domingo, 22 de agosto de 2010

Autoridade, confiança e responsabilidade



«Encaro os cientistas como indivíduos como outros quaisquer. Não é possível ter confiança em ninguém com base nos seus diplomas — nem nos cientistas, nem nos políticos, nos padres ou em intelectuais farisaicos. A confiança exige responsabilidade. Alguns indivíduos são responsáveis por si próprios, mas isso não é suficiente ao nível institucional. Um governo, uma religião ou uma cultura científica eficazes têm de incluir mecanismos que tornem toda a gente responsável.» (David Sloan Wilson, A evolução para todos, p. 24).
Wilson tem razão. A experiência diz-nos que os seres humanos são essencialmente iguais no que se refere às virtudes e aos defeitos que os orientam na vida. Embora isto não seja totalmente verdade quando avaliamos o comportamento individual, a grande maioria das pessoas estimam responsavelmente as suas decisões quando o sistema em que estão inseridas exibe mecanismos de controlo da responsabilidade individual, de outra maneira não o fariam. Por isso, não basta depositar em cada indivíduo um certo grau de confiança, pelo mero facto de terem este ou aquele cargo, esta ou aquela função, este ou aquele diploma. Os políticos, os líderes religiosos, os cientistas… não são mais responsáveis do que os restantes membros do corpo social. Têm apenas um cargo ou uma função diferentes, facto que não se revela suficiente para tornar as suas decisões honestas e responsáveis.
Esta constatação deve alertar-nos para a necessidade de estarmos de sobreaviso. Se as pessoas sentirem que as suas decisões e os seus comportamentos (com relevância pública, evidentemente) estão sob vigilância, tenderão a ser mais responsáveis. De outro modo, muitas hão de aproveitar a oportunidade oferecida pelo lugar que ocupam para agir em benefício próprio, a partir dos seus interesses individuais e não do bem coletivo.
Mas Wilson levanta igualmente uma questão crucial para a eficácia de uma instituição: a da necessária existência de mecanismos de controlo da responsabilidade. Quanto maior for o nível de democratização das instituições maior pressão haverá sobre os líderes para agirem em benefício da comunidade. As decisões dos líderes devem ser rigorosamente escrutinadas para bem de todos. A concentração do poder nas mãos de um só (ou de poucos) não abona a favor do apuramento da verdade nem do uso da responsabilidade. Não augura, por conseguinte, bons resultados, uma vez que faz depender a vida da comunidade da responsabilidade assumida a título individual. O ser humano — como os dados históricos não se cansam de testemunhar — não nos merece semelhante confiança desmedida!
Os juízos pronunciados por um líder religioso, por um político ou por um cientista têm de ser criteriosamente sujeitos ao crivo da razão crítica para poderem ser aceites. Ninguém está acima do dever de justificar as afirmações que pronuncia e as decisões que toma (quando relevantes para a vida coletiva). E esse mecanismo de controlo exige a participação dos demais membros da vida comunitária bem como o uso da liberdade individual sem restrições de monta. Num regime onde impera a censura, este mecanismo de controlo falha inevitavelmente. Por isso, exigir aos correligionários uma obediência cega constitui uma infantilização desumana e uma desresponsabilização individual, condenando igualmente a comunidade ao arbítrio dos seus líderes.
A ninguém pode ser pedido que descanse numa qualquer autoridade a intencionalidade da sua consciência. Por mais sagrada que seja, não está acima da consciência individual e do seu juízo crítico e muito menos do controlo de toda uma comunidade de indivíduos que partilham entre si a pertença a um determinado corpo social. Uma afirmação que se arrogue o direito a ser verdadeira terá de o demonstrar antes de exigir assentimento. E não basta que o faça num determinado momento histórico. É preciso manter a mesma fadiga explicativa também nos períodos cronológicos sucessivos, quando novos membros da comunidade avançarem com outras tantas objecções. A procura da verdade não se detém na materialidade de um conjunto de enunciados. É, pelo contrário, um processo histórico sem fim, porque inevitavelmente decorrente das limitações humanas.

Este texto foi escrito ao abrigo do novo acordo ortográfico.

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