sábado, 11 de setembro de 2010

Os novos autos de fé


O fundamentalismo não escolhe credos religiosos, ideologias políticas ou qualquer outro tipo de ideologia. Instala-se pura e simplesmente no coração humano, de forma transversal aos sistemas de crenças. É tão matreiro e esquivo a quaisquer identificações que se reveste quase sempre da pureza da fé (religiosa ou não) e se mascara de autenticidade e verdade. É preciso um olho clínico para o distinguir de uma religiosidade ou de uma crença ideológica não fundamentalista.
Mas há critérios para estabelecer as devidas e necessárias distinções. Podem não ser universalmente aceites, mas serão relativamente consensuais entre os investigadores deste tipo de fenómeno. Sem querer ser exaustivo, enuncio alguns deles.
O fundamentalismo é, de um modo geral, intolerante e sobranceiro. Estas duas atitudes tornam-no impermeável a qualquer possibilidade de diálogo sincero — no qual cada interveniente está verdadeiramente interessado naquilo que o outro tem para comunicar e, portanto, aberto à possibilidade de a verdade não corresponder às suas concepções de partida — e o seu modo de relação com os outros é marcado pelo proselitismo puro e duro e pela tentativa reiterada de os converter às próprias conceções, uma vez que não reconhece nenhuma verdade fora do círculo das suas crenças.
O fundamentalismo é maniqueísta. Reparte o mundo em duas fatias apenas e não reconhece nenhum espaço intermédio onde a realidade possa ser encarada com outros matizes para lá do preto e do branco. Cinde a mundo em luz e trevas, verdade e mentira, salvação e perdição e, por último, nós e os outros, sendo que «nós» corresponde ao grupo dos detentores inequívocos da verdade, que se move no campo da luminosidade — por contraste com os outros que não estão sequer em condições de observar o caminho que pisam por estarem envolvidos pelas trevas — no qual a verdade transparece sem concessões. É, por conseguinte, o único grupo destinados à salvação — seja ela entendida como um facto meramente intramundano ou teológico.
O fundamentalista, profundamente avesso ao conhecimento científico, manipula frequentemente os dados e não conhece, por isso, a fadiga ínsita na procura da verdade. Como se crê conhecedor da verdade absoluta, não precisa de trilhar o difícil caminho que a ela conduz, nem reconhece nos métodos científicos de aproximação da verdade qualquer coisa de significativamente decisivo na história da humanidade, sobretudo quando e porque as descobertas científicas abalam crenças arreigadas. É por isso que a ciência é interpretada como uma ameaça ao sistema de crenças do fundamentalista.
Mas o que é ainda mais interessante, embora não inteiramente surpreendente, é o facto de os fundamentalistas considerarem como reais inimigos não apenas os que não partilham com eles as mesmas crenças, mas sobretudo os que se movimentam no âmbito do mesmo sistema de crença, mas procuram estabelecer com os outros seres humanos pontes de entendimento, acolhendo novas descobertas, integrando-as no universo de valores das suas crenças, reinterpretando a sua visão da vida à luz de novos desenvolvimentos, etc. Até consideram amiúde estes «irmãos» de convicções mais perigosos do que os demais seres humanos, porque se atrevem a modificar o sagrado património das convicções milenares à luz daquilo que os fundamentalistas consideram erros de uma sociedade que se encaminha a passos largos para o abismo da sua autodestruição.
O fundamentalista tem uma conceção da história da humanidade próxima da que é veiculada pelo mito da «idade do ouro», aliás patente nos primeiros capítulos do livro bíblico do Génesis: a história humana é uma sucessão de acontecimentos cujo significado se resume na palavra «degradação». Houve um tempo — lá longe, nos primórdios da humanidade, quando os deuses caminhavam ao lado dos seres humanos e o ódio ainda não tinha invadido o coração destes — em que a paz e o entendimento universal eram uma realidade sem sombras nem interrupções. Por força de um acontecimento cujos contornos são descritos de maneira diversa, mas que se identifica com uma espécie de «pecado original», o mal foi introduzido no mundo e, desde esse tempo remoto, tem minado a sua estrutura. Caminhamos, por isso, sem apelo nem agravo, para a rutura e a morte. Só há uma maneira de reverter tal situação calamitosa: abraçar sem concessões o universo de valores que fundavam as relações na idade paradisíaca, que os fundamentalistas creem conhecer inteiramente.
Esta é a razão por que fazem uma leitura da sociedade contemporânea profundamente negativa. Veem em todas as tomadas de decisão externas ao grupo a que pertencem mais um contributo ao afundamento a que estamos votados por força da maldade que invade o mundo e, principalmente, o coração de cada pessoa. O regresso ao passado é, portanto, a única via de salvação. E não se trata apenas de aprender com os erros cometidos outrora. O retorno que defendem é a recuperação de valores perdidos, de estruturas que já não fazem sentido, porque desadequadas, de interpretações doutrinais que nasceram num contexto histórico e não podem ser simplesmente transplantadas para outro contexto sem as necessárias adaptações, etc.
Na posse dos fundamentos da verdade, disparam estéreis polémicas alicerçadas não em argumentos racionais, mas em emoções que nunca foram submetidas ao crivo da razão crítica. Esta atitude conduz inevitavelmente ao conflito, à rutura das relações com os outros e até, nos casos mais extremos, à violência aberta. O inimigo é o outro. E uma vez que encarna a doença do mundo, extirpá-lo é proporcionar à história humana a possibilidade de se redimir.
Claro que esta análise seria simplista se caíssemos nós próprios no mesmo erro dos fundamentalistas e dividíssemos o mundo em apenas duas metades: os fundamentalistas e os não fundamentalistas. Provavelmente não existem fundamentalistas em estado puro, que correspondam a todas as características acima descritas. De uma forma geral, o fundamentalismo, como quase tudo na vida, deve ser interpretado a partir de uma escala: há os que são mais fundamentalistas do que outros e também há quem seja fundamentalista quando pretende ler a realidade de um ponto de vista (por exemplo, religioso), mas não o seja, por exemplo, no seu campo de acção profissional, ou outro. A realidade não é simples.
O que despoletou este conjunto de observações foi a notícia perturbadora de que o pastor evangélico norte-americano Terry Jones pretende assinalar o aniversário do onze de setembro queimando publicamente exemplares do Alcorão. Esta reação absurda, ofensiva, intolerante e fundamentalista só vai evidentemente acirrar os ânimos dos fundamentalistas islâmicos (que não são, de modo nenhum, a maior parte dos muçulmanos). Que diria este senhor se um grupo de muçulmanos, para assinalar um dos tristes eventos promovidos por cristãos, queimasse publicamente exemplares da Bíblia? Parece que não se compreendeu ainda o significado profundo da regra de ouro multimilenar e plurirreliogiosa «não faças aos outros o que não queres que te façam a ti» ou, tal como aparece nos Evangelhos, na sua formulação positiva, «faz aos outros o que queres que eles te façam a ti». Permanece a dúvida se os fundamentalistas cristãos terão lido os Evangelhos. Ou talvez façam como no passado os defensores da inquisição, das cruzadas e das guerras religiosas: agem como se o legado de Jesus de Nazaré fosse um cúmulo de doutrinas anódinas sem relevância para a vida quotidiana dos indivíduos e das instituições. Leiam a história e aprendam com ela!

Este texto foi escrito ao abrigo do novo acordo ortográfico.

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