terça-feira, 17 de julho de 2018

Hegel e a questão de Deus


Voltei inesperadamente a Hegel! De vez em quando, parece que ressurge em mim uma vontade inabalável de ler, estudar e aprofundar o pensamento filosófico. Foi, sem dúvida, uma paixão dos meus primeiros anos de licenciatura. Nos velhos anos oitenta, lá estava eu sentado nos bancos universitários da Lateranense, em Roma, absorvendo, tanto quanto me era possível, todo o manancial de conhecimento de que os meus professores eram o garante. Era o tempo do enamoramento pela erudição que a universidade parecia consubstanciar. Hoje sou muito mais cético em relação a essa convicção. E creio mesmo que parte do meu deslumbramento se devia a uma pobre formação cultural de origem. Tudo quanto se dizia nas aulas magistrais daqueles anos era, para mim, uma novidade. Estava a desbravar caminhos que até então me haviam sido vedados, em parte por inércia minha, em parte por não ter tido uma família que me pudesse oferecer as oportunidades que a minha condição pessoal exigia. E tenho realmente saudade daquele fascínio, daquele embevecimento face a mundos inteiramente desconhecidos. Como dizia o poeta, parecia-me, cada vez mais, que “Se vim ao mundo, foi / Só para desflorar florestas virgens, / E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!” Estava embrenhado no mundo para onde parecia estar votado, desde o seio materno.
Nem tudo foi um mar de rosas. Também tive as minhas desilusões, como todo o estudante universitário com o mínimo de sentido crítico. Sabia bem distinguir a erudição de alguns da pobreza cultural de outros, tal como distinguia também a justiça de uns, quanto aos critérios que adotavam na avaliação dos alunos, da arbitrariedade com que outros procediam à avaliação dos seus alunos.
Sobretudo, houve um professor cuja postura moral, capacidade de comunicação do saber, rigor intelectual e erudição cultural tiveram sobre mim um impacto avassalador. Chamava-se Aniceto Molinaro e era, na altura, o decano da Faculdade de Filosofia dessa mesma universidade. E não é por acaso que a memória o trouxe de novo à minha presença, pois era um fervoroso defensor da doutrina hegeliana, que foi o tópico com que iniciei este texto.
Sem mais nem ontem, obriguei-me a ler o livro “O pensamento de Hegel” de François Châtelet, cuja edição original é de 1968. E tal leitura despertou em mim pensamentos e sentimentos contraditórios. De um determinado ponto de vista, fiquei com a sensação de estar perante um pensamento (o de Hegel, evidentemente) que “brinca” com conceitos abstratos sem aquela evidência de verdade que o pensamento de Descartes, por exemplo, ostenta. Há que reconhecer a sua profunda habilidade em usar conceitos e conectá-los com outros conceitos, numa lógica que pode ofuscar o pensamento e confundir os espíritos menos dotados (como é, decerto, o meu caso).
Há ainda um outro aspeto que desperta em mim alguma desconfiança: a sua certeza sobre a verdade do pensamento que propõe (que define com a expressão “saber absoluto”, a meu ver, demasiado pretensiosa e, de certa maneira, arrogante). Haverá algum pensamento humano que se possa alcandorar a tão elevados patamares? Poderá, alguma vez, um simples humano ter a pretensão de desvendar o próprio pensamento absoluto que só em Deus pode residir? No que me diz respeito, tenho para mim que o ser humano é, como Camões tão bem o reconhece, esse “fraco humano” que não tem segura a curta vida, esse “bicho da terra tão pequeno”.
