quarta-feira, 20 de junho de 2018

Sínodo dos Jovens 2018


De acordo com o documento de trabalho do Sínodo dos Jovens de 2018, é preciso ouvir os jovens em plena liberdade, permitindo que se pronunciem sobre os mais variados problemas, incluindo aqueles que a Igreja tem considerado encerrados.
Graças a Deus, temos um papa disposto a escutar as bases e não apenas a fazer o que quase todos até agora têm feito: produzir doutrina de forma unilateral, das cúpulas para as bases, sem atender minimamente à perspetiva do povo. E esta surdez permanente tem-se feito sentir tanto a montante como a jusante. De facto, o medo de perder o controlo da situação tem levado a instituição a manter-se rigidamente insensível às vozes do povo. E tal acontece tanto no processo anterior à elaboração da doutrina, como também na verificação da sua aceitação e execução pelas bases. De que serve uma “bela” doutrina que não é respeitada por ninguém? Este facto não deverá levar a igreja a considerar a hipótese de estar errada quanto às posições que unilateralmente assume? A voz do povo na sua globalidade não revelará a voz de Deus? A rejeição prática e universal da doutrina não significará simplesmente que o seu conteúdo pouco ou nada corresponde à vontade de Deus?
É cada vez mais urgente ouvir os jovens (e os menos jovens) a respeito de questões fundamentais de ética sexual. A proibição de métodos anticoncecionais artificiais está inteiramente desajustada da realidade e não tem qualquer fundamento bíblico ou ético. A Humanae Vitae (encíclica de Paulo VI tristemente conhecida por ter proibido aos católicos o uso de métodos artificiais de contraceção) labora claramente em erro! Os supostas justificações que recolheu do argumentário conservador não têm qualquer sustentação lógica. São meros ardis pseudointelectuais (como aliás muitos dos documentos da Igreja sobre moral sexual) para manter uma suposta tradição que está errada desde a sua origem.
Embora com matizes diferentes (porque há dados bíblicos sobre algumas destas questões), a discussão deve estender-se igualmente à tradicional condenação da homossexualidade ou das reconfigurações das famílias, após o fracasso de um primeiro casamento, ou do acesso das mulheres a lugares de chefia na Igreja…
Os conservadores dirão que se trata de vender a Igreja ao espírito do tempo. Eu diria que se trata essencialmente de escutar a voz de Deus em ação na história da humanidade. Uma Igreja petrificada nos seus dogmas caducos não vai chegar a lado nenhum. Pelo contrário, cava o fosso da própria morte. Que credibilidade terá uma instituição que clama no deserto ao arrepio de tudo quanto pensam, sentem, dizem e fazem as suas bases?
Dir-me-ão que esta perspetiva é demasiado perigosa, uma vez que se arrisca lançar fora o bebé com a água do seu banho. Eu diria que não é menos perigosa a perspetiva autista com que as instâncias da Igreja têm conduzido a vida do povo cristão. Vemos bem os resultados a que se chegou, com a debandada geral das novas gerações! Não se trata, evidentemente, de arruinar os fundamentos da fé cristã. Ninguém em seu perfeito juízo aceitará tal visão, por mais revolucionário que seja. Tudo quanto constituir o núcleo da identidade genuinamente cristã deverá ser mantido e aprofundado. Mas o critério para julgar a identidade cristã não são nem podem ser os dogmas de concílios ou de papas, mas Jesus Cristo e o seu Evangelho.
Quando a Igreja estiver disposta a rever a sua história (incluindo a enorme massa desconforme de cânones, dogmas, doutrinas, imposições e afins) à luz do Evangelho de Cristo, teremos de novo (disso não tenho dúvida) o rejuvenescer da fé e da alegria cristã, na sua pureza original. Porque a fé cristã não é esse emaranhado de catecismos, leis e dogmas que a Igreja foi acumulando ao longo de séculos. Mas a simplicidade do amor ao próximo, dita e cumprida em cada minuto da nossa precária existência, bem como a confiança desmedida num Deus que nos amou desde sempre e nos acolhe na sua eternidade indizível. E num tempo em que os ventos sopram cruzados e tumultuosos, bem precisamos de uma orientação espiritual que seja firme no essencial e benevolente em tudo.

sábado, 16 de junho de 2018

"A arte subtil de dizer que se f*da"



Há dias, percorrendo os corredores de um hipermercado, enquanto me dedicava à aborrecida tarefa de escolher e trazer para casa os mantimentos de que vamos precisando, passei pela banca de exposição de livros. Um pouco ao acaso, dei uma vista de olhos às novidades expostas. Um título desassombrado despertou a minha curiosidade: “A arte subtil de dizer que se f*da”. Digo antecipadamente que não costumo gastar dinheiro na aquisição de livros que se classificam como “autoajuda” (este não se enquadra bem no género, mas anda lá perto). Nunca confiei muito neste tipo de literatura e, como os recursos não são infinitos, há que escolher onde ocupar o seu tempo e gastar o seu dinheiro. Normalmente, prefiro seguir por outros caminhos que me são mais aprazíveis.
Mas aquele título era irresistível! Alguém teve a coragem de usar o calão na identificação do seu texto, sem medo de perder a clientela! Merecia, pelo menos, média dúzia de minutos da minha atenção. Algum tempo despendidos no meio da fastidiosa tarefa de recolher batatas e dentífricos não haveria de perturbar substancialmente a harmonia do universo. Por isso, peguei no volume e li a contracapa. Fiquei imediatamente deslumbrado! Então não era verdade que desenvolver o pensamento positivo fosse a receita certa para adquirir uma vida feliz? Parece que não! Pelo menos para o autor, esta ideia tão difundida era, no mínimo, perigosa. Na maior parte das situações, significava fugir aos problemas. E essa não era, definitivamente, a atitude correta. Em vez de os resolver, escamoteava-os, mantinha-nos em banho-maria ou permitia que se avolumassem desmedidamente.
Resolvi fazer uma loucura (com risco controlado, evidentemente): comprar o bizarro volume. E estava tão curioso em relação às propostas do autor, que não esperei terminar os três ou quatro livros que lia naquele momento para iniciar a sua exploração. E não me arrependi. Aliás, em momento algum me arrependi de o haver comprado e haver dedicado o tempo necessário à sua compreensão. Naqueles dias, passei por instantes de volúpia intelectual com que não era acometido há bastante tempo.
Cada vez mais tenho dificuldade em ser surpreendido com as leituras que faço ou com as palestras que ouço. É por isso que raramente frequento conferências. Para além do tempo que demoro na deslocação para o local do evento, não é tão fácil desembaraçar-me delas como o é terminar imediatamente uma inútil leitura. É por isso que sinto enorme alegria quando sou surpreendido por algo realmente novo e intelectualmente perspicaz. Mark Manson, o autor americano de que falo, conseguiu despertar em mim este sentimento de fascínio por uma estimulante descoberta.
Sem dó nem piedade, o autor expõe as nossas fragilidades numa prosa tão autêntica como escorreita e viva. Um filão de sabedoria transborda nas sucessivas páginas. Um após outro, os capítulos vão denunciando as nossas desatinadas estratégias de fuga aos problemas, de desresponsabilização por tudo quanto nos acontece e de vitimização pela infelicidade que, afinal, vamos cavando à nossa volta. A dor é, por vezes, tão profunda, que preferimos mascará-la, como se a felicidade estivesse à mão de semear e resultasse apenas da vontade benigna de um qualquer redentor exterior.
É assim que, ao longo das suas duzentas páginas, vai desmascarando os processos autodestrutivos de vitimização a que muitos recorrem por se acharem “no direito” de obter de alguém a satisfação daquelas condições que lhes hão de desvendar a felicidade. Mas como os problemas continuam lá, morrem asfixiados nesse processo de fuga e culpabilização do outro. A verdade é que jamais os outros serão exatamente como nós gostaríamos que fossem. E ainda bem que assim é! Logo, só há uma maneira de nos libertarmos do sofrimento nocivo (sim, também há um sofrimento que não é nocivo!): assumirmos pessoalmente a responsabilidade por tudo o que de importante nos vai acontecendo e tomarmos as decisões essenciais ao processo de autoconstrução da vida.
Normalmente, a pessoa que se acha “no direito” crê estar num patamar elevado em relação às outras. Como ser moralmente superior, raramente põe em causa as suas mais profundas convicções. Há uns anos, alguém que ocupava um cargo proeminente na política portuguesa declarou “nunca se enganar e raramente ter dúvidas”. Ora é exatamento o ceticismo em relação às próprias convicções que nos abre as portas para novos patamares de aperfeiçoamento humano. Mas a estúpida convicção de que temos sempre de ter razão mantém-nos no grau zero da nossa insanidade autossuficiente.
Se assumirmos a responsabilidade por tudo o que nos acontece, estaremos disponíveis para tomar decisões sobre o nosso futuro. Em sentido inverso, recusar-nos a decidir, deixando que os factos rolem automaticamente independentemente da nossa vontade e disparando contra tudo o que mexe por ser supostamente o causador da nossa intranquilidade, faz-nos permanecer obstinadamente no ponto inicial do percurso, como alguém que andou perdido numa floresta em torno dos mesmos lugares, sem encontrar o rumo adequado.
Uma das palavras-chave deste livro é “compromisso”. De facto, comprometer-se com algumas (poucas) dimensões da vida, excluindo todas as outras que estariam igualmente disponíveis, oferece-nos a oportunidade de crescermos no contexto das opções que tomámos. Querer viver a vastidão das possibilidades com que somos confrontados é, pelo contrário, condenar-se a uma insonsa superficialidade, tanto no plano das relações pessoais como no da vida profissional ou cívica. Só se alcança a profundidade com dedicação e tempo. Saltitar de relação em relação, de profissão em profissão, etc. condena-nos a uma vida trivial, sem densidade e sem sentido.
Em suma, recomendo a leitura deste saboroso volume (e queira fazer o favor de acreditar que eu não tenho qualquer interesse financeiro no assunto). Mas só a quem estiver preparado para o confronto com as misérias pessoais. Caso contrário, talvez não valha a pena…

