quarta-feira, 25 de agosto de 2010

Hamlet, príncipe da Dinamarca



Depois de alguns anos de interregno, não pude deixar de revisitar Shakespeare. Sempre foi, para mim, um escritor de eleição. Em geral, não releio o mesmo texto literário, senão por motivos profissionais. Mas com Shakespeare é tudo diferente. Revisito periodicamente a sua literatura com o mesmo interesse com que li os seus textos pela primeira vez. Sobretudo, as grandes tragédias. De facto, há qualquer coisa de extraordinário na trama e no discurso literário das tragédias deste excecional dramaturgo.
Hamlet, príncipe da Dinamarca, é uma personagem complexa. Os factos ocorridos na sua ausência (a morte do rei, o pai de Hamlet, às mãos do próprio irmão, a usurpação do trono pelo tio e o casamento apressado com a rainha) transformam o jovem príncipe, perspicaz e inteligente, numa personagem perturbada que transpira ódio e vingança. Profundamente abalado pelos eventos, estratega de um plano que visa fazer justiça pelas próprias mãos, assume comportamentos que se posicionam na fronteira entre a lucidez vingativa e a loucura. A aparição do fantasma do rei morto ao filho, ao ser partilhada pelas sentinelas do castelo, parece decorrer da própria realidade e não da demência do príncipe. Mas ao permanecer invisível aos olhos da mãe, remete o leitor para uma eventual imaginação doentia, transtornada pelos factos. Corroborando a segunda tese, o espetro do rei confirma apenas as suspeitas de Hamlet acerca da crueldade e da traição envolvidas nos recentes acontecimentos. Há deveras «qualquer coisa podre no reino da Dinamarca».
A origem do comportamento de Hamlet está sujeito a múltiplas interpretações (que lançam a dúvida sobre as suas reais intenções): uma eventual paixão por Ophélia, a morte do pai, seja ela entendida como um facto natural ou, com maior força de razão, como o resultado de um hediondo homicídio, a ambição do poder que vê na subida ao trono do tio uma usurpação do lugar que lhe cabia por direito próprio, a relação (incestuosa?) da mãe com o tio. Só o desenrolar dos acontecimentos trará luz sobre os verdadeiros motivos do seu estranho procedimento.
Perante o imenso e incessante fluir do sofrimento que toma conta do espírito de Hamlet e arrasta consigo toda a Dinamarca, qual deve ser então o comportamento correcto? «Ser ou não ser, eis a questão». Dar a si próprio a morte, enquanto libertação de todo o sofrimento, em busca da eternidade divina, onde a dor não tem morada? Não. Aceitar as condições nefastas da vida, porque a ignorância do que espera o ser humano para lá da morte deve mantê-lo prisioneiro da vida.
Corroído pelo remorso e, sobretudo, pelo receio da perdição eterna, o rei lamenta a própria condição, consciente de que na presença de Deus «não há sofismas e os atos são postos em sua verdadeira natureza e nós somos obrigados perante os dentes e o rosto das nossas faltas a confessar a evidência.» A única vereda que pode conduzir à salvação é o arrependimento. Mas até este estreito caminho lhe está vedado, pela força da sua infinita ambição! E Hamlet abomina a hipocrisia do tio: «é preciso que eu escreva que um homem pode sorrir e voltar a sorrir e ser um vilão, pelo menos sei que é assim na Dinamarca». Será apenas na Dinamarca?
Dois mundos antagónicos e irreconciliáveis projetam estratégias bélicas cuja única finalidade é o extermínio do outro. E não há alternativa: a sobrevivência do outro arrasta inevitavelmente a própria destruição. Nenhuma reconciliação é possível. De um lado o rei calculista, adjuvado pela rainha e por toda uma panóplia de aduladores do poder ou de indivíduos para quem a morte de Hamlet constitui a salvaguarda da própria honra. Do outro, Hamlet, adjuvado por Horácio. A assimetria de forças é evidente. Só a argúcia de Hamlet lhe poderá valer a vitória.
É neste contexto que Hamlet profere uma dura crítica aos aduladores do poder (crítica, aliás, bem atual): «Antes de mamar, já devia fazer mesuras à teta. Ele é assim e como ele conheço muitos da mesma espécie que a nossa época grosseira adora — treinam-se em mundanismos, apanham só o tom do tempo e da moda, uma espécie de sabedoria fútil que os promove e os faz trepar através das opiniões mais profundas e escolhidas, mas se, para os pores à prova, lhes soprares, as bolhas desaparecem.»
Neste combate mortal — onde se entrançam o ódio e o amor, a fidelidade e a traição, a justiça e a vingança, a ambição e o serviço, a ruptura e o perdão, a lucidez e a loucura, a estratégia e a imponderabilidade das situações… —, estão lançados os dados para o desenlace fatídico: na sala onde a batalha final se desenrola, amontoam-se os corpos lívidos da rainha, de Laertes (filho de Polónio), do rei e de Hamlet, depois de Polónio (o primeiro-ministro) e Ophélia (filha de Polónio) já terem sucumbido à desventura do tempo.
Assiste-se, portanto, à regeneração da vida por meio da morte do que está podre no reino da Dinamarca, ou seja, da iniquidade reinante. Por caminhos ínvios, a razão universal conduz a história para a sua própria ressurreição, como o dilúvio fora um novo recomeço da história sobre os escombros da maldade irremediável da humanidade.
Qualquer que seja o juízo e a interpretação que se possam fazer sobre a história (de Hamlet ou de todos os Hamlet), o texto de Shakespeare cristaliza as principais pulsões do ser humano. E talvez por isso mesmo, aliado a um texto de altíssimo valor estético, esta obra seja indubitavelmente incontornável.

Este texto foi escrito ao abrigo do novo acordo ortográfico.

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