Não me entendam mal! Também não sou propriamente um defensor do relativismo absoluto que, uma vez por outra, alguns fazem questão de defender (muitas vezes sem sequer disso se aperceberem). Claro que o ser humano tem acesso à verdade. Claro que há caminhos individuais e coletivos cuja verdade não pode ser desclassificada como se fosse apenas uma mera opinião igual a tantas outras, sem qualquer justificação racional. Mas a verdade a que o ser humano tem acesso move-se nos estreitos limites das suas capacidades. Nenhum saber absoluto é dado ao ser humano. A menos que por saber absoluto se entenda, como parece defender Hegel, um conjunto de proposições abstratas com escassa ligação com a realidade do mundo. Se eu disser, por exemplo, que Deus é a verdade, caso exista realmente essa entidade absoluta, a minha proposição é um saber absoluto, uma vez que, por definição, Deus contém a totalidade de todas as determinações positivas elevadas ao infinito. Nenhuma outra verdade pode ser dada para além da verdade que Deus é. Tudo o resto é parcial, contingente e finito. Mas qual é realmente a essência de Deus? Como pode ele ser definido por nós? Será o ser humano alguma vez capaz de desvendar inteiramente a sua essência infinita? Tais questões só podem ter uma resposta negativa. Deus é e será sempre o que está para lá do entendimento humano. A religião chama-lhe o Mistério. O que dele possamos dizer ou é tão abstrato que pouco ou nenhum conteúdo pode revelar ou pretende enriquecer-se através de afirmações teológicas mais concretas e apenas conseguimos usar uma linguagem metafórica. Na verdade, toda a teologia é uma grande construção metafórica sobre Deus. Pouco ou nada do que se diz sobre Deus corresponde efetivamente àquilo que ele é. O nosso discurso sobre Deus é apenas um conjunto de balbucios que vamos articulando, quase sem jeito, como se fôssemos crianças perante o mundo intrincado e incompreensível dos adultos. É apenas neste contexto que me parece possível o discurso teológico.
Seja como for, nem todas as metáforas são igualmente aceitáveis ou suficientemente próximas da realidade que pretendem explicitar. A este propósito, julgo que Hegel tem razão ao submeter a teologia cristã tradicional a uma crítica severa. Porém, o resultado a que chega, por mais próximo da realidade que esteja, ainda estará suficientemente longe da verdade absoluta, pelo que me recuso a aceitar, sem mais, que seja um saber absoluto e definitivo.

A interpretação que ele faz da doutrina da trindade cristã é interessante e colhe a minha aprovação (sempre com as limitações que antes referi). Afirmar que Deus é Pai, Filho e Espírito Santo nada mais parece significar do que a afirmação da existência (evidente) de Deus em si mesmo (Pai), de Deus enquanto Mundo e de Deus enquanto unidade de Deus em si e de Deus enquanto Mundo.
Especifiquemos um pouco mais esta difícil questão. Dizer que Deus é Pai seria uma metáfora para afirmar a existência de Deus enquanto verdade absoluta, enquanto puro espírito, enquanto pensamento puro (ou puro ser, o que é o mesmo) que se pensa a si mesmo (cf. Aristóteles na sua “Metafísica”). É Deus antes da criação do mundo. E a palavra “antes”, neste contexto, não tem um valor temporal, uma vez que, em Deus, não há tempo (ele é a eternidade), mas um valor ontológico. Deus é o fundamento do mundo e, portanto, a razão da sua existência. Tem, por isso mesmo, uma prioridade ontológica absoluta sobre o mundo, ainda que o mundo possa ter existido desde sempre, no plano meramente temporal. Deus enquanto Pai diz-nos que o Mundo não esgota a realidade, que, pelo contrário, precisa mesmo de algo mais, infinitamente superior, que existe para lá de si mesmo e lhe é fundamento adequado. O Mundo não é a realidade, é apenas uma parte da realidade.
