acordo ortográfico.

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