sábado, 28 de agosto de 2010

A evolução tem um fim?

 Teilhard de Chardin


Qual o significado da evolução humana? Haverá espaço para uma visão otimista, que encara a história humana como a história de um progresso moral?
Wilson, que se tem dedicado ao estudo da evolução tanto biológica como cultural, assegura que na natureza não é necessariamente assim. A história da evolução natural é a história da luta pela sobrevivência através da adaptação ao meio e da seleção natural. As adaptações de uma determinada espécie podem ser aberrantes aos olhos de um ser moral (veja-se, por exemplo, o bem documentado infanticídio na natureza e também entre os seres humanos). A sobrevivência de um pode ocorrer, e ocorre muitas vezes, à custa da sobrevivência de outros.
E a evolução humana, enquanto evolução cultural? Não parece haver diferenças significativas em relação à evolução biológica. Façamos apenas um pequeno esforço para trazer à memória os inúmeros genocídios ocorridos durante o sangrento século XX! Será menos violento o ser humano do século XX do que o do Paleolítico? Não creio que o seja. Os mesmos instintos de luta pela sobrevivência e pelo seu aliado de sempre, o poder, impeliram um e o outro a matar quando estão em jogo determinados fins.
É contudo possível, segundo o mesmo autor, alterar o comportamento humano no sentido de o «humanizar», modificando as condições em que decorre a vida. Se o comportamento mais adaptativo for o que promove a cooperação em vez da simples competição e, sobretudo, em vez da luta violenta, os seres humanos hão de privilegiar comportamentos cooperativos. A chave do problema está, pois, em criar condições sociais — no palco onde a atividade humana se processa — que assegurem a adaptabilidade e, portanto, o sucesso de comportamentos eticamente aceitáveis. Numa sociedade em que poucos possuem a quase totalidade dos recursos e a maior parte sobrevive (quando sobrevive) na indigência, os comportamentos mais adaptativos serão os que concebem a relação com o outro como a relação entre adversários, em vez de parceiros, na luta pela sobrevivência. A competição pela obtenção de recursos passa das palavras a atos violentos e o tecido social fica indelevelmente fragmentado pelos interesses antagónicos dos intervenientes. E pode-se esperar que tudo seja diferente? Somos nós que construímos as condições para a existência generalizada da violência e da criminalidade, porque haveríamos de atribuir exclusivamente aos outros a responsabilidade pela má gestão da vida social? Se não protestarmos e, cada qual com os meios à sua disposição, não introduzirmos alterações nas condições sociais da população em geral, não podemos lamentar-nos por vivermos numa selva. Fomos nós que escolhemos a selva como ambiente vital, ao permitirmos clivagens sociais tão profundas. A responsabilidade é de todos, cada qual de acordo com o lugar que ocupa no sistema de relações sociais.
Para um cristão, causa uma certa perplexidade que a ciência tenha chegado a resultados tão pouco animadores quanto às regras evolutivas. Teilhard de Chardin, enquanto cristão, acreditava que a história humana se encaminhava para um fim inteiramente luminoso. Os crentes, de uma forma geral, são despudoradamente otimistas. E como poderiam ser pessimistas? Acreditam que tudo o que existe tem fundamento numa realidade sem sombras nem rugas e que o destino de tudo é o retorno à unidade absoluta com essa realidade estrutural. Uma evolução que não fosse um progresso para a perfeição parece não condizer com este elemento essencial da fé.
Talvez o processo evolutivo, tomado globalmente, por entre avanços e recuos pontuais, seja realmente um progresso em direção à perfeição ontológica e ética. Talvez ainda não tenhamos tido tempo suficiente para poder verificar que as coisas são realmente assim. Mas a teoria segundo a qual podemos melhorar as condições do mundo, alterando a situação ambiental está em perfeita sintonia com a fé religiosa. Vimos ao mundo para assumirmos as nossas responsabilidades enquanto seres humanos, dotados de liberdade e consciência ética. Cabe-nos a nós construirmos civilizações consentâneas com uma visão mais humanizadora da vida. Deus colocou-nos no mundo para sermos criadores de realidade. Precisamos apenas de decidir que tipo de realidade pretendemos criar.

Este texto foi escrito ao abrigo do novo acordo ortográfico.

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