Mas Deus é essencialmente Vida. Por isso, não permanece em si mesmo, como um ser autorreferencial sem janelas sobre uma alteridade possível. Esta vitalidade que Deus é fá-lo negar-se a si mesmo e tomar a forma do seu oposto. Se ele era interioridade pura, ao negar-se, exterioriza-se, manifesta-se, revela-se, femonenaliza-se no Mundo enquanto conjunto global onde tudo aparece como coisa exterior a Deus, como realidade outra em relação a ele e, portanto, como não-Deus, como finita e contingente. Assim sendo, o Mundo nada mais é do que Deus enquanto se torna fenómeno, se torna exterior àquela vitalidade transbordante que ele é em si mesmo. A criação do Mundo é o processo pelo qual Deus se desenvolve, transformando-se numa alteridade. O Mundo é, usando mais uma metáfora, o corpo de Deus, a sua exteriorização. E se o Mundo é a alteridade de Deus, ele é também outro em relação a Deus, enquanto “Pai”, enquanto Deus em si mesmo. Ou seja, ele existe na forma finita de ser, enquanto Deus em si existe na forma infinita. De um determinado ponto de vista, o Mundo é Deus, e de outro ponto de vista, o Mundo é a negação de Deus, por causa da forma finita com que se reveste. É por isso que dizemos de Deus que ele é sagrado, ou seja, “separado” do mundo. Este Deus de que pretendem falar as religiões monoteístas seria Deus em si mesmo, como alteridade em relação ao Mundo. Mas as religiões falam de Deus também como alguém que se revela ao e no Mundo e, portanto, com quem o Mundo tem efetivamente uma relação. O Mundo, para existir, tem de existir em Deus, tem de pertencer a Deus, tem de ser da mesma “estirpe” dele como refere a Bíblia. Se Deus fosse apenas em si, nada mais existiria e o Mundo, a existir (o que seria contraditório), seria qualquer coisa de inteiramente estranho a Deus, com o qual nunca poderia relacionar-se. Mas como seria possível a existência de algo contingente que não pudesse ter algum tipo de relação com o seu fundamento absoluto, com a sua razão de ser?
Num terceiro momento, Deus regressa a si mesmo, depois (num sentido não temporal, mas ontológico) de se ter desdobrado e negado no Mundo. Mas regressa a si mesmo depois de se ter enriquecido com todas as determinações concretas que o Mundo inclui. Este movimento do real, esta vitalidade intrínseca à realidade, começou por ser a negação de Deus para agora ser a negação da negação, ou seja, o regresso de Deus a si mesmo, mas enriquecido pelo processo de desdobramento no Mundo. Deus inclui, portanto, o seu oposto (o Mundo) elevando-o à condição absoluta originária. Neste terceiro momento Deus revela-se como Espírito. Por isso, Deus é mais do que Deus em si mesmo (Pai) e Deus é mais do que o Mundo (o Filho). Deus é a união dos opostos, a unidade de si mesmo com o Mundo num processo eterno de exteriorização-negação e de retorno a si mesmo. A criação do Mundo é, por isso, um ato constante, não uma realidade que existiu num passado longínquo uma vez por todas. O Mundo está em permanente evolução e a sua evolução é a sua criação eterna e, ao mesmo tempo, o seu retorno a Deus. O Mundo caminha para Deus e só nele encontra o seu repouso. Tal como Deus caminha para o Mundo e o “redime” da sua finitude para de novo o acolher no seio da sua eterna vitalidade.
Deus não é, pois, nenhuma entidade imóvel e imutável, que vive no seu mundo transcendente e que nada tem a ver com a criação. Deus é Vida e vida em abundância. Enquanto vida, ele projeta-se no Mundo e recolhe-se em si mesmo como Mundo redimido. Estamos, portanto, bem longe das teologias estáticas que interpretam Deus como uma entidade separada do Mundo e imóvel. Se existisse alguma realidade que não fosse Deus, que não estivesse em Deus, que não subsistisse nele como poderia ainda existir, uma vez que não tem em si o fundamento adequado? E como poderia ainda Deus ser realmente Deus se existisse alguma coisa fora dele, inteiramente independente dele? A ser assim, Deus seria apenas mais um objeto, uma entidade finita, uma vez que teria de conviver com outras entidades inteiramente independentes dele, que lhe marcavam os limites. A ser assim, para quê chamar-lhe Deus? Seria apenas uma entidade dotada de muito poder, mas não absoluta, subsistindo no mundo contingente dos entes relativos. Deus ou é a totalidade da realidade ou não é nada!
Em linhas gerais, tal interpretação da doutrina da trindade parece-me correta. Deus-Mundo-Espírito parece ser o significado adequado da trindade cristã Pai-Filho-Espírito Santo.

