sábado, 11 de dezembro de 2010

Parabéns!

Há pessoas que vamos elegendo, ao longo do nosso percurso de vida, como pontos de referência. E como somos todos diferentes, cada um elege aqueles que melhor se coadunam com o seu estilo de vida, com os seus valores, ou, talvez melhor, com a sua escala de valores. No que me diz respeito, tocam-me profundamente aqueles que se não deixam enclausurar pelos outros, pelas instituições, pelas organizações, pela estrutura social… Em suma, os meus pontos de referência são aqueles cuja liberdade não conhece outros limites que não sejam os da verdade, reconhecida pelo próprio no ato de refletir. Esses desabridos homens e mulheres causam engulhos e mal-estar a quem gosta de um pacifismo medíocre, submisso ao tecido social, sempre pronto a refrear os ânimos mais arrebatados.
Assim, incomoda-me pensar que uma estrutura como a Assembleia da República, o órgão onde a democracia e, por conseguinte, a liberdade, tem (ou deveria ter) o seu terreno fértil, esteja inteiramente domesticada ao jogo partidário comandado por meia dúzia de cérebros. Os remanescentes parecem títeres que se mexem consoante as ordens. É para mim totalmente inconcebível que homens e mulheres livres não possam votar conforme a sua consciência, independentemente das orientações partidárias. Tenho, por isso, enorme respeito por quem o faz, para lá de todas as consequências.
É por isso que um desses tais pontos de referência é exatamente Manuel Alegre, sem esquecer também os que têm provado, pela maneira como atuam politicamente, serem movidos pelos mesmos motivos.
De forma especial em sistemas rígidos, essencialmente não democráticos, a liberdade, para sobreviver, é constrangida a resistir até onde pode. Os nomes desses resistentes são, felizmente, imensos, mas quero lembrar Nelson Mandela, Aristides de Sousa Mendes, D. António Ferreira Gomes (ao arrepio da estrutura da Igreja em Portugal!), Hans Küng e muitos outros.
Mas tudo isto tem hoje um especial sabor por ter sido reconhecido o mérito de um homem que tem intrepidamente agido em plena liberdade, dentro e fora da Igreja, e que, por isso mesmo, não tem tido o reconhecimento que lhe é devido, sobretudo no interior dos muros da Igreja Católica à qual pertence como frade dominicano. Infelizmente, a Igreja ainda convive mal com a liberdade. Sente-se incomodada, talvez por causa dos muitos rabos de palha que tem e que não quer reconhecer nem assumir.
Já em 2004, Frei Bento Domingues tinha sido distinguido com a Ordem da Liberdade (Grande Oficial), pelo Presidente da República, e agora, a Ordem dos Advogados decidiu atribuir-lhe o prémio Ângelo d’Almeida Ribeiro, que distingue as personalidades ou entidades nacionais que mais se tenham destacado na defesa dos direitos dos cidadãos.
Nenhum profeta é aceite na sua própria terra — já Jesus se queixava do mesmo. Ficam os de fora para valorizar o que deve ser valorizado. E Deus para fazer justiça.

Este texto foi escrito ao abrigo do novo acordo ortográfico.

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