sábado, 23 de outubro de 2010

Deve a Igreja morrer?


Começarei esta entrada por uma pergunta que é título de um livro de Eugen Drewermann: Deverá a Igreja morrer? E a minha resposta é «sim». Resta saber em que sentido deve a Igreja morrer. Não me sentiria de modo nenhum feliz se a visse — como vejo — definhar lenta mas constantemente em direção à sua própria autodestruição, ao seu declínio sem regresso. A Igreja é portadora de um património demasiado importante, demasiado útil ao ser humano, demasiado autêntico para que a sua desaparição fosse um facto sem a mais pequena relevância pessoal ou comunitário. Mas a sobrevivência desse núcleo central — que é o Evangelho — depende da morte da Igreja enquanto instituição medieval e atávica.
Hans Küng no seu livro de memórias (La mia battaglia per la libertà, p. 515) refere as exigências que não chegaram a ser satisfeitas pelo Concílio Vaticano II. E enumera-as:
– A contraceção como decisão no quadro da responsabilidade pessoal e não como pormenorizada definição pela organização eclesial, na sua vontade de tudo controlar, menorizando os cristãos por considerá-los incapazes de tomar decisões pessoais responsáveis sem o aval jurídico da instituição.
– Regulamentação da questão dos matrimónios mistos (validade do matrimónio, educação dos filhos).
– Celibato dos padres na Igreja latina: forma arcaica e artificial de manter a ordem sacerdotal manifestamente separada do resto do povo de Deus, ainda com laivos de um platonismo que olha com desconfiança para a sexualidade humana e, sem o afirmar, a associa ao pecado ou pelo menos a uma situação de inferioridade humana da qual se escapa por via da «virgindade».
– Reforma da estrutura e do pessoal da cúria romana, descentralizando as sedes de tomada de decisão, sobretudo para as dioceses e as conferências episcopais, e retirando ao governo central o poder autocrático que anacronicamente ainda detém.
– Reforma da prática penitencial: confissão, indulgências, jejuns.
– Reforma do hábito e dos títulos dos prelados.
– Envolvimento nas nomeações dos bispos das regiões eclesiais interessadas, de tal forma que as nomeações não sejam feitas neste secretismo que atualmente vigora, sem que o povo de Deus saiba o que se está a passar ou tenha sequer uma palavra a dizer sobre o assunto.
– Eleição do papa mediante Sínodos de bispos representativos da Igreja universal, cujos bispos devem ser livremente eleitos pelas conferências episcopais, por oposição à situação atual em que um punhado de cardeais, muitos deles sem ligação às Igrejas locais, tome uma decisão de tão grande alcance, com a agravante de serem todos escolhas do papa e portanto estarmos perante um círculo vicioso do qual muito dificilmente se escapa.
Mas eu acrescentaria ainda mais algumas questões, que aliás têm sido largamente debatidas:
– Acesso da mulher a todos os graus da ordem e a todos os cargos da Igreja, desde o diaconado até ao episcopado e, naturalmente, permitindo-lhes o acesso ao papado. Não há qualquer razão de ordem teológica que sustente o atual estado de discriminação da mulher. Só o preconceito enraizado durante séculos pode justificar esta injustiça.
– Abolição de todas as honras e títulos que não correspondem a nenhuma função efetiva.
– A liberdade de investigação teológica em todos as faculdades e disciplinas, sem medo da verdade e sem reduzir a verdade ao que está instituído.
– Uma modificação clara da moral sexual oficial, dando orientações ao nível dos princípios, mas permitindo que cada comunidade concreta e cada fiel aplique os princípios como achar mais correto, tal como já acontece com a doutrina social da Igreja.
– Alteração radical da forma de exercício do poder a todos os níveis da instituição eclesial: desde a paróquia até ao governo universal. A atual forma autocrático, absoluta e centralística de exercício do poder deve ser substituída por formas claramente democráticas, que envolvam os membros da Igreja desde o nível mais baixo até ao mais elevado, para que a Igreja deixe de ser, no mundo ocidental, a única instituição com estruturas de poder ultrapassadas e incapazes de responder às necessidades do povo de Deus.
Julgo que este conjunto de razões é mais do que suficiente para justificar uma morte da Igreja enquanto instituição fossilizada, de modo a permitir o ressurgimento de formas verdadeiramente criativas e modernas (que afinal, em grande parte já encontram o seu fundamento nas Igrejas dos primeiros tempos). Mas se tudo permanecer neste imobilismo a ferro e fogo, duvido de que o Espírito tenha espaço para intervir. É que o Espírito não se demite da sua função criadora, nós é que nos demitimos da nossa função de alijar as cargas de séculos que ocupam o nosso coração e não permitem a sua ação inesperada e inovadora.

Este texto foi escrito ao abrigo do novo acordo ortográfico.

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