O ser humano, enquanto inserido no Mundo, participa da sua alienação em relação a Deus. A história do Mundo — que inclui a história do universo em que vivemos e de eventuais universos paralelos, bem como a história da própria humanidade que nele está inserida — é a história da revelação de Deus. Ao mesmo tempo que é a história da negação do divino é igualmente o processo através do qual Deus, enquanto Mundo, vem à consciência de si mesmo. E neste sentido, a história da humanidade tem um papel especialíssimo, uma vez que é nele que o Mundo adquire consciência de si mesmo. Mas o ser humano, uma vez que está no Mundo e é do Mundo, tem consciência da sua alteridade em relação a Deus. Isso significa que tem consciência da sua condição de ser não divino, mortal, finito, contingente. Tal condição revela-se nos constrangimentos com que tem de arrostar a vida, nas limitações éticas de que a sua conduta é testemunho e, por último, na sua condição de ser votado à morte. Contudo, porque ele vem de Deus e, num certo sentido, é também Deus, não se conforma com a sua condição de ser alienado. Toda a história da humanidade é testemunha da vontade humana de conquistar a divindade a que se considera destinada. É a história do resgate humano. E não apenas do resgate da sua “pecaminosidade” ou seja da sua condição de ser que age em oposição à vida ética, mas também da sua intrínseca mortalidade, que o condena a ser para a morte, a existir para deixar de existir, a permanecer na vida sabendo que será dela tragicamente arrancado.
Sabendo-se assim, o ser humano procura o resgate desta sua condição de alteridade em relação a Deus. Procura, portanto, ser como Deus. E os caminhos para lá chegar são tantos e tão variados que não cabe aqui desenvolvê-los todos. Alguns são decerto inteiramente desadequados e neles o homem arrisca-se a perder-se no emaranhado de equívocos que traça para si mesmo. Outros são promissores. Para Hegel, são, sobretudo, dois deles: a busca de si mesmo através da arte e a busca de si mesmo através da religião.
Uma e outra são formas de libertação dos laços que constrangem o ser humano a estar amarrado aos limites da vida. A primeira via é a libertação por intermédio do belo, que se conquista e constrói na obra de arte. A condição à qual o ser humano aspira é Deus, mas enquanto Belo, tornado real na obra de arte. A beleza ofuscante da divindade promete ao ser humano a redenção do feio, do medonho que remete o ser humano para a noite eterna, para o esquecimento sem regresso.
A segunda via, que não se opõe de forma alguma à primeira, mas com ela convive, é a via da religião, através da qual o ser humano procura em Deus o sentido absoluto do qual se encontra privado pela sua condição de não-Deus. As religiões são testemunhos evidentes deste processo de procura de si mesmo que o ser humano percorre, sabendo que só no Outro, no Totalmente-Outro, pode encontrar salvação para a sua condição de ser sem sentido em si mesmo e sem futuro absoluto.
Num certo sentido, todas as religiões têm a sua verdade. Não evidentemente toda a verdade. Também há erro nas religiões, porque há erro em tudo o que é humano. E as religiões são criação do desespero humano de se saber alienado, fora de si mesmo, sem outro sentido que não seja o de uma entidade fundacional que o possa resgatar do absurdo em que veio a acontecer por força de passar a existir no Mundo.
Até as religiões chamadas “primitivas” têm a sua verdade. Quando o ser humano identificava o sagrado com a tempestade, o raio, o trovão, a montanha ou qualquer outro elemento natural, estava pura e simplesmente a reconhecer que tudo quanto existe no mundo é Deus, porque nada do que existe pode estar “fora” de Deus ou para além dele. Tudo está impregnado pelo Espírito. É evidente que tal religião também tinha os seus limites. O principal residia no facto de não proceder de forma coerente com o próprio raciocínio, ou seja, de não reconhecer no próprio ser humano — o único que, tanto quanto sabemos, chegou à consciência do Mundo e de si próprio — a mesma (ou ainda num mais elevado grau) prerrogativa divina que atribuía ao objeto sagrado. Esse processo só estará realmente concluído com o cristianismo, uma vez que é nele que o ser humano, na pessoa de Cristo, se declara realmente divino, votado à vida eterna e chamado a sê-lo no quotidiano da vida através da conduta ética.
