sexta-feira, 20 de agosto de 2010

Liberdade de investigação na Igreja



Há alguns dias, precisei de fazer uma pesquisa sobre a aplicação dos métodos histórico-críticos à interpretação da Bíblia. Digitei a expressão-chave no motor de busca e surgiu, como de costume, uma lista de páginas eletrónicas. Uma, contudo, chamou particularmente a minha atenção. Era uma notícia, ainda do ano 2009, cujo título exprimia, sem grande afastamento, o teor do acontecimento: «Papa relativiza método histórico-científico de interpretação da Bíblia».
Por ocasião do centenário do Pontifício Instituto Bíblico de Roma, numa alocução a professores e alunos, Bento XVI, numa engenhosa rede de «argumentos», não só relativiza o método histórico-crítico de abordagem da Bíblia como o submete aos organismos institucionais da Igreja.
Julguei já não ser possível sustentar teses desta natureza! E fiquei estupefacto ao ler as estranhas afirmações de um homem inteligente como sem dúvida é Joseph Ratzinger. A investigação científica tem, porventura, de se submeter, nos seus processos de procura da verdade através de metodologias próprias, a autoridades externas quando os resultados de tais pesquisas se revelam «inadequados» a essas mesmas autoridades? E como diz David Sloan Wilson, há situações de tanta distância entre a realidade e o nosso comportamento que parecemos dançar com fantasmas.
Creio que o poder na Igreja deve ser exercido a partir da lógica do amor e não da lógica do direito e das punições. É que o amor tem a sua própria racionalidade; impõem-se por si mesmo sem necessidade de recurso a medidas disciplinares ou outras exteriores à serenidade da sabedoria e à convicção da verdade que se transmite. Basta olharmos com algum despojamento para uma pessoa como o Dalai Lama que, sem o aparato institucional da Igreja Católica, é escutado em todo o mundo quando exprime, sem autoritarismos desprovidos de sentido, a sua imensa sabedoria de vida. E não é por isso que as suas palavras têm menos autoridade. Bem pelo contrário, sai reforçada exatamente porque não se impõe através de mecanismos de poder jurídico, mas através da lógica do amor e da sabedoria.
Quem está profundamente convicto de que o que defende coincide com a verdade, não precisa de o impor aos outros. A verdade tem os seus mecanismos próprios de afirmação, alheios a atitudes repressivas. Foi assim que a ciência se desenvolveu na cultura ocidental e hoje no resto do mundo. A livre discussão entre pares é suficiente para falsificar as teorias que se mostram desadequadas bem como para verificar a fiabilidade das que se mostram adequadas como modelos de explicação da realidade. Porque haveria de ser diferente no que se refere às abordagens científicas da Bíblia?
O papa e a cúria romana bem esperam que todos dancem quando executam a sua música. Infelizmente talvez não se apercebam de que esta surdez aparente tem a sua razão profunda não na capacidade auditiva do público mas no facto de os executantes tocarem madrigais medievais para um auditório que gosta de Stravinsky. Simplesmente usam códigos indecifráveis para o tempo a que se dirigem.
Sobretudo, têm medo de que o poder resvale para as mãos do povo. Preferem centralizar as decisões e até a maneira como se investiga, obviando a que a autoridade lhes escorra das mãos, como água por entre dedos abertos. Esquecem que a mais autêntica e duradoura autoridade é a que decorre do amor, cuja lógica se não compadece com autoritarismos anacrónicos.
Seria bom que o papa voltasse a ler o que escreveu em tempos e retirasse daí algumas lições; mas os tempos mudam e, com eles, mudam igualmente as vontades:
«Acima do papa como expressão do direito vinculante da autoridade eclesiástica está ainda a consciência individual, à qual é preciso obedecer antes de tudo, em caso de necessidade mesmo contra a injunção da autoridade eclesiástica. Com esta centralidade do singular, que na consciência é posto perante uma suprema e última instância, que, por fim, está desvinculada da solicitação da comunidade externa, incluída a Igreja oficial, coloca-se contemporaneamente o princípio contrário ao totalitarismo, enquanto a autêntica obediência eclesial se desfaz da pretensão totalitária que não pode aceitar uma tal obrigação última contraposta à sua vontade de poder.» (citado em Küng, La mia battaglia perl la libertà, pp. 511-512).

Este texto foi escrito ao abrigo do novo acordo ortográfico.

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