quarta-feira, 18 de agosto de 2010

Repensar o humanismo



Uma abordagem antropológica que tome seriamente em consideração os resultados da pesquisa evolucionista terá de proceder a uma revisão do conceito de humanismo. Este movimento cultural, que teve o seu início na Renascença, foi de primordial importância para elevar o ser humano à categoria de valor estruturante do pensamento e da ação, tanto a nível individual como, sobretudo, político-social. E fê-lo no quadro dos valores veiculados pelo cristianismo, ao contrário do que vulgarmente se diz quando se opõe, sem mais, o antropocentrismo humanista ao teocentrismo medieval. Na verdade, para os humanistas, não havia qualquer oposição entre Deus e o valor inalienável do ser humano. Bem pelo contrário, é o Deus do evangelho que está na base de toda a afirmação da dignidade humana, embora também seja verdade que o teocentrismo medieval é, em larga medida, um eclesiocentrismo prático e principalmente uma afirmação do poder das estruturas eclesiais (mormente do papa). Nesse sentido, o humanismo opõe-se efetivamente ao «teocentrismo» medieval, enquanto afirmação dos direitos das estruturas da Igreja acima dos direitos individuais e políticos.
Recentrando a sua visão antropológica numa leitura unilateral do texto do Génesis que relata a criação do mundo e do ser humano, o humanismo de raiz cristã sublinhou a diferença substancial do ser humano em relação à natureza. Único ser criado à «imagem e semelhança de Deus», a humanidade era a obra-prima da criação, ao serviço da qual todos os demais elementos criados deviam estar. Numa leitura algo simplista do texto bíblico, o ser humano podia dispor da natureza como bem lhe aprouvesse já que havia sido criado para a dominar. Sem atender à relativa autonomia de que a natureza dispõe, exatamente por ser obra de Deus, e particularmente sem atender ao facto de o ser humano, apesar da sua especificidade, se inserir no meio natural, desenvolveu-se uma conceção de humanismo que libertava o ser humano do meio natural para dele dispor sem qualquer limite. E é sobretudo a partir da Revolução Industrial que se começaram a fazer sentir os efeitos nefastos de semelhante ideologia.
Só o advento dos movimentos ecologistas farão reequacionar este «humanismo» predatório cujo poder foi amplificado pelos múltiplos desenvolvimentos tecnológicos. Se, por um lado, o humanismo foi afirmando o valor inalienável do ser humano, qualquer que fosse a sua condição, no quadro do desenvolvimento da teoria dos direitos e das liberdades político-individuais até ao reconhecimento dos direitos sociais, numa conquista sem precedentes na história da humanidade, por outro lado, essa centração no valor exclusivo do ser humano e numa suposta oposição à natureza acabou por ter o seu efeito trágico sobre o equilíbrio dos ecossistemas (cf. o aquecimento global, as alterações climáticas de grande alcance, a extinção em massa de inúmeras espécies, as chuvas ácidas, a rutura na camada de ozono e as doenças que daí decorrem, etc.).
A consciência coletiva foi, contudo, amadurecendo de forma a interpretar o ser humano como um «ser da natureza» e não um ser que a ela se opõe. Um forte impulso nesse sentido é dado igualmente pela teoria evolucionista (cf. o meu texto «A natureza humana, de 14/07/2010). Hoje, a humanidade vive à beira de um iminente abismo. A destruição, em larga escala, do ambiente natural põe em causa não apenas a subsistência dos recursos naturais, mas a própria sobrevivência do ser humano. O nosso destino está indelevelmente ligado ao destino da natureza. Se a maltratarmos, os efeitos sobre a vida humano não se farão esperar. Temos apenas mais poder do que qualquer outro ser vivo. Desenvolvemos capacidades que nenhum outro adquiriu, conquistámos o planeta e fizemos sentir a nossa presença como nenhum outro. Isso apenas aumentou o nosso grau de responsabilidade. O humanismo não pode ser pretexto para a obtenção de benefícios individuais ou coletivos a expensas da sobrevivência dos demais organismos vivos. Somos os guardiães da vida. Em larga medida ela depende do nosso comportamento e este está intrinsecamente ligado à consciência da nossa dependência de todo o ambiente natural. A sobrevivência do ser humano deriva da sobrevivência e equilíbrio dos ecossistemas.
Somos uma entre muitas espécies de que a natureza se compõe. O equilíbrio precário da vida tem sido ameaçado pela irresponsabilidade humana e por uma errada conceção de humanismo. O que significa, então, humanismo neste novo contexto precário?