domingo, 3 de junho de 2018

Amar a liberdade



O recente debate sobre a eutanásia veio pôr a lume as várias conceções do ser humano e da sua posição no mundo social. Essencialmente, revelaram-se duas antropologias em confronto: a tradicional, que encara o indivíduo como alguém que precisa inexoravelmente de tutor, incapaz de tomar decisões adequadas acerca da sua vida e do seu destino, e a antropologia que se foi construindo a partir das filosofias iluministas, a qual opõe a este ponto de vista a defesa intransigente de um homem maduro, adulto, que toma nas suas mãos o próprio destino e não delega em ninguém as principais decisões acerca da sua vida. Enquanto para a primeira, no topo da escala de valores, encontra-se o valor primordial da vida, como uma espécie de divindade intocável que tudo submete independentemente das configurações que ela própria vier a tomar; para a segunda visão do mundo, o valor primacial é o da liberdade, da autodeterminação individual da qual decorre o reconhecimento da capacidade de autogestão da vida e de autonomia do sujeito face aos outros e à sociedade em que aceita viver.
Os autoproclamados “defensores da vida” (como se os outros o não fossem também!) parecem não se preocupar minimamente com o facto de que a vida biológica não diferencia de modo algum o ser humano de todos os outros elementos que com ele partilham o mesmo princípio vital, como, por exemplo, um simples arbusto ou um lagarto. Estaremos então obrigados eticamente a defender a todo o custo a própria vida, mesmo quando estão em jogo outros valores como a liberdade e o significado que cada ser humano tem o direito e o dever de atribuir às condições em que a própria vida se desenrola?
Pelo contrário, os defensores da liberdade, ainda que tenham em grande consideração o valor da vida pessoal, assumem que, acima dele, como elemento realmente diferenciador, especificamente humano, há a liberdade que nos distingue definitivamente do mero lagarto (sem nenhum desprimor para o dito). Somos liberdades que são chamadas a construir a própria existência quotidiana a partir das decisões que tomamos e da forma como agimos em conformidade com tais opções. A vida humana, ao contrário da vida das plantas ou dos animais, é uma caixinha de surpresas com as portas abertas sobre o futuro. Mas ao contrário das caixinhas mais corriqueiras, cabe a nós optar pelas “surpresas” com que nos identificamos (ou queremos identificar-nos) e rejeitar as indesejadas. A vida humana não é um edifício inteiramente construído e acabado desde o instante em que nascemos. É, pelo contrário, um estaleiro em permanente edificação. E somos nós, cada ser pessoal, o mestre de obras que põe tijolo sobre tijolo no ato concreto e significativo de tomar decisões e assumir valores, ao mesmo tempo que rejeita opções com que se não identifica. Ou seja, somos nós próprios os nossos construtores! É por isso que o uso da nossa liberdade é inalienável. E mesmo aqueles que, tolhidos pela própria inação ou pelo medo do que aí virá, não quiserem assumir a responsabilidade da sua autoedificação, já estão a fazê-lo, ainda que inconscientemente, no próprio ato de aceitarem ser joguetes nas mãos dos outros e caminharem ao sabor do vento, como canas batidas por temporais.
Ao contrário do que possa parecer a mentes mais incautas, nada disto colide com a ideia de que fomos postos no mundo pela vontade benevolente de um deus. Se atendermos ao que o livro do Génesis refere, na sua linguagem aprazivelmente mítica, o ser humano foi trazido à existência por Deus, mas de forma alguma concluído: é no uso da própria liberdade, com todos os riscos que daí possam advir (e o Génesis põe-nos de sobreaviso a respeito deles), que o ser humano cumpre a vontade de Deus quando no ato da criação o quis livre e autónomo, dotado de razão e consciência. E é verdade exatamente o contrário daquilo que os mais conservadores têm propalado, ou seja, que a demissão do uso da própria liberdade é a negação do destino que Deus quis para cada um de nós. Fomos criados livres; é essa indiscutivelmente a nossa condição e, por mais que o neguemos, mesmo quando delegamos em alguma autoridade o poder de gerir o nosso destino, fazemo-lo no uso da liberdade de nos autolimitarmos por medo, preguiça ou insegurança face às próprias capacidades ou à complexidade da vida e aos riscos que lhe são inerentes.
É indiscutivelmente mais fácil deixarmo-nos guiar por tutores. Afinal, decidir em cada momento o que é melhor para nós é cansativo e exige a mobilização das nossas limitadas energias. Muitos preferem abdicar desse direito! Mas o facto de terem a liberdade de o fazerem não lhes dá, de modo algum, o direito a impor aos outros semelhantes restrições. A gestão da liberdade de cada um deve ser decidida por cada um. A prescindir das situações em que o bem dos outros que connosco partilham a mesma comunidade tem de ser salvaguardado face a um uso irracional da própria liberdade, em todas as outras situações (ou seja, naquelas em que não está em jogo a dignidade e o direito do outro) a liberdade individual deve ser preservada e promovida, no reconhecimento de que é na liberdade que o ser humano se define autenticamente humano.
Assim, o debate sobre a eutanásia veio trazer à colação as diferentes e conflituantes conceções antropológicas. Ao contrário do que alguns disseram, não fiquei absolutamente nada admirado com o facto de o Partido Comunista — um acérrimo defensor de um Estado paternalista e da imposição de limitações absurdas à liberdade individual em favor de um suposto interesse coletivo — estivesse ao lado das conceções mais conservadoras. Afinal, o princípio que os rege a todos é o mesmo: o indivíduo deve ser encarado como uma peça despicienda de uma engrenagem que o supera e o devora no quotidiano coletivo. Foi assim para todos os regimes totalitários (de direita e de esquerda, comunistas, fascistas e afins). Todos eles se baseavam no pressuposto de que o cidadão comum não tem capacidade para gerir os próprios destinos (nem os destinos das comunidades onde se insere) e deve, por isso, viver sob a proteção do PAI — chame-se ele como se chamar: duce, führer, ditador, papa… — que lhe vigia os passos e toma as decisões que melhor lhe convém. O risco da liberdade parece-lhes demasiado grande! E decerto, pensam eles, haverá quem saiba melhor do que o Pai o que é bom para cada filho? Tudo se torna mais simples quando é esta entidade suprema a tomar todas as decisões essenciais tanto na organização da vida social como na orientação da vida privada. Ao cidadão comum não é reconhecido o direito de gerir os próprios destinos porque não se lhe reconhece capacidade para tal. Como uma criança cuja liberdade tem de ser severamente vigiada, o cidadão deve limitar-se a cumprir ordens superiores. Ao fazê-lo, tais regimes degradam o ser humano à condição de meros comparsas no teatro da vida. É-lhe negado o direito mais básico a construir-se enquanto autenticamente humano. Em vez disso, assoma constantemente no balcão da vida o Pai zeloso que tudo faz pelo seu bem, que pensa por ele, que decide por ele, que afinal o avilta, negando-lhe a possibilidade de vir a ser aquilo que efetivamente descobre como significativo.
Infelizmente, o cristianismo na sua vertente católica sofre do mesmo mal. Fundada numa conceção errada do cristianismo, a Igreja tem elevado à condição quase divina uma casta de “iluminados” (todos homens!) que se autoproclamam legítimos intérpretes da vontade divina, negando a todo o povo cristão (em termos sociais é o correspondente ao cidadão comum) a possibilidade sequer de opinar sobre os mais variados assuntos da vida comunitária. É por isso que a lista de documentos sobre todos os assuntos da vida privada e coletiva é vasta e quase inteiramente no mesmo sentido: coartar a liberdade individual e determinar até ao mínimo pormenor as decisões de cada indivíduo sobre todos os âmbitos da vida, desde a contraceção à homossexualidade ou desde a fecundação medicamente assistida à definição de formas autocráticas como a comunidade se deve gerir. É por isso que, sem qualquer surpresa, ouvimos recentemente denodados elogios de alguns bispos à posição assumida pelo Partido Comunista sobre a questão da eutanásia.
Que dizer, então, da tão espinhosa questão da eutanásia? Também neste caso se confrontam as duas posições acima referidas. Os partidários de uma sociedade que limita ao máximo a liberdade de cada indivíduo, por evidente desconfiança em relação às suas reais capacidades de decidir adequadamente, defenderam a não aprovação da lei e os partidários da liberdade individual defenderam a aprovação da mesma. Apesar dos argumentos esgrimidos pelos opositores do projeto de lei (e alguns desses argumentos devem claramente levar-nos a tomar medidas para que os abusos não tenham margem de manobra e todos os doentes terminais tenham cuidados de saúde adequados no momento derradeiro da própria existência), a questão primordial é a da liberdade. Até onde estou disposto a estender a liberdade do indivíduo, ainda que a sua posição seja diametralmente oposta à minha? É claro que quanto maior for a margem de liberdade, tanto maior será o risco de decidirmos ao arrepio dos nossos interesses e dos interesses dos outros. Mas (e agora dirijo-me aos crentes) Deus não correu o risco de nos criar livres e de respeitar a nossa autonomia apesar das atrocidades que com o seu uso abusivo fomos cometendo? De facto, a alternativa é desumana porque degrada o indivíduo à condição infantil de um autómato sob o comando alheio. Todo o indivíduo tem o direito e o dever de tomar nas próprias mãos o próprio destino, incluindo o direito e o dever de dispor da própria vida como bem entender, desde que esse direito não colida com os interesses dos demais. É por isso que a não aprovação da lei sobre a eutanásia foi um lance errado que, não tenho dúvida, tem os dias contados. Vivemos num tempo em que já não é possível manter o indivíduo sob o poder opressivo da consciência alheia. A liberdade é o destino do ser humano.

