quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Cemitério de pianos


Quando terminei a leitura de «Cemitério de pianos», fiquei triste. Afinal, deixara nas páginas mortas as personagens com quem convivera algum tempo e que, de certo modo, haviam feito parte da minha própria existência. É assim quando os livros são bons. Ganham vida e nós existimos no interior da história, como intrusos que adquiriram o direito a estar presentes, enquanto o tempo da leitura o permitir.
O segundo livro de José Luís Peixoto que leio confirma a primeira sensação: a de que se trata de um grande escritor. Em cada frase, em cada palavra parece esgotar o coração. Logo depois, verificamos que não. Há ainda fôlego para muito mais. Escreve com os nervos à flor da pele, com a sensibilidade extravasando sobre as páginas por preencher. E é isso que nos deixa presos ao excesso de sensibilidade que a escrita deixa entrever.
Fiquei triste. Afinal, larguei as personagens suspensas entre a morte e a vida, na sucessão de gerações que nos lembra o caminho irrelevante que cada um de nós é, comparado com a totalidade da história humana ou da história do universo. E contudo, fiquei mais rico: li uma obra cuja verdade paira sobre a superfície dos eventos reais e pousa na condição profunda de cada ser humano.

Este texto foi escrito ao abrigo do novo acordo ortográfico.

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