Todas as religiões têm, portanto, o seu conteúdo de verdade. É preciso apenas identificá-lo e integrá-lo na forma específica do pensamento racional. Porém, todas têm os seus limites. E se o cristianismo chegou a uma compreensão superior da condição do ser humano, fê-lo sem ter em atenção que Cristo, o homem histórico Jesus, nada mais é do que um ser humano, como todos os restantes companheiros de viagem, que, no longo processo de revelação de Deus, pôde manifestar de forma mais adequada o ser divino e a sua vontade. Na verdade, quando o dogma afirma a dupla natureza de Cristo está simplesmente a afirmar a dupla natureza de cada ser humano. Cristo é o símbolo histórico de cada ser humano, na sua peregrinação contínua para o Sagrado. É por isso que o Novo Testamento pode dizer que o crente ressuscita em Cristo, vive em Cristo, etc. Todo o ser humano é humano-divino e deve viver de acordo com a sua condição. O cristianismo veio oferecer a cada ser humano um sentido absoluto, a certeza de que a sua existência não está votada ao próprio aniquilamento, mas à sua elevação até à condição da qual proveio. Nós somos Deus humanizados na história e, no processo histórico da vida, seremos reassumidos em Deus, enquanto Espírito.
Que dizer desta visão holística da vida? A meu ver, Hegel, no essencial, tem razão. A história universal é a história do desenvolvimento de Deus, da sua autocriação livre. E aqui a palavra livre não significa, de modo algum, que Deus escolheu criar este Mundo como poderia ter escolhido criar de modo inteiramente diferente. Provavelmente, atendendo à própria natureza de Deus, existirão todos os universos possíveis. Deus desdobra-se no conjunto de todas as suas possibilidades (ou seja, numa infinidade de universos possíveis). Por isso, a liberdade de Deus, a sua autodeterminação, nada têm que ver com uma escolha entre alternativas viáveis. Essa forma de conceber a liberdade é especificamente humana e constitui um limite à sua concreção. A forma mais elevada de ser concretizar-se-ia no momento em que alguém vive a totalidade das suas possibilidades e não apenas uma em alternativa às demais. A liberdade de Deus é o facto de todo o processo da sua transformação em Mundo e da reassunção do Mundo nele próprio, enquanto Espírito, ocorrer no interior de Deus e, portanto, sem estar sujeito a qualquer constrangimento exterior ao seu desenrolar-se. Deus é liberdade absoluta porque é absoluta racionalidade, sem constrangimentos de qualquer ordem.
Neste sentido, o ser humano será tanto mais livre quanto mais assumir a totalidade das suas possibilidades, num processo de autoconstrução cujo fim é única e exclusivamente Deus. Cada ser humano provém de Deus (neste sentido, é Deus) e para ele caminha enquanto seu sentido absoluto, fundamento indelével e finalidade sem alternativa, porque a única alternativa a Deus seria o absurdo da morte, a queda do ser humano no abismo da própria perdição.

domingo, 1 de julho de 2018

Miguel Torga em Lisboa: resistência e liberdade


Acabei de participar numa interessante viagem à Lisboa de Miguel Torga, promovida pela Sociedade Portuguesa de Geografia. Estranho, não é? A Coimbra de Torga não revelaria uma singularidade tão inesperada. Mas Lisboa?
Na verdade, Torga percorreu Portugal de lés a lés, ao longo de várias décadas. E Lisboa não ficou de fora deste périplo prolongado no tempo. São inúmeras as referências à cidade no seu “Diário” ou no seu livro “Portugal” ou ainda em “A criação do mundo”, onde reflete pormenorizadamente sobre o seu encarceramento na prisão do Aljube junto à Sé.