terça-feira, 22 de maio de 2018

É possível amar a Deus?



Li algures que não é possível amar a Deus. Por definição, Deus é invisível, inaudível, intocável e, portanto, incontactável. É através dos sentidos que nós percecionamos o mundo e com ele estabelecemos algum tipo de relação. Entes impercetíveis aos sentidos são, por definição, para nós, inexistentes, uma vez que estão para lá de toda a experiência possível. E uma vez fora do âmbito da vivência humana, são como a noite eterna de onde vimos e para onde nos aviamos, da qual não temos qualquer conceito e muitos menos qualquer emoção.
Perante tão polémica e definitiva declaração (são muitas, de facto, as pessoas que dizem amar a Deus), eu prefiro afirmar o seu contrário, que não é possível odiar a Deus. Quem não acredita que existe está, à partida, impedido de o odiar, uma vez que se não odeia o que não tem qualquer espécie de existência. Quem acredita que exista também o não pode fazer, uma vez que é inteiramente impensável odiar o amor absoluto, o belo indefetível, a verdade esplendorosa e o bem sem concessões. Quem diz odiá-lo é porque fez dele uma pobre e deformada imagem. Na verdade, não é a ele que odeia, mas à sua caricatura. Por definição, diria eu, Deus é inodiável.
Será o ser humano realmente incapaz de amar a Deus, dada a sua natureza? A história do sentimento religioso e das suas manifestações revela o contrário, embora seja sempre possível defender que, a despeito de todo o misticismo religioso, o suposto amor a Deus é mais um conceito imaginário do que uma realidade concreta. Sem dúvida que a ideia de Deus (ou melhor, a ideia do sagrado, quaisquer que sejam os seus contornos) move as vontades humanas, desde que a humanidade se autoconcebe como racionalmente superior. E se move as vontades, não pode incitar também o mundo primário das emoções e dos sentimentos? Na verdade, ao contrário do que afirma o autor a que acima aludi, nós também amamos ideias, conceitos ou valores, por mais abstratos que sejam. Claro, tudo depende daquilo que consideramos ser o amor.
Por outro lado, ainda que Deus seja por natureza indefinível e inimaginável, a ideia da sua presença absoluta e benigna move vontades e emociona consciências. Deus é o futuro absoluto por que todos ansiamos e simultaneamente o princípio sem princípio onde tudo quanto existe está ancorado. Não será a ideia de um tal ser suficiente para merecer do ser humano o mais denodado amor?

segunda-feira, 30 de abril de 2018

Hans Küng e a reforma da Igreja Católica



Há pessoas que marcam a nossa existência sem nunca as termos conhecido pessoalmente. Por qualquer motivo, foram para nós o rosto de um mundo em que acreditámos, um mundo ausente, mas possível. Também eu tenho os meus heróis, que “desfloraram florestas virgens” (José Régio, Cântico negro), acrescentando ao incessante processo temporal uma esperança que não teria se não houvessem existido. E tenho-os nos vários âmbitos da vida. A minha insaciável fome de conhecimento tem-me conduzido a procurar, um pouco por todo o lado, mesmo nos mais inesperados recantos da cultura, respostas às minhas inquietações. Também na teologia, uma das fontes de conhecimento por que nunca deixei de me interessar, tenho as minhas predileções. E acima de todas elas, há um nome que foi para mim o marco miliar da minha formação. Assim que me iniciei no estudo da teologia e pude contactar com este gigante do pensamento, apaixonei-me de imediato pela profundidade dos seus estudos, pelo seu estilo (tanto na escrita como na vida), pela sua atitude, numa espécie de amor à primeira vista que perdura até aos dias de hoje, depois de ter lido muitos outros autores. Há nele uma audácia que admiro, uma incessante vontade de procurar a verdade, sem as baias que as estrutura e os preconceitos tendem a impor, e uma autenticidade natural que me encantaram. Nos seus escritos encontrei resposta à questão premente sobre como é possível ser-se cristão no mundo contemporâneo, aparentemente hostil ao pensamento religioso, e aberto às possibilidades que as mudanças epocais vão trazendo. Esse homem chama-se Hans Küng.

