quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Viver no fio da navalha


— Não viveste a vida. Que tens tu de interessante para contar aos teus filhos? — disse-me do cume da sua vasta experiência de dezasseis anos de vida.
— Acho que vivi muitos momentos interessantes, dignos de serem contados — retorqui.
— Ah é? Então conta lá! — voltou, em ar de desafio, esperando poder amarrotar, uma a uma, as histórias que eu pudesse coligir oriundas dos meus parcos quarenta e sete anos.
— Ninguém me obriga a contar o que não quero nem no instante que não reconheço adequado. A minha vida privada só a exponho a quem desejo e quando acho ser o tempo indicado. E já agora, não creio que viver a vida seja enfileirar-me nas modas que me pretendem impingir. Vivo livre, como sempre quis. Embarco nas experiências que escolhi percorrer e não me deixo arrastar pela onda do momento ou pelos estereótipos que reduzem aquilo que chamam vida a experiências limite, desenhadas por alguém para tirar daí proveitos inconfessados. Pergunto-me, pelo contrário, o que tenho a ganhar com isso em termos humanos. E a resposta conduz as opções que tomo. Vivi o que escolhi viver. E isso é suficiente para ter uma história de vida humanamente com sentido.
Acabou por desistir. Mas a sua atitude incomodou-me, não tanto por transformar em medíocre toda uma vida que eu julgara ter algum sentido, como por aceitar tacitamente caminhar sobre o fio da navalha. A ideia pateta de que temos de passar por todas as experiências (como se isso fosse possível!) para podermos afirmar que vivemos é falsa e perigosa, mas atrai. Umas atrás das outras, as experiências somam-se num caldo sem orientação, nem finalidade. E esta procura desenfreada de novas sensações não tem fim, porque há sempre alguma coisa a saborear neste oceano inesgotável de novidades disponíveis. E o que é pior é que nem todas elas oferecem saúde e bem-estar duradouros. Algumas podem até ter consequências dramáticas, condicionando o futuro de forma inelutável. E o que se esperava ser uma experiência de liberdade revela-se uma experiência de opressão. Só o discernimento ético é capaz de distinguir os limites razoáveis das ações humanas. Mas a pergunta derradeira é a seguinte: qual o fio condutor desta amálgama de experiências? O que unifica verdadeiramente a vida humana, nesta torrente de sensações rapidamente envelhecidas? O que dá sentido a esta procura incessante de novas impressões? E o que me parece é que a resposta não retira o sujeito para fora do círculo da sua dispersão multíplice de experiências. Enclausura-o nele. E nele o sufoca até à exaustão, se entretanto não se aperceber da armadilha em que caiu e arranjar o suprimento de força suficiente para sair fora da submissão em que vegeta.

Este texto foi escrito ao abrigo do novo acordo ortográfico.

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