Foram apenas alguns meses que ali esteve encerrado, mas foi tempo bastante para haver sulcado a alma deste homem para quem a liberdade e a dignidade humana eram valores inegociáveis. O “Estado Novo”, que ele abominava por odiar e perseguir a liberdade, estava-se rigorosamente nas tintas para a dignidade do ser humano, esse sonho de poetas que parecia não caber no espaço exíguo da vida real. Salazar e os seus fiéis admiradores não tinham razão, como a história o veio a demonstrar. Mas, enquanto reinou, o ditador foi impiedoso para com os seus opositores. Certo de que a verdade coincidia integralmente com a sua mesquinha forma de encarar a vida e o destino de Portugal, jamais abrandou a sua sanha persecutória sobre quem se lhe interpusesse. O poder de uma verdade suposta impunha-se, por meio de todos os mecanismos do poder do estado, sobre todo o cidadão mais ou menos insurreto.
Aliás, resta saber se é lícito falar em cidadãos durante o “Estado Novo”, pelo menos no pleno sentido da palavra. Decerto havia súbditos, de quem se esperava vergarem-se ao arbítrio do poder, mas cidadãos é uma outra realidade que só pode coexistir com o respeito pela autonomia e liberdade individuais. Quem ousasse sê-lo ou sequer pretender sê-lo era simplesmente amordaçado, humilhado e torturado até à capitulação, pelo menos parcial ou aparente, ou mesmo até à morte. Ser cidadão é assumir a responsabilidade pelos destinos da comunidade humana em que se está inserido e exercer civicamente o direito à participação na vida coletiva, ora elegendo os seus legítimos representantes (e sabemos como as eleições eram uma farsa com fins meramente propagandísticos), ora propondo reformas e vigiando a sua execução, ora denunciando toda a injustiça ainda que executada a coberta da lei e através dos meios com que o estado exerce o poder. Ser cidadão é resistir ao poder iníquo e a todas as formas perversas de o exercer. Em última instância, ser cidadão poderá exigir do próprio o ato extremo da desobediência civil ao estado e às suas estruturas, quando é evidente a toda a consciência ética que os mecanismos de poder agem sem consideração pelos mais básicos valores éticos, inscritos nas declarações de direitos, exigindo uma indigna submissão de todos, incluindo dos excluídos, marginalizados ou sem voz.
Ora os estados totalitários dirigem a ferro e fogo os destinos das nações, sem a mais pequena atenção ao sentimento e vontade dos povos que lhes estão sujeitos. Os seus incontestáveis dirigentes sentam-se no trono de uma verdade que julgam possuir e investem, consequentemente, sobre tudo quanto se lhes atravesse no campo de ação, sem a mais leve consideração pelas fundadas opiniões, perspetivas ou propostas dos indivíduos que governam. Sentem-se investidos de um poder divino que não admite oposição. É por isso que a derrota de tais sistemas só ocorre, por via de regra, através de revoluções. A via pacífica é uma exceção, pois quem se julga assim na posse de um tal poder de direito divino (quer “Deus” seja identificado com determinada religião, ideologia política ou perspetiva económica) não admite abdicar voluntariamente dele.
Os ditadores receiam sobretudo os intelectuais. E têm razões de sobra para os temerem. A história foi palco de situações em que se tornou evidente a sua potencial e perturbadora perigosidade. Possuem o conhecimento, exercem com denodo o pensamento crítico, recusam aceitar o que lhes é imposto sem a devida justificação racional, a partir de argumento validados pelos seus pares, e rejeitam ser tratados como objetos ou relegados para meros subalternos do poder, condenados a obedecer cegamente e sem reservas. Muitos mantêm-se firmes na decisão de se não deixarem comprar pelo poder, através de cargos relevantes, de carreiras fulgurantes, de benesses económicas várias, etc. E exercem a sua rebelião ora aberta ora sub-repticiamente, minando assim os alicerces do sistema.