Nasceu na Suíça de língua alemã, em 1928, estudou teologia em Roma e em Paris, doutorando-se com uma tese sobre a “Justificação”, um dos temas centrais nos ínvios caminhos da relação tumultuosa, já cinco vezes centenária, entre o mundo protestante e a mundividência católica. A sua irreverência valeu-lhe o epíteto de enfant terrible, para além de muitos dissabores. Quase todo o seu percurso profissional se desenvolveu em Tubinga, na Alemanha, onde foi professor de teologia católica e, posteriormente, depois de lhe ter sido revogada a licença para ensinar teologia católica, professor de teologia ecuménica na mesma universidade, até à sua reforma por limite de idade.
Um dos aspetos que mais admiro neste homem desabrido é o facto de nunca se haver dobrado às injunções do poder eclesial, ainda que tenha sido submetido a processos judiciais internos que lhe valeram a expulsão do mundo académico enquanto teólogo católico. É a sua determinação, bem como um indefetível amor pela verdade, que me atraem neste homem ousado. Contra ventos e marés, segue o seu percurso, convicto de que a investigação académica — e a consequente busca da verdade que lhe está associada — não pode jamais estar submetida a critérios de poder ou a dogmatismos absurdos que distraem o investigador do seu principal objetivo e impedem a sua consecução.
A sua vasta produção teológica e filosófica conduz-nos pelo maravilhoso mundo não só da teologia sistemática (cristologia, tratado sobre Deus, eclesiologia, soteriologia, etc.) como da teologia ecuménica, da história e teologia das religiões, da teologia moral e da ética filosófica. Um homem de um saber realmente enciclopédico tem dado contributos significativos para a afirmação do saber teológico num mundo secularizado e para o diálogo intra e inter-religioso, bem como para o diálogo entre as religiões e o mundo contemporâneo.
Para além de todas as polémicas que os seus escritos têm levantado, foi a discussão destemida do dogma da infalibilidade papal, definido pelo Concílio Vaticano I (1869-1870) sob forte pressão do ultraconservador Pio IX, que lhe valeu a revogação, num processo movido pela Congregação para a Doutrina da Fé, da missio canonica.
Os seus sucessivos alertas sobre a situação problemática por que tem passado a Igreja Católica no contexto do mundo moderno e sobre a necessidade urgente de reformas têm caído, em larga medida, em saco roto. Em vez de encarar a crise profunda e examinar as razões reais de tal crise, sem preconceitos nem cedências, a instituição tem vindo a encerrar-se nos seus discursos herméticos, em práticas tradicionais cujo sentido dificilmente pode ser descortinado pelo homem contemporâneo e numa forma organizativa medieval com escassa participação dos leigos e, sobretudo, das mulheres.
Mas os factos recentes sobre os múltiplos casos de pedofilia na Igreja, de encobrimento por parte de bispos e papas e paralelamente os escândalos financeiros do Vaticano atiraram gasolina sobre a fogueira. E é com pena (não por causa da instituição enquanto tal, mas por causa do Evangelho que ela anuncia) que observamos a debandada geral dos fiéis por não reconhecerem na Igreja uma instituição realmente credível.

E foi para responder a esta crise sem precedentes que Hans Küng escreveu mais um dos seus incisivos ensaios, publicado em 2011, com o título sugestivo “A Igreja ainda tem salvação?”, que eu li em tradução italiana (“Salviamo la Chiesa”).
O Autor começa por fazer o diagnóstico da doença de que padece a Igreja. Num implacável relatório “clínico”, aponta, denodadamente, todas as suas maleitas. Mas não se fica por aí. Longe de se manter no cómodo patamar da crítica, apresenta soluções e propostas que, a seu ver, poderiam resultar na convalescença do paciente. É curioso observar que algumas destas propostas se encontram, neste preciso momento, em fase de implementação! Desta vez, após a eleição de Francisco, a Igreja parece não ter feito ouvidos de mercador ao texto de Küng e, sobretudo, às necessidades reais e urgentes da própria instituição.
Talvez um dos pontos mais centrais da sua teologia seja aquilo que o Autor chama o critério da verdade. A exigência de uma reforma parece ser evidente, mas que reforma? Com base em que critério poderá a Igreja encetar o seu percurso de mutação de paradigma? Para alguns, parece ser o espírito de tempo a ditar o caminho de mudança. As instituições, por questões de sobrevivência, precisam de se acomodar ao tempo atual, sob pena de esgotarem os seus recursos de sentido e extinguirem-se. No entanto, para a Igreja não deve nem pode ser esse o critério último, pois a Igreja existe por causa de Cristo e em função do Evangelho que ele anunciou e viveu. Portanto, só pode ser este o critério de verdade, tanto na teologia como na vida concreta da comunidade cristã, como ainda na vida quotidiana de cada cristão. Mas não se trata do Cristo vestido com roupagens imperiais que se foi paulatinamente substituindo ao Jesus real, que viveu e morreu há dois mil anos nas faldas do império romano e, misteriosamente, acabou por conquistar o mundo. É o Cristo histórico, real, ainda não alienado pela instituição em função de objetivos obscuros.
E é, pois, com base neste critério que o Autor descreve as graves enfermidades de que padece a Igreja.