Antes de mais, o humanismo deve conceber o ser humano como parte do ambiente natural. Não no sentido de um igualitarismo que põe no mesmo plano os elementos da natureza e os seres humanos, mas no sentido de uma relação assimétrica que atribui ao ser humano não apenas um mais vasto poder sobre o ambiente, mas sobretudo uma correlativa maior responsabilidade. Entender o ambiente como a casa onde moramos e da qual, em larga medida, dependemos servirá de suporte a um uso ético e, portanto, equilibrado dos recursos naturais.
No processo evolutivo, ganhámos evidentes vantagens em relação aos demais elementos naturais: uma linguagem complexa, relações sociais que nos permitiram colonizar todos os nichos ecológicos, um pensamento simbólico complexo… Mas essas vantagens podem ser usadas no pior sentido. E aí está, perante nós, o espetáculo da ruína ambiental de que fomos os mentores! Em vez de usarmos as nossas potencialidades apenas para benefício exclusivo do ser humano, numa perspetiva de curto prazo, a nossa sobrevivência depende de um alargamento de horizontes, da capacidade de equacionarmos os nossos interesses a longo prazo, incluindo a curto prazo os interesses dos restantes organismos vivos. A noção de convivência pacífica não se aplica somente à relação entre culturas e grupos humanos, é igualmente estruturante na relação do ser humano com a natureza.
Esta primeira nota põe em evidência o necessário reconhecimento do valor ético da ação humana. Construir uma fábrica e despejar os seus resíduos no curso de um rio não é um ato meramente técnico. Ao ter efeitos sobre o ambiente, incluindo o ser humano, é um comportamento que deve ser equacionado eticamente. É por isso que um novo humanismo tem de crescer sob o impulso de uma forte dimensão ética da vida. A assunção de um universo de valores morais, que orientem o comportamento para fins benéficos (para o indivíduo, mas sobretudo para os outros e para a colectividade) é condição para a realização do ser humano. Aos valores inscritos nas tradicionais declarações de direitos devem agora acrescentar-se os valores de ordem ecológica, precisamente porque não é possível pensar o ser humano senão inserido no meio natural do qual depende.
O humanismo não há de prescindir obviamente da afirmação, teórica e prática, da dignidade inalienável do ser humano, qualquer que seja a sua condição ou a sua origem. Dessa convicção decorre a igualdade fundamental de todos os seres humanos, projecto que está em grande parte por realizar, uma vez que os recursos continuam a ser desigualmente repartidos, tanto no plano das coletividades humanos como no plano individual. O capitalismo, herdeiro de um cego darwinismo social, segundo o qual, na luta pela sobrevivência, a «natureza» seleciona os indivíduos mais adaptados ao meio, rejeita uma visão igualitária do ser humano e concebe as relações sociais como mera competição entre indivíduos, esquecendo que os elevados níveis de cooperação e solidariedade, fundados numa visão igualitária, foram o motor que desencadeou o sucesso humano no processo evolutivo, como David Sloan Wilson bem descreve.
Tal não significa que não se reconheça e valorize as diferenças entre culturas humanas e entre indivíduos. Mas as diferenças não podem implicar a exploração da maior parte da espécie humana por um punhado de indivíduos que, na maior parte dos casos, já tinham condições de partida bem diferentes dos restantes. O humanismo não convive bem com uma distribuição da riqueza essencialmente injusta, produzindo clivagens sociais ameaçadoras da convivência humana. A compaixão para com a maior parte dos deserdados da Terra promove a consciência de pertença a uma única espécie, quaisquer que sejam as condições específicas que diferenciem os grupos humanos.
O humanismo é, pois, uma conceção cosmopolita da vida. A nossa tradicional identificação com o grupo no qual nascemos (a família, o clã, a tribo) evoluiu para a identificação com grupos humanos mais vastos (a nação e certas identidades supranacionais como os EUA ou a UE). Um humanismo autêntico não se detém apenas a este nível. Assume a identificação com todo a espécie humana, independentemente dos grupos culturais a que pertençam. Só assim nos libertaremos de oposições cuja prevalência inundou de sofrimento e morte a história humana.
Os processos de tomada de decisão terão de ser compatíveis com esta visão. O caminho a percorrer é ainda longo, mas cada cultura terá de o fazer a partir de dentro. Nenhuma nação se poderá erigir em polícia da humanidade. Essa atitude não só trará graves problemas à relação entre estados como também implicará uma forte recusa dos valores humanistas que eventualmente se pretendem fazer cumprir. Mas as formas democráticas de exercício do poder, que inclui a participação de todas no processo de tomada de decisão e a defesa da liberdade individual, são as que melhor se coadunam com uma visão empenhada seriamente na concretização do humanismo. A participação de todos na vida coletiva deriva de uma conceção essencialmente igualitária.
