domingo, 7 de novembro de 2010

A avó

Talvez hoje tenha visto pela última vez com vida a minha avó paterna. Deitada na cama, como quem descansa as agruras da vida sobre o leito do fim, respira a custo e entrega-se ao ruído dos netos e dos bisnetos que a circundam, perguntando o que já sabem, alimentando o último elo de conexão que a liga à existência. Vejo naquela mulher sumida pelo tempo toda a cadeia que nos une à inteira humanidade, desde a origem do ser humano. Oiço a sua voz esgotada pela erosão da história e nenhuma das palavras que diga me toca, apenas o fundo musical daquela voz antiga que ainda resiste.
A morte da minha avó materna, pelo contrário, foi um dilúvio de que ainda não escapei. Amava-a desmedidamente sem razão que conheça. À minha memória acorre, de forma recorrente, aquele dia em que a fui visitar ao hospital e na sua face macilenta se desvela o pânico do termo, sob o olhar consciente da sua inevitabilidade. Amara a vida até ao tutano e furtivamente alguém lha roubara! Lágrimas e soluços entrecortaram a hora das visitas, e um leve e magoado «é agora», «é agora», «é agora»… quase até ao infinito, para esconjurar a certeza. E eu ali, sob o olhar dos outros, explodi num pranto que vislumbrava o doloroso abandono da consciência do fim. Era um elo da minha própria história pessoal que se finava. Eram os eventos arrastando consigo uma boa parte de mim mesmo. Nunca mais seria o que fora até então. Tinha sido esta a primeira experiência do nada que me acontecera. Já passara evidentemente pela morte de outros familiares. Nenhum, porém, me roubara a mim mesmo. É que só quando amamos até ao fundo do que somos, sofremos na morte a solidão do outro. Ainda hoje os sonhos me inquietam com a sua presença simultaneamente mortal e benigna.
Com a minha avó paterna — esta que hoje fui visitar — não será assim. Falta-lhe a paixão que faz da morte a derrocada do que somos. Mas apesar de tudo, há de permanecer a imagem tranquila de mulher apaziguada com a morte, que me conduz pela mão até aos confins da humanidade.

Este texto foi escrito ao abrigo do novo acordo ortográfico.

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