A primeira (e talvez aquela que maiores estragos causou na história do cristianismo) é a centralização do poder nas estruturas romanas e, sobretudo, no monarca absoluto que, a partir da Idade Média, vai reivindicando o poder autocrático e indiscutível, o papa. Tal visão unilateral do exercício do poder terá sido a principal causa da separação entre as Igrejas latina e ortodoxa, concluído no século XI, tendo tido, mais tarde, um papel preponderante na reforma protestante (século XVI). Sem sombra de dúvida, o absolutismo monárquico católico foi o maior responsável pelos principais cismas que laceraram o tecido do cristianismo.
Tal centralização veio a culminar com dois dogmas, sendo provavelmente um deles o mais absurdo de todos os que até agora a Igreja definiu. Refiro-me aos dogmas do poder absoluto e da infalibilidade do papa, estabelecidos pelo Concílio Vaticano I, num contexto histórico de hostilidade global face ao poder temporal da Igreja.
Uma segunda infeção, que corre a par com a anterior, é o excessivo juridismo (legalismo) de que padece a instituição. Aliás, o direito canónico tem sido, desde os seus alvores até à atualidade, uma arma poderosa nas mãos do poder centralizado para a permanente afirmação do sistema romano e da autocracia eclesial. Este excessivo juridismo tem consequências que vão muito para além desta questão específica. Constitui, de facto, um retorno à mentalidade farisaica contra a qual vemos Jesus em ação nos evangelhos. E ao moldar as estruturas da Igreja, afastou-a liminarmente da mensagem originária do Evangelho de Cristo e da sua rebeldia face a uma Lei (que se cria divina) promotora de desumanidade e morte. E é ainda com base nesta mentalidade antievangélica que se proíbe o divórcio em todas as circunstâncias ou a participação plena dos recasados na eucaristia, para dar apenas dois exemplos.
Das duas anteriores é herdeira a terceira moléstia: o dogmatismo e o seu braço policiário. Crendo-se cada vez mais investida na verdade e a única instituição à altura de compreender o pensamento de Deus, a Igreja arroga-se o direito de estabelecer a sua doutrina e a sua prática através de um fechado sistema dogmático que não admite grandes oscilações nem mudanças. O dogma, uma vez proclamada, identifica-se com a verdade absoluta de Deus. É, por isso, inamovível e inalterável. Está, assim, vedado ao pensamento teológico a submissão de tais afirmações ao juízo crítico que toda a procura honesta e humilde da verdade deve realizar. Daí resulta que todos os que se atreverem a exercer o seu direito a discordar e a pensar criticamente serão julgados pelo tribunal eclesiástico — a inquisição de má memória, que foi (e continua a ser, embora noutros moldes e com outro nome) pensada como braço policial e judiciário de controlo do pensamento e da ação dos crentes.
A centralização autocrática do poder e o desenvolvimento de textos jurídicos com a pretensão de tudo controlar e tudo prever (a casuística teve uma influência deletéria também sobre a moral) incrementaram algumas dicotomias que estavam perfeitamente ausentes nas comunidades cristãs primitivas: a oposição entre poder e serviço, entre clero e leigos, entre homens e mulheres. De facto, as funções na Igreja foram sendo pouco a pouco interpretadas como exercício de poder, à maneira do imperador ou dos legados imperiais, em vez de serem expressarem, tanto na teoria como na prática, o exercício de um carisma e de um serviço para o bem comum. Foi também a partir da Idade Média que se concluiu o processo de exclusão dos leigos da tomada de decisões na Igreja e a identificação desta com a hierarquia (ou seja, um “poder sagrado”). E é a esta conceção antievangélica que costuma chamar-se clericalismo, à qual se associa também o morbo do carreirismo que subverte a verdade, a autenticidade e a liberdade nas relações humanas.
A exclusão das mulheres dos lugares de decisão iniciou bem cedo. Se no princípio (os textos paulinos são disso testemunho) as comunidades cristãs tinham mulheres que assumiam papéis preponderantes na organização da vida comunitária (seriam qualquer coisa como os “párocos” de hoje), a sua exclusão por mero preconceito de género foi um dos mais gritantes sinais de que o cristianismo se estava a afastar da liberdade originária que Jesus imprimiu ao grupo dos seus seguidores.
Decerto que a exclusão da mulher não é alheia a uma visão claramente negativa da sexualidade, enquanto transmissora do pecado original, do prazer sexual, da “impureza” que o líquido seminal e a menstruação trariam. E será essa visão antropológica errónea (muito sob a influência de Santo Agostinho) que provocará o afastamento da mulher (cada vez mais identificada com o pecado sexual) e a imposição do celibato obrigatório aos padres e bispos (durante o primeiro milénio, padres e bispos podiam casar). A partir desta estreita perspetiva, tudo quanto se pudesse associar à sexualidade era visto com suspeição e a moral sexual será rigidamente moldada por esta ideia de “pureza” assexual que nunca caracterizou o ser humano. Não admira que a masturbação seja considerada pecado grave, tal como a homossexualidade, a relação sexual pré-matrimonial e por aí fora, num rosário de proibições que não tem fim.
E continuaram a ser estas perspetivas tenebrosas a ditarem outras interdições a que, infelizmente, o século XX ainda tinha de assistir: a proibição do uso de métodos anticoncecionais artificiais, a exclusão do recurso a métodos de fecundação medicamente assistida, a interdição absoluta do aborto…
Mas a patologia da Igreja não se fica por aqui. O alinhamento das estruturas eclesiais com um poder político e económico retrógrado (o antigo regime versus sistema liberal, a monarquia versus república, as ditaduras de direita versus sistemas democráticos), bem como com as formas de dominação e exploração dos pobres transformaram a Igreja numa instituição cada vez mais identificada com o passado, incapaz de compreender o mundo moderno.
Aliás, é sintomático o conjunto de tomadas de posição da Igreja ao longo dos séculos XVII-XIX no sentido de hostilizar a ciência incipiente e condenar tudo quanto fosse fruto do espírito moderno, oriundo do iluminismo, como por exemplo a afirmação de que os seres humanos são constitutivamente portadores de direitos, como o direito à liberdade de expressão e de religião. Tudo isto é liminarmente condenado pela cegueira retrógrada da instituição eclesial.
Assim sendo, Hans Küng propõe a reforma do sistema eclesial tal como ele se apresenta hoje, dada a sua ineficácia, a sua responsabilidade pelos maiores cismas do cristianismo e o seu escandaloso afastamento em relação ao Evangelho de Cristo. Provavelmente, a reforma terá de ser gradual. Mas a sua urgência obriga a Igreja a enveredar por caminho ainda não trilhados, sob pena de se transformar num gueto insignificante e, mais importante ainda, não ser para o mundo essa luz que Cristo foi, é e desejamos que continue a ser, a despeito da Igreja.
Eis as propostas mais relevantes:
1. A substituição do sistema monárquico de poder por uma forma de organização eclesial mais democrática (que é também mais próxima das comunidades cristãs das origens). As bases devem ser auscultadas tanto na eleição dos seus dirigentes como nas decisões que a todos dizem respeito. Os leigos devem passar a ter um papel muito mais determinante nas decisões fundamentais e na eleição para os cargos que exigem uma ordenação. E não por mera concessão da autoridade, mas pela dignidade específica do leigo e pelos direitos que lhe devem ser reconhecidos. Sobretudo os bispos devem ser eleitos pelas bases e não nomeados por Roma, num controlo absoluto sobre cada uma das igrejas particulares.
2. O bispo de Roma (papa), uma vez que assume também um papel global, deve ser eleito de forma mais democrática e universal, por representantes de todas as igrejas (incluindo leigos).
3. O papa deve renunciar à pretensão do poder jurídico absoluto (e de uma suposta infalibilidade), por forma a que todas as grandes decisões sejam tomadas sinodalmente e não a partir de cima. No exercício da sua função deve ouvir as bases e atender às suas inquietações.
4. A cúria romana e o governo central da Igreja devem ser sujeitos a uma reforma profunda, de modo a serem estruturas de apoio à Igreja universal e não meras formas do exercício do poder centralizado.
5. O direito canónico deve ser simplificado e reformado segundo moldes mais consentâneos com o Evangelho.
6. O celibato obrigatório para os candidatos às ordens deve ser pura e simplesmente abolido, permitindo aos ordenados que fundem as suas comunidades familiares, à semelhança do que aconteceu durante o primeiro milénio do cristianismo.
7. As mulheres devem poder aceder a todos os níveis de organização eclesial (diaconato, presbiterado, episcopado, cardinalato, papado). Não há qualquer motivo razoável para as manter arredadas dos cargos de maior responsabilidade. Só por mero preconceito são ainda excluídas dessas funções.
8. Todos os títulos a que não corresponde nenhuma função devem ser liminarmente suprimidos. Na Igreja não pode nem deve haver títulos honoríficos.
9. Regresso a uma vida simples por parte dos dirigentes da Igreja, sem pompas, ostentações de riqueza e outros aparatos que desvirtuem os valores que a Igreja é chamada a proclamar (e a viver).
10. Liberdade de expressão para todos, sobretudo para os teólogos. A afirmação do valor da liberdade deve levar à abolição da inquisição e de toda a forma de repressão interna.
11. Entendimento ecuménico com as outras Igrejas não católicas (ortodoxos e protestantes). Tal entendimento deve conduzir a resultados muito práticos: a comunhão na eucaristia e o acesso de todos a todas as celebrações e sacramentos de qualquer das denominações cristãs, etc. É urgente dar por findo o tempo dos anátemas e das excomunhões. Só por motivos realmente muito graves deveria ser possível expulsar alguém da comunidade cristã ou não permitir que participe nas suas celebrações (imaginemos o caso de alguém que tenha um discurso reiterado de ódio, apelando a ideias xenófobas e racistas).
12. A Igreja deve também modificar a sua moral sexual e familiar. Não se entende como é possível sustentar a condenação da homossexualidade ou formas alternativas de organização familiar que não são, em si mesmas, nenhum atropelo aos direitos humanos e à dignidade dos outros. Nem se entende por que razão devem permanecer válidas a proibição do uso de métodos anticoncecionais ou a condenação absoluta do aborto, como se a mera junção de um espermatozoide e de um óvulo fosse suficiente para fazer surgir uma pessoa humana, etc. É ainda incompreensível manter uma posição rígida face ao divórcio, por força daquela mentalidade jurídica que tanto mal tem feito à Igreja.

