sábado, 27 de novembro de 2010

António Damásio e o surgimento da consciência


António Damásio, o célebre neurocientista e investigador português, emigrou de Portugal para os EUA, onde hoje dirige com a mulher, Hanna Damásio, o Brain and Creativity Institute, na Universidade da Califórnia do Sul. Acabou de publicar «O livro da consciência».
O tema da consciência humana foi, ao longo dos séculos, abordado sobretudo pela filosofia. Atualmente, as ciências neurobiológicas também se aventuraram neste campo. Muitos temem que uma abordagem estritamente biológica da identidade humana possa negar a sua dignidade. Mas António Damásio acha exatamente o contrário. «Quanto mais estudamos a biologia, tanto ao nível de uma simples célula como dos tecidos ou dos organismos inteiros, mais espantoso é o que encontramos. Espantoso pela riqueza da organização, pela complexidade, pela forma extraordinária como umas células que nem cérebro possuem antecipam os valores fisiológicos e os sistemas necessários à regulação da vida.» A grande questão que se coloca hoje é descobrir como é que nasce a mente, como é que nasce o «eu» e como é que se constrói a mente consciente.
«No que se refere à construção da consciência, Damásio defende que «há um “proto-eu”, não consciente, que surge ao nível do tronco cerebral, um “eu nuclear” e um “eu autobiográfico”. A consciência aparece quando aparece o “eu nuclear” e depois oscila constantemente entre o “eu nuclear” e o “eu autobiográfico”.
«A criação da mente propriamente dita reside na capacidade que o cérebro tem de criar mapas neurais que vão dar origem a imagens. É dessa capacidade de gerar mapas neurais que surgem os conteúdos principais da mente: as imagens visuais, auditivas, olfativas, táteis — e, o que é muito importante, as imagens que nos vêm do nosso próprio corpo. Estas imagens, estes sentimentos básicos que temos do nosso próprio corpo — e que eu chamo agora sentimentos primordiais — vão depois ajudar a construir o «eu». Os mapas do corpo são diferentes dos mapas do mundo exterior. As imagens do corpo são imagens de uma natureza diferente das imagens do exterior. Porquê? Porque são imagens que começam a ser geradas ao nível do tronco cerebral, numa região do cérebro que está naquilo que eu descrevo no livro como uma união, uma fusão praticamente completa com o corpo. E o que isso vai permitir do ponto de vista teórico — e também prático, julgo eu — é fazer com que essas imagens não sejam só imagens cognitivas, divorciadas do seu objeto, mas sim imagens ligadas ao seu objeto, que é o corpo. Ou seja, imagens sentidas. Ora isso prende-se com um problema absolutamente central que é a dificuldade de explicar que nós não só temos imagens, mas que também sentimos essas imagens. Quando olhamos para o mar, não vemos apenas o azul do mar, sentimos que estamos a viver esse momento de perceção. É ótimo vislumbrar a possibilidade de ligar coerentemente os sentimentos e a consciência.»
A imagem do próprio organismo, que está a ser gerada automaticamente no tronco cerebral, por estar ligada ao sujeito da perceção, está ao mesmo tempo a produzir um mapa que é sentimento. «E é aí que me parece que está o grande segredo de criar uma consciência sentida e não uma consciência de autómato.»
Há pessoas que acham que as neurociências se aventuram por campos que lhes estão vedados. A consciência de si seria sempre um mistério indecifrável. Sem querer «dizer que eu tenha qualquer certeza de que todos os mistérios do universo serão revelados — é bem possível que seja difícil ultrapassar certos muros do mistério da consciência — todos os anos fazemos o mistério recuar um bocadinho. É por isso que devemos continuar a tentar.»

O testemunho de António Damásio põe em evidência a já muito antiga oposição entre os que, querendo salvaguardar a dignidade humana e a sua dependência da vontade de Deus, não compreendem nem aceitam que a ciência possa desvendar os elementos mais diretamente relacionados com a necessidade de uma intervenção divina, fora do âmbito da evolução natural, e os que pretendem ir, passo a passo, desvendando os processos naturais, tornando, assim, inútil uma suposta intervenção divina imediata para explicar determinados acontecimentos.
Tal conflito entre a ciência e a fé ocorreu ao longo do amplo processo de secularização. No âmbito de um antiquado quadro ideológico no qual a intervenção de Deus era necessária para explicar certos «eventos misteriosos» — ou seja, numa visão do mundo em que Deus era chamado a resolver problemas intimamente ligados à ignorância humana a respeito dos processos naturais (um Deus tapa-buracos) — o conflito era não só previsível como extremado. Quando muitos eventos perderam a sua aura de mistério e os mecanismos naturais foram compreendidos, tornou-se supérfluo o recurso a Deus. Os supostos «milagres», afinal, podiam ser explicados pela razão humana, a passagem do mundo inorgânico para o mundo orgânico não era nenhum mistério irresolúvel do ponto de vista científico, o aparecimento do mundo humano não necessitava de nenhuma intervenção peculiar de Deus, bastava a explicação científica que o fazia desabrochar naturalmente a partir meros processos evolutivos…
O mesmo acontece agora com o campo da consciência. É provável que a explicação científica seja suficiente para que possamos compreender ao surgimento e acção da mente humana.
Deus não está no mundo como um objeto do mundo. A sua intervenção não é esporádica e pontual, mas sistemática e permanente. Ele é simplesmente o garante da existência do universo e dos seus mecanismos internos. O seu relacionamento com o mundo não pode ser identificado num ou noutro evento natural. É a própria existência do universo que precisa de uma explicação e de um sentido global. E Deus é essa explicação primordial, esse sentido global e essa finalidade última.


Este texto foi escrito ao abrigo do novo acordo ortográfico.

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