sábado, 16 de outubro de 2010

À beira do abismo


Será Portugal um país perdido? Tenho-me interrogado persistentemente sobre a nossa capacidade para resolvermos os problemas estruturais que nos assolam e cada vez mais o desânimo tem tomado conta da minha ténue esperança. Desde os Descobrimentos nunca mais nos erguemos do pântano onde lenta e consistentemente nos afundamos. E questionamo-nos também acerca das razões que estão na base desta catástrofe económica, financeira, cultural, judicial, educacional, etc. Talvez não tenham sido sempre as mesmas, década após década de naufrágio nacional, mas haverá, decerto, um refrão que pode ser repetido, porque, destituídos de memória, vamos soçobrando nos mesmos atoleiros.
Será o nosso fatalismo, que nos faz capitular face às desgraças e que nos incute o sentimento mortal da resignação? Será a ancestral falta de cultura e de nível educacional que faz de nós um povo não preparado para os desafios de cada momento? Será a desorganização geral que grassa por todo o lado e que nos leva a alinhavar soluções para problemas, em vez de os prevenir e de projetar o país sobre o futuro? Será a existência de uma classe de oportunistas que agem exclusivamente para precaver os seus próprios interesses (ou dos amigos) e não os interesses do país? Será o nosso individualismo que nos impede de ver o conjunto, concentrando a nossa atenção no terreno do pequeno mundo em que cada um se move? Será o oportunismo político dos que assaltam o poder — à força de mentiras e omissões — para se catapultarem alguns degraus acima, na escala social? Será a inveja que é incapaz de se alegrar com os sucessos dos outros — quando, evidentemente, foram conquistados legitimamente — e esmaga sem dó nem piedade a criatividade alheia, para que se não possa comparar com a própria indigência intelectual? Será a incompetência e a preguiça…?
Ainda que a recuperação do país dependa de uma leitura atenta das causas que originaram as circunstâncias em que nos encontramos, algumas delas não podem ser resolvidas de imediato. São atávicas. Se começarmos agora, provavelmente só daqui a uma ou duas gerações veremos resultados palpáveis. Mas o problema é que nunca achamos que é altura de começar!
Há outras que temos obrigação de eleger, desde já, como alvo da nossa ação. Por exemplo, não percebo como é que se pode querer resolver o problema financeiro do país (que é certamente um problema real) sem ter simultaneamente um projeto a médio ou longo prazo para a economia nacional. Em que é que somos bons? Em que é que nos poderemos tornar os melhores da Europa? Quais as prioridades do investimento para os próximos dez anos? Como faremos crescer a economia de forma sustentável e não apenas com apoios erráticos a este ou àquele setor, sabendo que em alguns casos os setores que financiamos estão destinados ao fracasso?
Também podemos indignar-nos com os políticos que pusemos no poder e se mostraram incompetentes para resolver os problemas nacionais. Ou melhor, conduziram o país (mesmo dando por descontada a crise externa) para o abismo à beira do qual nos balançamos. E consequentemente podemos revoltar-nos contra a política eleitoralista que se funda em descaradas mentiras para obter votos. «No seu livro Profiles in courage, que lhe valeu o prémio Pulitzer, [John F.] Kennedy escreve: “um homem faz o que deve, apesar das consequências pessoais, apesar dos… riscos. E esta é a base de toda a moralidade humana”» (Küng, La mia battaglia per la libertà, p. 375). Como seria se tivéssemos políticos deste calibre que não agissem sobretudo preocupados com a sua reeleição, mas com o que deve ser feito? Como seria se tivessem de exigir ao povo um esforço suplementar e, ao mesmo tempo, propusessem também um plano que tornasse Portugal um país onde vale a pena viver? Ao invés disto, parece que tudo se faz para gerir o imediato, sem objetivos nem metas que possam mobilizar o país e dar esperança a quem hoje tem de sofrer mais uma onda de sacrifícios.
Não duvido que o governo tenha razão quando afirma que o plano de austeridade não tem alternativa, sob pena de nos abeirarmos do precipício. Mas como posso eu confiar num governo que mente quando lhe dá jeito, distribui benesses em período eleitoral, quando o país não estava em condições de o fazer, e não avança com as reformas necessárias à reestruturação do tecido público e privado nem com a inovação económica em áreas onde podemos ser os melhores? As pessoas não suportam ouvir apenas a descrição das desgraças e a triste ameaça de soluções impiedosas. Precisam de esperança, mas de uma esperança em que se possa confiar. Não um discurso vazio no qual o que se diz nada tem que ver com a realidade efetiva. Queremos líderes com visão, que pensem o país a médio e longo prazo e nos incutam aquela vontade de viver aqui neste espaço recôndito e perturbado da Europa onde se torna cada vez mais insuportável permanecer.

Este texto foi escrito ao abrigo do novo acordo ortográfico.

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