O Autor termina desejando que o novo paradigma de Igreja inclua quatro linhas de força: 1) uma Igreja que tenha como ponto de referência para a sua ação as origens cristãs e queira corresponder às instâncias da sociedade contemporânea; 2) uma Igreja que promova a participação de todos, sem excluir ninguém (leigos, mulheres, homossexuais, recasados…); 3) uma Igreja aberta às várias denominações cristãs, sem exclusivismos confessionais; 4) uma Igreja universal, que não seja eurocêntrica, nem defenda o cristianismo em oposição às outras religiões.

Por último, numa nota pessoal, gostaria de exprimir a impressão com que fico sempre que leio os ensaios deste teólogo. Pela ousadia do seu discurso e pela forma crítica como o faz, não o vejo apenas como teólogo, mas decerto também como profeta, na esteira dos grandes profetas que, contra sua própria vontade, tinham de proclamar desgraças iminentes, ao arrepio daquilo que muitos gostariam de ouvir, atraindo sobre si a irritação das classes dirigentes.
Ao terminar a leitura deste excelente ensaio, pensei como seria bom para a Igreja e para o mundo se a instituição lhe desse realmente ouvidos e pusesse em marcha o regime de reformas que este homem propõe! De ceto modo, é o que está a acontecer. E ainda bem, uma vez que o mundo contemporâneo precisa mais do que nunca da “boa notícia” (evangelho) de Cristo e é à Igreja que incumbe a tarefa de o tornar operativo no tempo e no espaço. Mas quando o transmissor falha na sua missão de transmitir, que será do conteúdo da mensagem?

sábado, 3 de março de 2018

Divorciados, recasados e comunhão eucarística



O afastamento dos recasados da comunhão eucarística tem tido novos desenvolvimentos, desde a eleição do papa Francisco. Até então, tudo parecia resolvido com a clareza cristalina com que o n.º 84 da Familiaris Consortio aborda a questão. A doutrina oficial havia pura e simplesmente negado aos recasados a possibilidade de comungarem. Sob a batuta de João Paulo II, tudo caminhava sob a égide da lei. Dura lex, sed lex. E não valia a pena argumentar com o Evangelho. Infelizmente, este fora despudoradamente absorvido pelo espírito farisaico-legalista. Os mais simples episódios evangélicos eram interpretados no contexto desta contundente camisa-de-forças. A originalidade de Jesus e a sua revolta contra o espírito legalista e desumano do farisaísmo fora inteiramente domesticado!
Do ponto de vista histórico, o cristianismo foi perdendo a sua força revolucionária antifarisaica original quando se deslocou do contexto da cultura hebraica e, posteriormente, do contexto cultural grego, para a cultura latina, na qual o génio da lei constituía o ponto fulcral da vida coletiva. O processo demorou séculos a estabilizar, mas foi progredindo ao longo da Idade Média até à submissão absoluta da liberdade evangélica ao espírito legal consubstanciado no código de direito canónico. Tal como  império se regia por códigos legais coativos, também a Igreja passou a reger-se pelos mesmos princípios jurídicos, agora ao serviço da centralização do poder e da clericalização da vida religiosa.

Não era assim, no início! Se lermos os evangelhos sem os óculos desta estreita visão, podemos facilmente verificar que Jesus age reivindicando inteira liberdade face à lei. Vemo-lo a realizar ao sábado o que os preceitos proibiam, a misturar-se com gente pecadora e marginal, a deixar-se macular pelo seu contacto assíduo e a estabelecer com eles uma relação de comunhão efetiva, manifesta sobretudo no ato de partilhar com eles as mesmas refeições.
No que se refere à liberdade de Jesus face à lei, é eloquente o episódio da mulher adúltera (Jo 8). A lei mosaica (Lv 20, 10; Dt 22, 22-24) exigia a condenação à morte dos adúlteros. Em vez disso, trazem a Jesus apenas a mulher, permitindo que o homem escape ao castigo. Jesus toma mais uma vez a defesa das periferias, para usar uma palavra cara ao papa Francisco. A mulher aviltada e subjugada era o objeto da ira masculina ferida no seu orgulho. A sua visão é essencialmente humanista e libertária. A lei, tal como os códigos veterotestamentários a haviam transmitido, era em larga medida desumana. Por isso, Jesus atende ao sofrimento daquela mulher, em vez de exigir a aplicação inflexível dos preceitos legais. Mas fá-lo exigindo dos seus juízes o reconhecimento tácito de que também eles são pecadores e, portanto, incompetentes para julgar os pecados alheios[1].
A frase lapidar de Jesus segundo a qual “O sábado foi feito para o ser humano; e não o ser humano para o sábado” (Mc 2,27) transmite exatamente a conceção do profeta galileu acerca do critério ético fundamental. Não é a lei a suprema regra do comportamento ético, é o bem do ser humano. Por isso, não o bem do ser humano deve determinar a letra da lei e não o contrário. E se a lei exige condutas que aviltam o ser humano na sua condição concreta, há que modificar a lei ou desatender à sua aplicação, porque o critério ético último é o bem do ser humano e não a letra da lei na sua fria e eventual desumanidade.
Paulo dará continuidade a esta conceção do cristianismo nascente. A sua polémica com os defensores da lei, o cristianismo farisaico[2], torna claro o desenvolvimento do seu pensamento. E a sua doutrina da salvação pela fé e não pelas obras da lei vem corroborar este ponto de vista. Quando refere que a “letra mata, mas o espírito dá vida” (2Cor 3,6) põe em evidência que a aliança em Cristo não está escrita em tábuas de pedra, como a antiga aliança, mas no coração do ser humano. Não é a letra da lei que dá vida às pessoas, é o espírito de Deus que as vivifica.
Contudo, esta conceção revolucionária do Evangelho foi sendo primeiro mitigada e depois eliminada face à elevação da lei a critério definitivo. Os tempos medievais irão irremediavelmente adotar tal ponto de vista. E não é por acaso que o reforço da lei escrita é contemporâneo do reforço do poder hierárquico. Uma e outra realidade vão de mãos dadas. Clericalismo e legalismo são duas faces da mesma moeda.

No que se refere ao casamento e ao adultério[3], é quase chocante a radicalidade de Jesus. Deus quer que o casamento seja para toda a vida, disso não restam dúvidas. Porém, há que analisar os textos no contexto vital em que surgem de modo a perceber o seu alcance. De facto, a afirmação de Jesus sobre a perenidade do casamento decorre de uma pergunta que os fariseus lhe colocam.  E é clara a intenção do pedido de esclarecimento: os interlocutores de Jesus pretendem que este sufrague o seu poder discricionário, enquanto homens, de repudiar as suas mulheres pelas razões que bem entenderem. E é à luz desta discriminação humilhante e inaceitável que deve ser lida a posição de Jesus. Ao exercerem discricionariamente o direito ao repúdio, os homens expunham as mulheres a situações verdadeiramente degradantes e indignas. A posição de Jesus visa, pois, defender o direito da mulher à segurança de um lar, face à prepotência dos homens. Não se trata da afirmação pura e simples da indissolubilidade do matrimónio enquanto lei absoluta, mas da defesa das mulheres humilhadas e expostas à miséria e ao abandono.
No entanto, a radicalidade de Jesus foi sendo interpretada, em contexto eclesial posterior, à luz da mentalidade jurídica. É esse o motivo pelo qual a comunidade de Mateus se vê na obrigação de abrir uma exceção, permitindo que os homens repudiem as mulheres em caso de “prostituição”[4]. E Paulo, confrontado com a situação dos casamentos mistos, permite ao cristão sentir-se livre de reconstituir a sua vida afetiva, caso o cônjuge não cristão se queira dele separar (o chamado privilégio paulino: 1Cor 7, 15-16). Ou seja, a radicalidade de Jesus não atende, de modo algum, à pluralidade de situações que a realidade cria. O seu sentido só será inteiramente colhido se for interpretada como defesa da dignidade da mulher perante a prepotência do homem, revestindo assim uma orientação global sobre a relação matrimonial e o respeito que os maridos devem ter pela dignidade das suas companheiras.

