domingo, 16 de janeiro de 2011

Job

Job era um homem piedoso. Não no uso corrente da palavra, mas no sentido propriamente religioso do termo: um homem que reconhece Deus como o seu refúgio absoluto. Por isso, Deus havia-o abençoado sobejamente. Rico de bens, a sua condição social era elevada e a sua fortuna não parava de crescer. Mas não lhe havia sido entregue apenas um património avultado, também a sua família era numerosa e a relação entre os seus membros produzia em cada elemento um efeito de felicidade duradoura dificilmente igualável. Enfim, Job era um patriarca feliz.
Na corte de Deus desenrola-se, contudo, um estranho acontecimento. Satanás semeia a dúvida acerca da lealdade de Job a Deus. Na verdade, ser fiel na prosperidade é coisa pouco louvável. Um homem só se reconhece pela sua grandeza quando é posto à prova e, no meio da maior angústia, se mantém fiel aos princípios que sempre defendeu e com os quais conduziu a sua vida. Seria Job fiel a Deus quando sobre ele se abatessem as mais terríveis adversidades?
A dúvida paira no ar. Deus decide então dar uma certa margem de manobra a Satanás, permitindo que faça aquilo para que existe. E sem mais delongas, Satanás abate o seu ódio sobre Job, roubando-lhe os bens e os seus entes mais queridos. E para sua surpresa, Job mantém-se firme: «Deus no-lo deu, Deus no-lo tirou». Tudo é de Deus, o que temos é um mero empréstimo. A qualquer momento, Deus pode reclamar o que lhe pertence.
Mas Satanás, na sua insídia suprema, não descansa enquanto não provar que a sua hipótese de partida estava certa como o diário nascer do Sol. Perante Deus, argumenta que à derradeira prova Job há de sucumbir na sua aparente lealdade. Por mais que estejamos dependentes dos bens que possuímos, por mais que amemos os nossos familiares, só quando a desgraça se abate sobre a nossa própria carne, fazendo tremer a vida até ao limite, é que havemos de tombar no desespero e duvidar do último reduto inabalável.
Certo de que Job é seu fiel amigo, Deus permite então que Satanás inflija a Job uma doença terrível. E é aqui que o cenário se desloca da corte divina para a terra dos homens.
O sofrimento de Job é grande como a linha do horizonte. Visitado por três amigos, aos quais se junta, na parte final, um quarto, Job e as seus visitantes permanecem sete dias e sete noites em silêncio absoluto por causa da angústia que viam espelhada na face disforme de Job. E há maneira mais sábia de encarar o sofrimento gratuito, sem justificação possível do que o silêncio? Haverá motivos que se possam aventar para tornar racionalmente compreensível o sofrimento humano? Talvez o silêncio, só o silêncio seja a atitude certa do homem sábio. Mas de que silêncio se trata? O silêncio da inércia perante a injustiça do momento? O silêncio do ódio mastigado lenta e vorazmente no espírito humano? O silêncio da perda de qualquer sentido para uma existência castigada por um mal que não reconhece?
Nos dias seguintes, Job e os seus amigos desembainham as espadas e com elas esgrimem uma luta feroz, ainda que apenas verbal, entre argumentos e contra-argumentos, revelando duas visões do mundo em colisão.
Job, consciente da sua inocência, não reconhece qualquer justiça nos males que sobre ele se abateram. Prefere perecer a viver assim, fustigado pela injustiça de um destino que lhe não havia de pertencer. Mais, preferiria nunca ter nascido se foi para aquilo que veio ao mundo. Job é um homem revoltado com a desgraça. Que motivo pode haver para tornar transparente o seu infortúnio? Job não encontra semelhante razão, por mais que indague os meandros do seu passado. Sempre fora leal ao Deus dos seus antecessores. Sempre fora honesto e trabalhador. Sempre tratara os outros com o respeito que lhes era devido e lhes acudira, quando fustigados pela desventura. Porquê o sofrimento a que Deus o havia sujeitado?
Da boca de Job ouvimos palavras duras de acusação a Deus. Transformando a ordem natural das coisas, Job eleva-se à condição de juiz, sentando Deus no banco dos réus. Se a desgraça existe é obra de Deus (de quem mais haveria de ser?); se fere indistintamente bons e maus, justos e injustos, exerce um poder discricionário que decide sem atender à condição ética da vida humana.
Os amigos de Job, escandalizados com o teor das suas palavras, defendem o princípio tradicional, o único que incute racionalidade à vida e defende Deus de toda a acusação: a perfeita correspondência entre bondade moral e prémio ou recompensa, que se revela na prosperidade e na felicidade, e entre maldade moral e castigo, que se revela na miséria, no sofrimento e na infelicidade do ser humano. Só assim é possível compreender o mundo dentro de uma ordem universal inteiramente justa e salvaguardar Deus de toda a ação imprópria.
