quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Raimon Panikkar

Por motivos profissionais estive ocupado com uma investigação acerca da questão candente do diálogo inter-religioso. E nesta circunstância ocorreu-me que em agosto passado havia morrido um dos grandes pensadores modernos no quadro desta temática: Raimon Panikkar.
Panikkar nasceu a 3 de novembro de 1918, em Barcelona, filho de pai indiano e hindu e de mãe catalã e católica. Desde criança que pôde adotar tradições religiosas diversas, nas quais nunca se sentiu forasteiro. Foi ordenado sacerdote em 1946, tendo nesse mesmo ano concluído o doutoramento em filosofia. Em 1958 obteve o doutoramento em ciências, sempre na Universidade de Madrid, e em 1961, em teologia, na Universidade Lateranense (Roma). Foi investigador e professor universitário em Roma, em Harvard e na Universidade da Califórnia, tendo também vivido na Índia. Em 1987 regressou à Catalunha onde passou a residir e a ensinar. Ao longo do seu percurso intelectual, publicou uma vasta bibliografia.
Essencial foi a sua atitude perante o património religioso da humanidade. «A religião não é um experimentum, mas uma experiência de vida, por meio da qual o ser humano participa da aventura cósmica.»
Não entendia o exclusivismo monolítico como solução para o problema da relação entre religiões. A respeito da sua ida para a Índia, disse: «Parti cristão, descobri-me hindu e regressei budista, sem ter renunciado a ser cristão.» É que a pertença a uma confissão religiosa não implica interpretar as outras como criações demoníacas ou meramente humanas. Em cada uma delas há algo que pode enriquecer o património espiritual pessoal. Basta manter o coração aberto e estar desperto para aprender.
Não foi um pensador convencional, o que lhe trouxe numerosos incómodos. Quebrou muitos esquemas e rasgou preconceitos seculares, confundidos com a identidade cristã. «As minhas circuns­tâncias pessoais permitiram-me aceitar o risco de uma conversão sem loucura, uma assunção sem repúdio, uma síntese e simbiose sem cair num sincretismo ou ecletismo.»
Propôs que se interpretasse a vida como uma peregrinação, não tanto exterior mas interior, através da qual se estivesse disponível para desvendar a novidade de Deus em novas circunstâncias, certos de que nunca haveremos de alcançar a verdade plena pela qual, sedentos, ansiamos. «A minha aspiração não consiste tanto em defender a minha verdade, quanto em vivê-la.» Na senda de Cristo, vê o apelo divino como uma constante exigência ética. Mais do que uma ortodoxia, toda a religião autêntica visa melhorar o ser humano, propondo-lhe uma ortopraxia fundada numa relação pessoal com a Transcendência.
Propôs ainda como tarefa humana, sempre inacabada, a procura da harmonia e da concórdia, por forma a encontrar a invariante humana, sem anular as diversidades culturais orientadas para a realização da pessoa em contínuo processo de criação e recriação: «Quanto mais ousarmos mover-nos por novos caminhos, tanto mais teremos de permanecer radicados na nossa tradição e abertos aos outros, os quais nos farão saber que não estamos sozinhos e nos permitem adquirir uma visão mais ampla da realidade.»
O diálogo sincero e honesto só pode ser o que nos conduz a reconhecer as diferenças e, simultaneamente, quanto se tem em comum, impelindo por fim à mútua fecundação. O diálogo não é para os seres humanos um luxo, mas qualquer coisa de vital, estritamente necessário. Mais do que um diálogo abstrato ou teórico sobre as crenças, o diálogo inter-religioso deve ser humano e em profundidade, procurando a colaboração do outro para a mútua realização, porque a sabedoria consiste sobretudo em saber escutar.
À pergunta sobre onde encontrava a sua identidade, respondeu assim: «Perdendo-a, não a procurando: não posso manter-me prisioneiro de uma identidade que ainda se não realizou e que não é possível encontrar no passado, porque seria apenas cópia de algo envelhecido. A vida é risco; a aventura é novidade radical; a criação produz-se todos os dias; é algo absolutamente novo e imprevisível.»
Defendeu, portanto, a harmonia entre as pessoas, entre o ser humano e a natureza, bem como de cada ser humano consigo mesmo. Reconhecia a sacralidade da vida como secularidade sagrada. Tudo é sagrado, tudo é inviolável. As atrocidades contra a natureza são um sinal claro da perda de sensibilidade pela sacralidade da matéria. A ecossofia é a nova sabedoria da Terra. O humano, o infinito e o material não são três realidades separadas, mas três aspectos da mesma realidade. É esta a sua intuição cosmoteândrica ou teandropocósmica que revela a ambiguidade e os limites de todo o discurso estritamente científico ou cultural. A patologia da segurança é a obsessão moderna pela certeza. Por isso, a filosofia deve ser viva, acentuando a polissemia, a ambiguidade, a abertura. Só poderemos favorecer a consciência da liberdade, se nos colocarmos acima de toda a servidão, até mesmo da servidão racional.
O diálogo deve ser antes de mais intrarreligioso. Começa no interior de cada um, quando descobre a relatividade das suas crenças e aceita renunciar à pretensão de possuir toda a verdade, abandonar a ideia de verdade exclusiva, porque a verdade está acima de nós e da nossa religião.
Esta maneira de encarar a vida tem consequências. O seu projeto visava alcançar um ecumenismo que buscasse a harmonia das religiões, não se confundindo com um sincretismo superficial ou uma «teoria universal das religiões», que haveria de ser uma espécie de absurdo «esperanto religioso». Panikkar expressava isso com o conceito hindu dharma-samanvaya: «harmonização (convergência) de todos os dharmas ou religiões. Samanvaya não quer dizer necessariamente igualdade, mas comporta a esperança de que a cacofonia atual se possa converter numa sinfonia futura». Devemos aspirar à harmonia da vida e das religiões, não a uma uniformidade. Todas as religiões são uma busca legítima de Deus, cada uma à sua maneira, ainda que as grandes religiões o façam de um modo especialmente relevante.


Este texto foi escrito ao abrigo do novo acordo ortográfico.

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