Nos séculos que se seguiram, a Igreja latina veio afirmar a indissolubilidade do matrimónio como preceito absoluta, sem exceções, transformando, portanto, o Evangelho em lei. Estamos longe da perceção originária segundo a qual o ser humano não foi feito para servir a letra da lei. Bem pelo contrário, é a letra da lei que deve estar ao serviço do ser humano.
Esta perspetiva estritamente jurídica da relação matrimonial não dá conta, efetivamente, da falência possível das relações humanas. Os seres humanos não são anjos. Não vivem desencarnados da realidade concreta e das circunstâncias adversas que a vida lhes serve. A realidade está sempre para lá da letra da lei. É por isso que os sistemas jurídicos estão permanentemente a introduzir modificações nos textos legais. O discurso jurídico é corroído pelo passar do tempo; o que antes era pertinente, agora é obsoleto, face aos desenvolvimentos que o tempo traz, tornando as normas efetivamente desconformes com a vida. Ao afirmar a irrevogabilidade da lei da indissolubilidade matrimonial, a Igreja esquece, por um lado, que o Evangelho não é lei e, por outro, que a letra da lei tem de se adaptar às novas circunstâncias que a vida impõe. E não vale a pena demonizar o mundo, opondo-o a uma visão celestial (ideal) da doutrina da Igreja, para manter inalteradas posições legais irreconciliáveis com a vida. Mais cedo ou mais tarde, a vida há de triunfar e as instituições terão de reconhecer que impuseram autoritariamente visões anacrónicas da realidade.
Em suma, as relações humanas estão sujeitas à falência. Este é um dado de facto que não vale a pena escamotear. Face a esta evidência, a Igreja impõe uma vida de celibato e solidão a todos os divorciados. Para a doutrina oficial é inaceitável a reconfiguração da vida afetiva, numa nova relação. Será humana atendível tal perspetiva? Qualquer consciência minimamente sensível ao bem dos outros reconhecerá que uma imposição tão gravosa para a vida pessoal não tem pertinência humana, nem é consentânea com a dignidade do ser humano. Tem a Igreja o direito de condenar milhares de pessoas a vidas de solidão e infelicidade? Quererá efetivamente Deus que as pessoas sucumbam à depressão por respeito à letra de uma lei? Será esta a imagem de Deus que Jesus tanto se esforçou por anunciar? Não me parece! Um Deus misericordioso, que quer o bem das pessoas e a sua felicidade, não se coaduna com um Deus que decreta uma vida tão austera e solitária a todos aqueles cuja relação matrimonial faliu.
Todavia, uma vez que a vida é mais complexa do que as leis que possamos engendrar, sob a pressão de pessoas socialmente bem colocadas, a Igreja teve de atender a situações em que o fracasso era evidente, sem, no entanto, perder a face. Criou, assim, uma forma ardilosa e subtil de resolver alguns destes problemas (sobretudo para responder aos poderosos que pretendiam refazer as suas relações matrimoniais, após o malogro das anteriores). E foi assim que se excogitou a declaração de nulidade do matrimónio. Negando-se a aceitar a legitimidade do divórcio, tinha de atender a situações em que a relação se fragmentara. Só a declaração de que tal matrimónio nunca tinha existido validamente poderia ser resposta adequada perante o espartilho que a lei impunha. Mais uma astuciosa maneira jurídica de enfrentar um problema ao qual a rigidez da lei em vigor não dava resposta! Mas como tal procedimento era dispendioso, tratava-se de uma escapatória jurídica a que só os ricos e poderosos tinham acesso. A arraia-miúda estava condenada ao celibato ou ao concubinato ominoso que uma sociedade globalmente “cristã” hipocritamente rejeitava, com todas as consequências sociais para os envolvidos.

O papa Francisco quis pôr termo a este estado de coisas. Não sem a oposição latente ou declarada dos que ocupam o poder. Sobretudo da cúria romana, tão apegada aos seus privilégios e à forma de emitir juízos condenatórios sem atender às zonas cinzentas que constituem a maior parte das situações vitais.
Foi assim que a exortação apostólica pós-sinodal Amoris Laetitia, veio introduzir critérios mais humanos na análise das situações concretas em que cada pessoa e cada casal se encontram. Longe de separar simplesmente os justos dos injustos, os santos dos pecadores, propõe um discernimento a partir de critérios éticos que atendem não apenas à regra geral, mas também às circunstâncias concretas em que cada pessoa se encontra. Se a regra geral é que o matrimónio é indissolúvel, há circunstâncias que diminuem a responsabilidade individual pela falência da relação e tornam compreensível que alguém refaça a sua vida afetiva com outra pessoa.
No passado, o juízo da Igreja era sustentado essencialmente pela aplicação da regra geral, sem atender às situações concretas e aos condicionamentos que limitam a responsabilidade e a liberdade individuais. Agora, a Igreja tende a matizar o seu julgamento, abrindo uma pequena brecha na rigidez do discurso moral. Em sintonia com esta nova maneira de pensar, a Igreja reconhece que “já não é possível dizer que todos os que estão numa situação chamada «irregular» vivem em estado de pecado mortal, privados da graça santificante” (301).
Daqui deriva que o trabalho pastoral deve orientar-se para a integração destas pessoas na comunidade podendo, em certos casos, acederem aos sacramentos (reconciliação e eucaristia) (305)[5].

Entretanto, as conferências episcopais e os bispos das várias dioceses foram emitindo orientações pastorais para integrar a mais recente perspetiva, sobretudo na parte em que se admite o acesso dos divorciados e recasados aos sacramentos.
Ultimamente, o patriarca de Lisboa emitiu um desses documentos. Reafirma a necessidade de acompanhar estas situações “irregulares”, de atender às especificidades de cada situação, de verificar se o casamento originário foi válido e, caso tenha sido, de propor “a vida em continência na nova situação” e de “atender à possibilidade sacramental”.
Ao propor, em consonância com o que aparece em outros documentos da Igreja[6], uma relação afetiva entre pessoas recasadas desprovida de manifestações sexuais, o patriarca deixa entrever aquilo que realmente importa para a Igreja hierárquica. Apesar de todo o discurso sobre a importância da partilha de vida e da comunhão entre os esposos, o que é realmente determinante na altura de julgar sobre a possibilidade de acesso aos sacramentos é o facto de haver ou não contacto íntimo de natureza sexual. Ora se o anterior vínculo matrimonial permanece válido, a irregularidade da nova situação reside no facto de as pessoas partilharem a vida e o afeto ou no facto de terem relações sexuais? Ao propor, como condição para aceder aos sacramentos (pelo menos assim parece), que os recasados se abstenham de ter relações sexuais, centra o discurso na vida sexual e não propriamente na partilha da vida.
Seja como for, é eticamente justificável e humanamente viável que se queira impor uma relação sem qualquer manifestação sexual, quando o que está em jogo é exatamente a partilha da vida e a comunhão afetiva?

Regressemos, pois, ao espírito originário do evangelho. É certo que a relação afetiva entre duas pessoas é tendencialmente para a vida toda, mas não deixa de ser verdade que a complexidade perturbadora da existência humana não se coaduna com a intransigência de uma lei absoluta.  As relações, como tudo o que é humano, podem fracassar. Mas nenhum malogro condena a pessoa para sempre. A vida é feita de recomeços. O fim de um ciclo tem de significar o início de um novo ciclo, igualmente promissor, lançando sobre o futuro uma nova luz. Porém, para que essa reconstrução da vida, que todos somos chamados a fazer após cada ruína, permeie de sentido a existência pessoal, não parece possível advogar proibições que condenem as pessoas ao isolamento, à solidão e ao vazio afetivo. Em muitos casos, uma nova relação traz à vida pessoal aquele sentido que se perdeu e é preciso reencontrar. Foi para sermos felizes que Deus nos pôs no mundo, não para definharmos na tristeza do abandono. É por isso que não me parece consentâneo com o Deus de Jesus Cristo impor uma vida celibatária a quem sente a interior necessidade e da partilha afetiva da própria existência. Para muitos, só nessa experiência do encontro lhes serão restituídos o sentido e o gosto pela vida.
Será pedir muito que a Igreja acolha incondicionalmente estas pessoas, desistindo de os considerar pecadores relapsos sem direito a participar plenamente na eucaristia? Esses que impõem tais fardos serão menos pecadores do que aqueles a quem são impostos? Todos os que se sentam na cadeira de Moisés deverão meditar seriamente se não têm depositado nos ombros dos outros cargas insuportáveis que eles não movem nem sequer com um dedo. A fé cristã não serve para corroer a vontade de viver com que todo o ser humano nasce. Serve, pelo contrário, para aumentar a alegria de viver e iluminar os caminhos tortuosos da vida com a lâmpada da consolação. Não serve para esmagar o ser humano, mas para o elevar.


