sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Vingança


Desde sempre que a maldade humana me intrigou. Era ainda criança e já achava um atropelo à razão das coisas esse aguilhão perfurando a carne da vida. E não me refiro às coisas de pouca monta que todos ou quase todos os dias nos acontecem. Refiro-me antes à maldade que nos abala as fundações do ser.
Configurava-se, por exemplo, no miúdo que nos ameaçava, sem qualquer razão aparente que não fosse apenas demonstrar, por via da violência, o seu poder discricionário sobre nós; ou no volume de maldade contida na bebedeira de alguém sobejamente conhecido; ou ainda numa infinidade de outras perturbações profundas cuja existência eu nunca compreendi, por mais explicações psicossociais que me fossem sugeridas.
Mas agora, mergulhado no severo mundo dos adultos, é tudo mais requintado, mais disfarçado, mas também mais íngreme e perigoso. A inveja dissimulada, o ódio sob o sorriso traiçoeiro, o esquecimento a que somos sistematicamente votados para não fazermos sombra aos idiotas do momento, a penumbra humana para a qual somos empurrados através de manobras de difamação ou de boatos, etc. E, sobretudo, a vingança, essa mortífera ruína cuja única finalidade é a derrocada do outro. Decorre muitas vezes de pequenas ou grandes sacudidelas nos esteios instituídos. E em Portugal vingou — e talvez ainda vingue — a altíssima probabilidade de se perpetuarem e até florescerem os que aí acederam por vias tenebrosas, exercendo a sua ação nefasta, ceifando os outros. A impunidade é a epidemia da nação, cujas terríveis consequências minam as estruturas da sociedade.
E é bom de ver que, quando alguém abala, por simples e ingénua vontade de exercer a justiça, as bases destas colunas disformes, todo o edifício se desmorona, não sem esmagar a inocência de quem ousou tão inaudito empreendimento. E temos de encontrar forças onde não julgávamos ter para seguir em frente e sarar as feridas, quando possível, com a certeza do dever cumprido. E todavia, doi a dureza dos factos, a irrupção da maldade alheia nos passos que percorremos, o confronto com a natureza humana real e saturada de tudo o que negamos ser.

Este texto foi escrito ao abrigo do novo acordo ortográfico.

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