terça-feira, 4 de janeiro de 2011

«Aprender a rezar na era da técnica»

Lenz Buchmann havia sido educado na rejeição daquilo que o seu pai considerava o único verdadeiro inimigo do ser humano: o medo. Destemido e inexorável, assumiu a liberdade individual, construtora do seu próprio universo de valores, como única referência para todo o comportamento. Direcionada para si mesma, a liberdade não encontra na estrutura racional do ser humano senão a procura do sucesso e do poder individual sobre os outros. A moral da eficácia — técnica e instrumental — suspende, assim, toda a moral da responsabilidade ou do reconhecimento solidário. A liberdade move-se no círculo da autorreferência, centrando no sujeito todos os fins da ação. É o maquiavelismo despudorado e nu no qual o sentido da vida se cumpre na obtenção e manutenção do poder, quaisquer que sejam os meios e os instrumentos usados.
Incapaz de se identificar com o outro — de o amar, de partilhar com ele a mais pequena emoção — não lhe reconhece outro sentido que não seja o de servir os fins inconfessados ou patentes. O grito do outro, o seu sofrimento não comove nem desperta compaixão — o que não significa que não possa ser objeto de um comportamento exterior que se confunde com um olhar fraterno, contanto que sirva interesses individuais.
De tal forma está centrado sobre a sua própria individualidade, que recusa a possibilidade de se perpetuar nos filhos, uma vez que lhes não reconhece qualquer poder de representação.
Força e fraqueza são os dois membros de uma dicotomia que Lenz considera fundamental. A humanidade está, pois, dividida em duas parcelas. E se os fracos — que constituem a maioria da população humana — só existem em função dos fortes, estes são os verdadeiros protagonistas da história e os únicos concorrentes de Lenz.
Tal como a compaixão, também a verdade se não estabelece como valor: é apenas um subproduto da debilidade humana. Também a religião produz homens fracos, dependentes e obedientes, que se não possuem, mas são possuídos por uma entidade estranha à sua condição. A relação entre pessoas é expressa através do universo semântico da luta, do combate, da conquista ou da derrota, mas nunca da cooperação.
E se o medo tem de ser varrido da alma individual, é, contudo, um instrumento necessário para dominar o outro. Expulsar de si o medo coincide com a ação contínua de provocar o seu nascimento na alma alheia.
A política é alheia a qualquer ética que não seja a dos fins que justificam os meios. Uma Igreja decadente que não equaciona a possibilidade de perder o poder alia-se aos mais fortes, a expensas da sua visão do mundo.
Lenz é, portanto, uma personalidade distorcida, doentia, que raia a loucura e arrasta consigo o destino dos outros para regiões onde a humanidade não tem futuro.
Mas o próprio destino se encarrega de trazer alguma justiça ao campo da vida e sob as cinzas de Lenz ergue o pendão de vitória dos mais fracos (os Liegnitz). E se outrora a morte dos Liegnitz havia incutido nos Buchmann a certeza do triunfo, agora, com a decadência dos Buchmann às mãos da natureza, sobressai a força dos fracos que a vida se encarrega de perpetuar.
Nem o suicídio pode ser uma janela para a liberdade. Lenz permanece, assim, até ao derradeiro suspiro, à mercê do mundo que odiara. E a experiência de encontro com o absoluto reduz-se afinal a uma ilusão ótica que a técnica proporciona, em toda a sua frieza humana.
Eis o mundo que «Aprender a rezar na era da técnica» de Gonçalo M. Tavares me proporcionou.

Este texto foi escrito ao abrigo do novo acordo ortográfico.

1 comentário:

  1. Infelizmente existe muita gente na política parecida com Lenz. É espantoso a adoração que as pessoas tinham por esta personagem, ao ponto de sentiram compaixão por uma pessoa tão cruel, mas claro, só nos leitores é que sabíamos o quanto cruel era está personagem.

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