domingo, 26 de dezembro de 2010

A ordenação de mulheres

 
Chegou-me a notícia de que tinha sido ordenada a primeira presbítera católica, ou melhor: da Igreja Católica romana.
A instituição defende quanto pode a história de injustiça que o passado lhe legou e ameaça com penas graves, como a excomunhão (a expulsão da comunidade), todos os que se atreverem a enfrentar a sua autoridade. Felizmente, hoje, no mundo ocidental, ninguém dá crédito às pretensões das religiões (ou de qualquer outra instituição) só porque juntam a regras descabidas um cúmulo de ameaças. Não. Hoje é preciso explicar e convencer os outros de que se defende uma determinada posição porque se tem razão. Naturalmente, as razões da Igreja institucional que pretendem sustentar a proibição da ordenação das mulheres são tão pouco convincentes que muitas mulheres e homens não se deixam atemorizar pelas intimações legalmente impostas.
Os menos ousados defendem em surdina a justiça da causa. Os mais destemidos tornam públicas as suas posições. E, como é de esperar, sofrem as consequências que daí advêm. Mas pode uma pessoa de bem manter o silêncio quando a instituição impõe tamanha injustiça? Pode uma pessoa de consciência eximir-se de tomar manifestamente uma posição quando metade dos crentes são simplesmente excluídos da coordenação das comunidades, tal como o foram, durante séculos, dos lugares de liderança dos Estados?
E quando a instituição recorre ao Evangelho para fundar o seu ponto de vista, esquece-se de que pode estar a cometer um sacrilégio ao usar as palavras e os comportamentos de Jesus para perpetuar a injustiça que a exclusão denuncia. «Não pronunciarás o nome do Senhor teu Deus em vão» (Ex 20, 7), explicita o decálogo. E eu suspeito de que pronunciar o nome de Deus em vão pode ser usar o Evangelho para sustentar formas ideológicas, cultural e historicamente contextualizadas, cujo fim se anuncia para breve, quer a instituição aceite quer não.
E, neste caso, como em vários outros, é tão gritante a arbitrariedade que me impressiona a maneira despudorada como se recusa aos outros o acesso a um direito de que os próprios gozam. Enfim, é a surdez e a cegueira humana, represando inutilmente o tempo!

Este texto foi escrito ao abrigo do novo acordo ortográfico.

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