domingo, 9 de janeiro de 2011

O cristianismo enquanto sabedoria

Em conversa comigo, um amigo defendia que o cristianismo tem hoje de ser interpretado como uma sabedoria, se quiser ser credível.
O que é uma sabedoria? Não se trata de um conhecimento teórico ou de um modelo de interpretação do mundo, apesar de toda a sabedoria ter, como seu fundamento, uma qualquer visão do mundo. Uma sabedoria é um conhecimento prático que orienta a ação humana; uma ética, um universo de valores, um conjunto de princípios que norteiam o agir humano. A sabedoria é um saber pragmático e, portanto, inteiramente útil.
Estará a sabedoria desligada de todo o propósito? Ou seja, os fins da ação humana não serão tidos em conta quando um sistema sapiencial preconiza um conjunto de comportamentos? Penso que tal não é possível. Toda a sabedoria é um caminho, um meio que se orienta para determinados fins; sendo a felicidade o derradeiro propósito das suas propostas.
É por isso que não partilho da opinião segundo a qual o cristianismo não poderia ser reduzido a uma sabedoria, porque inclui a proposição do fim último (a salvação) e não apenas dos meios. Faria alguma vez sentido uma sabedoria que se restringisse a meros caminhos sem outro objetivo que não fosse percorrê-los? Parece-me que não e, na verdade, não conheço nenhuma sabedoria que circunscreva as suas propostas a meros itinerários sem qualquer finalidade. O budismo, por exemplo, que é talvez o sistema sapiencial mais conhecido e com repercussão num vasto número de pessoas, propõe caminhos direcionados para um fim último (o nirvana). Que esse fim esteja inteiramente ao alcance do ser humano, como um dado antropológico humanamente construído, ou seja uma dádiva de Deus, fora do campo manipulável do ser humano, é o ponto que distingue o budismo das religiões monoteístas. E nesse sentido, devemos acrescentar que o cristianismo é uma sabedoria cujo fim último não coincide com uma mera conquista da ação humana, mas com o dom de um Deus apaixonado pela humanidade. A polémica de Jesus com os fariseus é testemunho claro de que a virtude não outorga a ninguém legitimidade para se colocar perante Deus como quem adquiriu o direito à salvação, através do mérito das suas obras. Por mais santos que sejamos — e quem é verdadeiramente santo senão Deus? — seremos sempre mendigos da bondade divina que oferece a todos a salvação (a felicidade?) como dom gratuito do seu amor incondicional. Desta maneira, as boas obras não estão a montante, mas a jusante da salvação. Não são o preço que temos de pagar para adquirir a salvação, mas o testemunho de que Deus age em nós, aqui e agora, resgatando-nos à nossa imperfeição.
O cristianismo pode, pois, ser encarado como uma sabedoria, contanto que se refira a uma finalidade que, vinda de Deus, habita o coração humano como aquilo que é mais íntimo do que o seu próprio íntimo (Santo Agostinho).

Este texto foi escrito ao abrigo do novo acordo ortográfico.

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