sábado, 9 de outubro de 2010

O argumento ontológico

 Santo Anselmo de Cantuária

Um dos mais célebres argumentos racionais sobre a existência de Deus é o chamado argumento ontológico. Elaborado pela primeira vez por S. Anselmo (1034-1109), monge italiano e arcebispo de Cantuária, no seu livro Proslogion, teve uma longa e atribulada história, cujo fim ainda parece não ter terminado.
O ponto de partida da argumentação de Anselmo é a definição (essência) de Deus enquanto Id quo maius cogitari nequit (aquele maior do que o qual não é possível pensar). Todos estarão de acordo quanto a esta definição. Mesmo os ateus terão de admitir que, se Deus existir, será aquela entidade em relação à qual não é possível pensar maior (ou mais perfeito). Assim sendo, a essência de Deus há de conter todos os atributos positivos, elevados ao máximo grau. Será infinitamente justo, incomensuravelmente bom, etc. E o derradeiro passo no caminho desta argumentação é este: se Deus incluísse todos os atributos, mas não existisse seria ainda Id quo maius cogitari nequit? A resposta de Anselmo é negativa, porque se o conceito de Deus não contivesse a necessidade da sua existência ainda seria possível pensar outro que lhe fosse maior (ou mais perfeito): exatamente, um ser que, para além de todos os atributos positivos elevados ao máximo grau, ainda incluísse igualmente o atributo existencial.
Trata-se, portanto, de um argumento totalmente a priori, ou seja, um argumento que não tem nada que ver com a experiência empírica. Todos os outros argumentos ensaiados até ao momento partiam de objetos da experiência verificável: a existência do mundo, os valores morais, a ordem do universo, etc. para daí deduzirem a existência de Deus. Todavia, este toma como ponto de partida o domínio dos objetos mentais e aí permanece inteiramente. E esse é o seu ponto forte e simultaneamente o seu calcanhar de Aquiles.
De um modo geral, os pensadores de tendência idealista (por ex.: Descartes e Hegel) reconhecem a validade do argumento, uma vez que atribuem densidade existencial aos objetos ideais (mentais, racionais), enquanto os de tendência realista (por exemplo, S. Tomás de Aquino) não o consideram válido.
Talvez a mais contundente crítica a este argumento tenha sido desferida por um filósofo que não pode ser propriamente enquadrado na tendência realista: Immanuel Kant (1724-1804). Na sua obra-prima, a Crítica da razão pura, num capítulo intitulado «O ideal da razão pura», quarta secção «Da impossibilidade de uma prova ontológica da existência de Deus», Kant parte do conceito de ser absolutamente necessário (que corresponde, em termos modernos, à definição de Anselmo) para se questionar se é possível pensar um tal objeto, ou seja, se a sua existência na razão implica a sua existência na realidade.
Ora, para Kant, é preciso distinguir o plano lógico do plano real (no sentido da realidade exterior à mente humana). E separando adequadamente os dois planos, torna-se claro que do conceito lógico de um objeto não pode decorrer a sua existência, enquanto ser real. Por isso, se negarmos a existência de Deus, eliminamos a totalidade do seu conceito, não incorrendo, portanto, em qualquer contradição lógica.
Mas a questão que se coloca é se, ao negarmos Deus, eliminamos igualmente a necessidade lógica da sua existência. Para responder a esta objeção, Kant terá de sustentar que o conceito de Deus, enquanto ser cuja existência decorre da sua essência, é arbitrário e impensável, porque se trata de uma entidade que, mesmo que não exista, mantém a contradição lógica entre aquilo que é e o facto de não ser.
Em suma, do conceito lógico de Deus não se pode inferir a sua existência real. Um objeto mental não é ainda um objeto real. A existência (extramental) de um objeto é simplesmente a sua posição na experiência empírica. Tal como acontece com os outros objetos, Kant dissocia, pois, a essência de Deus da sua existência, não reconhecendo a este conceito nenhum estatuto particular (ao contrário de Anselmo que tinha de postular a sua especificidade).
A existência não é mais um atributo que se acrescente ao conceito de Deus, de modo que, sem esse atributo, ainda seja possível pensar outro ser mais perfeito. É simplesmente a posição de um objeto na realidade exterior ao sujeito. Para que afirmemos a existência de uma entidade qualquer, somos, assim, forçados a sair fora do seu conceito e a verificar a sua aparição na realidade, enquanto objeto que se impõe a nós «do exterior». Deus não escapa a esta necessidade! E como Deus não se observa, nem se pode observar, enquanto objeto empírico, nós não podemos ter a certeza racional da sua existência.
Já no seu tempo Anselmo havia respondido à crítica de que o seu argumento procedia a uma ilegítima passagem do plano das ideias para o plano da realidade: essa objeção seria verdadeira se se estivesse a pensar numa qualquer entidade, uma vez que não decorre da essência de nenhum objeto — a não ser de Deus como Ser Supremo — a sua existência necessária. Para Anselmo, aplicar a Deus a distinção entre essência e existência é simplesmente não ter compreendido a peculiaridade do seu conceito. Deus é, portanto, «um» ser radicalmente diferente dos demais, já que todos os outros têm a sua essência separada da sua existência, mas Deus não pode ser pensado sem que a sua existência tenha também de ser acoplada à sua essência.
No que me toca, sigo Anselmo, mas tenho de o corrigir na própria noção de Deus, percorrendo a senda da filosofia moderna. Para que a existência de Deus seja obrigatória, parece-me necessário que se faça coincidir a sua definição com a totalidade da realidade. Se assim for, até a objeção de Kant perde sentido, uma vez que Deus também é «observável»: o universo, enquanto sua autoexteriorização e autolimitação, é a sua manifestação sensível, apesar de imperfeita. Mas pode Deus vir até nós e ser por nós compreendido na vastidão deslumbrante da sua glória?

Este texto foi escrito ao abrigo do novo acordo ortográfico.

Sem comentários:

Enviar um comentário