E assim sendo, Job tem de reconhecer a sua condição de homem pecador sobre o qual sobreveio a justiça divina. Contudo, Job insiste que não encontra na sua ação passada nada de que se possa arrepender. Não reconhece, assim, qualquer justiça na ação divina. Estará Job cego e incapaz de perscrutar devidamente as decisões que tomou e as ações que praticou? Terá ficado a sua lucidez decididamente afetada? Pelo menos aos olhos dos amigos, as palavras de Job revelam total insensatez. Indaga Job a tua memória e lá hás de achar a razão da tua desventura!
Job insiste na sua inocência. Mas ao demolir a relação entre moralidade e consequências sobre a vida humana, Job perde a possibilidade de explicar a sorte do homem fustigado pela desgraça. Também a justiça de Deus é ocultada na desordem do mundo que constitui a sua visão da vida. Job constata simplesmente, de forma totalmente crua, a florescimento dos maus e a decadência humana dos bons. Até na morte vê agora um motivo para acusar Deus. De facto, a morte iguala todos os seres humanos, quer tenham agido bem do ponto de vista ético, quer tenham sido iníquos. Onde está, pois, a justiça de Deus? Na mente de Job, ocorre uma alteração radical da imagem divina, à luz dos acontecimentos perturbadores que assaltaram a sua existência: um Deus arbitrário, que não age porque está bem, mas apenas porque quer, cuja vontade infinita não se submete à racionalidade da ordem moral.
Job constata ainda a terrível solidão do homem sofredor perante a ausência de Deus. Dele não vem uma palavra de conforto, um gesto de amizade, uma carícia de pai… E assim sendo, não há como defender-se porque de Deus só o silêncio aterrador é resposta ao grito de injustiça. E o problema é tanto maior quanto mais atendermos ao contraste entre a omnipotência de Deus e a sua inação perante o clamor do sofrimento humano. Deus privou Job do seu direito à felicidade, que deriva da sua integridade moral.
Se ninguém é justo perante Deus — insistem os amigos —, as palavras de Job revelam a sua temeridade. Na verdade, a sabedoria, enquanto conhecimento absoluto do que é bem e do que é mal, é desconhecido do ser humano. Só Deus é inteiramente sábio. Para o ser humano, ser sábio é temer a Deus e esquivar-se do mal. E certo é que Deus envia o mal para que o ser humano tome consciência da sua perversão moral e se corrija, embora o mal que envia seja sempre inferior ao que o ser humano mereceria caso Deus não fosse misericordioso e quisesse estabelecer uma perfeita correspondência entre a iniquidade e o castigo devido.
Deus é justo porque governa o mundo e quem governa não pode odiar o direito. Mais: a impiedade de Job revela-se na sua postura atual perante Deus: pretende julgá-lo, exige que se retrate, revolta-se. E se Job é ímpio agora, já o terá sido, decerto, no passado. Em vez de concentrar a sua atenção no infortúnio de que foi alvo, Job deveria observar a grandeza de Deus e a sua magnanimidade, quando tudo criou e tudo colocou nas mãos do ser humano. Deus é grande e justo, disso não pode haver dúvida. É ponto inabalável e indiscutível — na perspetiva dos amigos de Job. O caminho da revolta conduz inevitavelmente à morte. A cólera leva ao desespero que tudo põe em causa, não deixando um único ponto de apoio (nem sequer a justiça de Deus) a que o ser humano se possa agarrar para não naufragar. É o poder de Deus e a sua sabedoria que o colocam a salvo de qualquer crítica.
Na verdade, se não vemos no mundo uma perfeita correspondência entre ética e felicidade é porque o agir de Deus é incompreensível para o ser humano. Mas permanece firme a convicção de que Deus é sublime, justo e reto, nada se lhe podendo apontar.
Passado o feroz debate que opôs Job aos seus amigos, Deus entra em ação e lança a Job um conjunto de questões que visam torná-lo consciente da sua imensa pequenez, perante o universo criado e, sobretudo, perante a infinitude de Deus. Job é incapaz de decifrar os mistérios mais profundos do mundo que estão vedados exclusivamente à sabedoria infinita de Deus. Logo, não é sensato censurar Deus ou acusá-lo. O poder absoluto de Deus que se revela na grandeza do universo criado tornam o ser humano uma partícula de um todo e, enquanto tal, incapaz de compreender a mente de Deus. E serão as palavras de Deus ou talvez ainda mais a sua presença, o seu encontro com Job, que o tornam capaz de aceitar a sua condição finita, a sua pequenez e permitem que se abandone a Deus com total confiança, depois de se arrepender da sua insanidade.
Mas o discurso de Deus não emenda apenas Job. Desaprova igualmente a postura dos três amigos, acusando-os de terem sido mais imponderados do que o próprio Job.
Deus pode agora recolocar o protagonista na sua antiga condição de homem próspero e feliz, até ao dia em que «morreu, velho e cheio de dias.»

Este texto foi escrito ao abrigo do novo acordo ortográfico.

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