quarta-feira, 1 de setembro de 2010

Na morte de um amigo

Ressurreição, Piero della Francesca


É assim a vida: contingente até ao tutano. Lá vamos procurando mascarar a realidade, enganando as evidências, fingindo que é eterna, até que algum acontecimento se encarregue de nos trazer de volta à realidade nua e crua. Talvez tenhamos necessidade de agir como se a vida não fosse uma brisa que passa pela vastidão do tempo. Como poderíamos empenhar-nos a fundo no que fazemos? Mas é igualmente importante que a lucidez nos ofereça a medida do que realmente somos: um ínfimo sonho na escuridão do universo.
Há com certeza muitas maneiras de conceber a morte, desde a pura extinção biológica individual para que a espécie possa prosseguir o seu caminho evolutivo, até à morte como facto destituído de sentido porque negação do desejo de eternidade que habita o coração humano. Sem negar o valor de outras maneiras de a conceber, para mim que sou cristão não posso deixar de a entender como uma restituição à plenitude, à unidade de onde tivemos origem. E nesse sentido, a morte pode ter sentido.
Oiço o murmúrio de Francisco de Assis, íntimo e constante: «Louvado sejas, ó meu Senhor, por nossa irmã a morte corporal, à qual nenhum homem vivente pode escapar.» Para este homem totalmente votado à unidade, era evidente que a morte — como tudo o resto — tinha de ser interpretada à luz da eternidade. E porque nada que exista pode acontecer se não nos for dado por essa fonte primeira cujo nome autêntico nos é desconhecido, também a morte é uma dádiva tal como o ser humano é dádiva para si próprio, para os outros e para a totalidade do universo.
Será a fé cristã uma ingenuidade quase infantil, afastada de toda a autonomia e lucidez do ser humano adulto? Talvez seja. Mas corresponde decerto muito melhor aos mais profundos anseios da humanidade do que a escuridão absoluta que a morte significa para quem a entenda como uma queda no abismo do nada, sem qualquer redenção possível.
A convicção de que existe uma remição para o ser humano perante o facto da morte não subsiste apenas nas religiões proféticas. O seguinte texto do Tao Te Ching é elucidativo a este respeito:
«O grande Tao tudo inunda.
«Todas as coisas dependem dele para viver.
«Alimenta todas as coisas
«sem delas se apoderar.
«A ele todas as coisas retornam.»
A vida depois da morte não é algo que possa ser concebida de forma independente da existência do absoluto. Bem pelo contrário: só é possível uma existência que ultrapasse os limites — intransponíveis para o ser humano — da morte, se Deus — ou o que quer que lhe chamemos — garantir a salvação humana do abismo do nada. De outro modo, não há alternativa ao silêncio da vida.
Alguém me telefonou para me pôr ao corrente da triste notícia: morreu o bispo D. Tomaz Nunes com quem trabalhei os últimos quatro anos e, mais do que isso, com quem desenvolvi uma relação de amizade. Nem sempre estivemos de acordo. Não precisámos. Sabíamos o que podíamos esperar um do outro e respeitávamo-nos. Sobretudo, eu aprendi a admirar a sua capacidade de trabalho e a sua ponderação no processo de tomada de decisão. Foi uma perda para a Igreja e para mim pessoalmente. Mas para Deus, nada que tenha valor pode ser perdido.

Este texto foi escrito ao abrigo do novo acordo ortográfico.

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