Quantas desigualdades ainda terão de ser derrotadas! Não se trata somente das desigualdades económicas, como também das múltiplas formas de discriminação com base no género, na orientação sexual, na cor da pele, na religião professada, etc. E vemos proliferarem ainda formas evidentes de discriminação na organização política das sociedades, na sua estrutura económica e nos diversos grupos de que uma sociedade é composta. Quantas vezes nos deparamos com a preferência dada aos indivíduos de sexo masculino na obtenção de cargos de relevo (na política, nas empresas, nas religiões…); ou a seleção, consciente ou inconsciente, para o exercício de determinadas funções proeminentes, com base em critérios de pertença a uma determinada mundivisão, para lá de toda a competência e mérito! E isto em sociedades ditas democráticas.
É de primordial importância a defesa da liberdade individual nas suas mais variadas manifestações: a liberdade de consciência, a liberdade de expressão, a liberdade de ação, a liberdade religiosa, a liberdade de associação, entre outras. A redução do indivíduo a mero elemento da vida social, sem que se lhe reconheça o direito à autonomia, à ação crítica e à resistência, mutila a sociedade do seu mais poderoso motor: as inúmeras competências individuais e os contributos que cada uma delas oferecem à construção de sociedades em permanente mutação. O imobilismo social não é consentâneo com uma visão do ser humano enquanto ser criativo, constantemente em busca de mais elevados graus de perfeição. É certo que a liberdade individual pode ser usada exclusivamente para benefício próprio, a expensas do bem-estar dos outros e da construção da sociedade, mas o preço a pagar pela restrição do indivíduo a uma simples parcela da comunidade, uma espécie de autómato reprodutor de comportamentos predefinidos, é tão alto que torna evidente a não existência de uma alternativa viável à liberdade.
A teoria da evolução ensina-nos que o conflito é inerente à condição da natureza, manifestando-se igualmente na relação entre grupos humanos distintos. Ao longo da história assistimos à substituição de determinadas culturas por outras mais adaptadas ao meio. O processo de seleção cultural é tão evidente como o de seleção natural. E tal como neste, também naquele o conflito violento teve o seu papel. No entanto, em muitas situações podem-se observar processos de substituição cultural sem recurso à violência. A teoria da evolução diz-nos que a violência não é inelutável no processo de sobrevivência e reprodução (biológica e cultural). Tudo depende do comportamento mais adaptado ao ambiente. Provavelmente, quanto maior for a consciência de pertença a uma única espécie, tanto menos havemos de recorrer à violência como processo de seleção cultural. É certo que tudo há de ocorrer de acordo com padrões preditos pela teoria da evolução, mas tais regras não impõem comportamentos unívocos. Oferecem, pelo contrário, um leque de possibilidades à disposição da liberdade individual, em parte condicionada pelo ambiente. E é essa universalidade fraterna que nos salvará da nossa própria condição. Quando nenhum ser humano se sentir estrangeiro, onde quer que esteja, teremos concluído o nosso destino ao humanizarmos os processos biológicos.
Uma sociedade humanista será também uma comunidade de pessoas orientadas para o conhecimento e realização da verdade. A consciência da nossa condição de seres inseridos no mundo natural, com todas as limitações que isso pressupõe, ofereceu-nos um capital de humildade que nos constrange a aceitar o impossível domínio da verdade absoluta. Bem escasso que é, tal como os recursos naturais, a verdade nem por isso é menos importante. O processo histórico de desenvolvimento humano é, de uma certa perspetiva, o processo de procura da verdade. Sucederam-se conquistas e fracassos, mas é nesta dialética que nos debruçamos, com esperança, sobre o futuro. Talvez tenhamos de reconhecer que a verdade não se alcança com uma só metodologia. A multidimensionalidade humana pressupõe níveis diferentes de verdade. A investigação científica, no seu esforço por desvendar o funcionamento do mundo, alcança um grau de verdade que, creio, em nada se opõe à verdade que as ciências sociais e humanas pretendem colher, usando metodologias diferentes. Mas nem só de ciência vive o ser humano. O que dizer da verdade de uma obra de ficção ou de um poema? O que dizer da verdade que as filosofias, as sabedorias e as religiões pretendem transmitir? Serão outras tantas abordagens ao mundo da vida correspondentes às diversas dimensões humanas (a razão, a emoção, a vontade, etc.).
É um humanismo que não exclua nada do que possa interessar ao ser humano que creio ser a forma renovada deste importante movimento cultural.

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