[1] Meu Deus, como isto é verdade também nos juízos que a Igreja emite a respeito do “pecado objetivo” de pessoas concretas e da impossibilidade de se aproximarem da comunhão eucarística!
[2] Mais do que cristianismo judaizante, que é a fórmula habitualmente usada, prefiro usar a expressão cristianismo farisaico que é mais consentânea com a realidade.
[3] Mt 5, 31-32 e sobretudo 19, 3-12 e paralelos, onde o contexto situacional é eloquente.
[4] É com base nesta exceção que a Igreja Ortodoxa e as Igrejas Protestantes aceitam o divórcio.
[5] Fio esta afirmação que levantou uma polémica despropositada e a oposição evidente da ala mais conservadora.
[6] Veja-se, por exemplo, o que diz a Familiaris Consortio de João Paulo II, no n.º 84. Apesar de reconhecer que nem todas as pessoas divorciadas têm objetivamente responsabilidade na rutura, proíbe liminarmente a comunhão eucarística aos que contraíram uma nova união afetiva, independentemente do grau de responsabilidade na rutura do matrimónio.
Não as considera, de modo algum, excomungadas. Exorta-as mesmo a participarem na vida da comunidade. Mas só até certo ponto, uma vez que as afasta da participação plena nos sacramentos da reconciliação e da eucaristia.
Esta posição rigidamente legal pode ser comparada a alguém que, num determinado domingo festivo, convida um amigo para sua casa. Porém, quando chega a hora da refeição, enquanto a família do anfitrião partilha não só a alegria do encontro, mas também as iguarias que estão sobre a mesa, ao convidado não é dado consentimento para tocar nos alimentos que os restantes tomam alegremente. Como se sentiria tal conviva? Será que sentiria a família do anfitrião como lugar de acolhimento, como comunidade da qual não está separado? E a atitude do anfitrião é de real e honesto acolhimento?
Quando Jesus se sentava à volta da mesma mesa com publicanos e pecadores, não pedia primeiro o atestado da sua vida moral, para verificar se a vida deles estava ou não em consonância com as regras éticas que permitiam sentarem-se à mesa de Cristo! Bem pelo contrário, o acolhimento incondicional de Jesus era, em muitos casos (decerto não em todos), fator de conversão. A Igreja age em sentido contrário: exige o atestado de santidade, excluindo aqueles que o não podem exibir. E ao agir assim, é causa de revolta e de abandono da comunidade cristã. Terá esse direito?

quarta-feira, 28 de fevereiro de 2018

Armem-se os professores!



O atual presidente dos EUA é uma autêntica anedota. Ainda agora me pergunto, incrédulo, como foi possível que semelhante espécime vencesse aquelas fatídicas eleições. Há erros que se pagam caros e este é, sem dúvida, um deles. E o pior é que não são só os americanos a sofrer os efeitos nefastos deste erro de casting medonho. É o mundo inteiro, dada a posição geopolítica do país a que preside.
Sempre que há mais um massacre numa escola ou noutro local público, aí o vemos nos meios de comunicação a desviar as atenções das causas reais destes fenómenos hediondos. Todos sabem que o livre comércio de armas é a grande razão de tão bárbaros eventos. Nos EUA, qualquer gato-pingado pode adquirir legalmente uma arma, quaisquer que sejam as suas intenções. Todos conhecem também os interesses económicos que estão por detrás desta negociata de má memória. Os grandes magnatas deste vil comércio engordam à custa das mortes violentas que indiretamente favorecem. E como não há outro objetivo no capitalismo que não seja a acumulação de riqueza, nenhuma sensatez lhes sacode a consciência. Coniventes com estes poderosos homens de negócios, os políticos consideram intocável este mercadejar da morte. Na verdade, recebem chorudas somas para subsidiar as suas candidaturas e são esses montantes astronómicos que permitem a sua ascensão política. Prostituem as suas convicções (se é que as têm) como quem vende o corpo por um punhado de dólares.
Trump não foge, pois, a este paradigma que, infelizmente, afeta também o Partido Democrático. Logo que ocorre mais uma chacina, vemo-lo a atribuir apressadamente as culpas à demência mental dos executores de tais desmandos, não vá alguém julgar que o comércio livre de armas perigosas tenha alguma responsabilidade na ocorrência. Ao circunscrever o universo de homicidas a um punhado de dementes, pode continuar a advogar a venda ilimitada de armas aos cidadãos dos EUA. É até obrigatório que esse comércio perdure, pois só assim os inocentes poderão exercer o seu direito à legítima defesa face à tirania da loucura alheia.
Quando, há pouco dias, um antigo aluno de uma escola americana provocou mais um destes massacres, Trump foi ainda mais longe. Em vez de advogar a única medida que pode realmente represar esta violência gratuita — a proibição da venda de armas —, veio sugerir que se armem os professores! Deste modo, perante uma situação-limite como a que ocorreu, aí temos nós um exército escolar, armado até aos dentes e pronto a disparar sobre qualquer suspeito que se atreva a ameaçar a comunidade escolar.
Nas últimas décadas, têm sido atribuídas aos professores as mais variadas funções. Para além de ensinarem — coisa que parece de somenos importância —, são pais, mães, educadores, psicólogos, assistentes sociais e por aí fora. Nunca ninguém tinha ainda pensado outorgar-lhes a nobre tarefa de agente de autoridade policial no perigoso espaço dos estabelecimentos de ensino. E porque não? Já agora dá-se-lhes a autoridade de que se queixam terem sido espoliados, por motivos alheios à sua vontade. Talvez muitos problemas relacionados com a indisciplina dos alunos ou a prepotência dos pais sejam deste modo resolvidos. E sem gastar mais um tostão do erário público, porque a atribuição de novas competências aos docentes nunca foi motivo para lhes aumentar também o salário.
Seria hilariante, não fosse estúpida e mesquinha, a perspetiva de Trump. Assim, haveremos de continuar a assistir aos mesmos dementes de pistola em punho ceifando vidas inocentes; haveremos de ver os que, não sendo dementes, perderam momentaneamente a noção dos limites e sacaram da arma para desafogarem as suas frustrações. Todo o ser humano pode cometer barbaridades. Mas se não tiver ao seu alcance instrumentos que ampliem a sua insanidade, tudo se esvai na cólera dos gritos ou na ira de alguns murros. Porém, na posse de instrumentos poderosos, a perda da noção dos limites poderá desaguar num mar de sangue. Em determinadas condições, todos seremos propensos ao desnorte. Basta saber se tudo se vai resumir à força limitada do braço humano ou ao gigantismo pavoroso de um cano de espingarda.
Na minha inocência, ainda julguei que o presidente dos EUA propusesse um amplo investimento público na área da saúde mental. Não! Afinal, parece suficiente autorizar os professores a varrerem do terreno da escola esses loucos que por lá vão surgindo. Quanto à saúde, nada de ilusões! É apenas mais um negócio como outro qualquer. E enquanto os ricos podem auferir dos mais modernos meios terapêuticos, os pobres hão de continuar a debater-se na penúria da sua infelicidade e a morrer a poucos metros dos hospitais que lhes recusam assistência. Sem recursos financeiros também não há vícios, ou julgam que podem viver à custa dos demais?