terça-feira, 21 de dezembro de 2010

«Romaria»

Deu-se o acaso de estar a ouvir rádio quando a voz de Elis Regina me surpreendeu com a sua tão tradicional quanto bela «Romaria». Ouvi de novo e com redobrada atenção aquela espantosa canção que se não desgasta com o passar do tempo. Talvez porque diga muito a respeito do que somos, do que desejamos ser e das desilusões que a vida nos reserva. E o que desperta em mim maior tristeza é pensar — não sei se bem, se mal — que aquela canção parece ser autobiográfica, pelo menos em parte.
De sonho e de pó, o eu que canta deseja ser o que nunca a sua condição lhe permitirá alcançar. Perdido, vagueia pelo destino que o faz ser não o que constrói mas o que o próprio destino lhe determina que seja. Provavelmente é essa profunda solidão em que se encontra que o torna inacessível a qualquer sentido que só na relação se pode erguer e consolidar.
Reconhece-se rude e inculto, oriundo de onde não há esperança nem horizonte, de onde o caminho se não abre em direção ao futuro. Corre-lhe nas veias o ADN familiar: pobre, penoso, solitário e perdido. Mas houve um tempo em que a ingenuidade ainda inundava de esperança as suas decisões. Um após outro, contudo, foram-se desmoronando os sonhos de outrora. Só a desistência permaneceu, funda e calada, como um poço na alma.
E, no entanto, há ainda uma pequena nesga de ventura que a romaria confirma. Quem sabe se a Senhora lhe porá ordem na vida e à sombra do seu vulto materno algum sentido possa ainda aflorar! A privação de tudo retira-lhe o direito à palavra adequada, à oração esperada no santuário onde a alma encontra no infinito o seu abrigo materno. E assim, ignorando a liturgia das palavras gastas, mostra-se tal qual é: desalento e perdição que o olhar não pode esconder. Talvez neste olhar suplicante, a mão transcendente de uma Deusa-mãe ilumine a escuridão da alma e desbrave os caminhos que o destino ocultara.

Este texto foi escrito ao abrigo do novo acordo ortográfico.

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