quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

Quando a esperança tende a escoar-se...

É espantosa a forma como a vida nos surpreende. Quando julgamos ter ultrapassado os principais desafios, uma nova vaga submerge a nossa ingénua esperança. Pergunto-me se não será melhor assim. Paulo tinha uma explicação para isto. Tinha um «espinho na carne» que o atormentava e esse infortúnio parecia ter uma razão de ser: assim não ousava julgar-se autossuficiente. Tinha na própria existência pessoal a marca da sua imperfeição e da sua eterna dependência em relação a Deus.
Talvez estas pequenas ou grandes (tudo depende do ponto de vista do observador) tribulações tenham esse intuito. Porque haveria eu de me julgar a salvo delas? Não sou mais nem menos do que a restante humanidade. Sou simplesmente um ser humano igual a tantos outros, dobrado sobre a própria imperfeição e preso aos limites que a vida impõe. Isso recorda-me frequentemente que se desejo plenitude, tenho de a procurar noutro lugar, onde o Sol se não ponha nem o horizonte nos oculte a eternidade. Por isso, apesar de tudo, confio que Deus esteja aqui, no abismo de mim mesmo, quando o dilúvio desabar sobre a Terra e a esperança tender a escoar-se pelo algeroz da razão.
 
Este texto foi escrito ao abrigo do novo acordo ortográfico.

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