Infelizmente, a grande maioria do povo português, durante o “Estado Novo”, sofria de um analfabetismo avassalador. Não admira que as gentes fossem profundamente subservientes, sobretudo as que habitavam o Portugal rural que tinha, ao tempo, uma importância fulcral na organização da nação. O povo miúdo aceitava sem discussões o palavreado oficial do ditador e das suas estruturas, como se brotasse das próprias entranhas do divino. Era submisso e indiferente a tudo quanto dizia respeito ao destino coletivo do país. Vivia demasiado sobrecarregados com o trabalho diário, absurdamente desumano, e demasiado empenhado em garantir a própria subsistência. Não lhe sobejava tempo nem energias para pensar para lá das cebolas e dos alhos que nas hortas iam medrando, numa agricultura de subsistência sem horizontes nem futuro. Era necessário trabalhar de sol a sol para extrair da terra (ou da fábrica) o parco pão de cada dia. Ansiar por mais alguma coisa seria uma quimera insensata. Parecia àquele bom e pacífico povo que a realidade sempre fora assim e que sempre assim seria. Trabalhar tão duramente era, afinal, a condição do ser humano!
Pelo contrário, ao ditador, qual pai da nação, cabia a difícil tarefa de se interessar pelo destino coletivo, enquanto a cada português cabia a tarefa bem mais comezinha de labutar arduamente nos campos ou nas fábricas para conseguir sobreviver a vidas de miséria sem quaisquer perspetivas de futuro. De forma simples, a teoria em voga era a de “Cada macaco no seu galho!” Nem o ditador vinha dizer como se deviam plantar as batatas, nem o cidadão era chamado a meter o nariz nas grandes questões políticas que só o pai da nação deveria decidir. Não admira, pois, que a grande maioria deste povo analfabeto fosse essencialmente favorável ao sistema em vigor. Muitos idolatravam mesmo o ditador, como as crianças põem no pai toda a confiança na orientação do presente e na preparação do futuro. As ditaduras são sistemas de infatilização da vida. Mantêm o povo num estádio de subdesenvolvimento e dependência psicológicos, sem que alguma vez lhes seja dada a possibilidade de se atreverem a pensar a sociedade em que vivem em moldes diferentes dos do ditador.
Que fazer, então, numa tal iniquidade moral? Resistir mais ou menos silenciosamente e minar, dia após dia, sem desfalecer, os alicerces do sistema. Mas tal trabalho é tão árduo, que exige uma persistência inconformada e uma resiliência incalculável. Desde logo porque os insurgentes têm de fazer as contas com uma resistência absurda do próprio povo que pretendem libertar. Querer oferecer ao povo aquilo que o povo considera não lhe pertencer é sobejamente desolador. Por isso, um clima de desânimo geral infiltra-se na alma daqueles que têm maior consciência política. Alguns, perseguidos pelo regime, fogem para o exílio, outros exercem ocultamente a sua oposição e muitos esperam apenas que melhores dias venham…

Não julguemos, porém, que são apenas as ditaduras a trabalhar pela permanente imbecilização das suas populações. Também os poderes que se organizam em sistemas ditos democráticos — não por serem democráticos, mas por serem mecanismos de poder — não só desejam como instauram estratégias sub-reptícias para domesticar a consciência das populações. Nenhum cidadão deve, pois, descansar da sua obrigação de vigilância atenta, apenas pelo facto de viver num sistema que se autoproclama democrático. Por vezes, a distância entre a retórica usada e a realidade concreta é tão abissal como a que separa céu e terra. E, no fundo, todos os poderes amariam exercer a sua ação sem a mais leve oposição, num clima de surda obediência geral!
O facto de a constituição de um país o declarar estado de direito não é implica, de modo algum, que o seja realmente. Os exemplos de atropelos a tal desiderato são inúmeros. Em Portugal, por exemplo, a lei parece ser meramente indicativa. Aplica-se quando dá jeito ao poder e “interpreta-se” quando lhe convém. O desprezo assíduo da lei é contínuo e tenebroso. E não me refiro às infrações de cidadãos individuais ou de associações privadas, que sempre hão de existir e sobre as quais é preciso exercer vigilância apertada. Refiro-me ao desrespeito do estado e dos organismos dele dependentes pela lei que o próprio estado instituiu. Numa tal orgânica global, é possível ainda definirmos o país como estado de direito? A constituição consagra-o, mas a realidade desmente-o a cada passo!
Vejamos agora, sem qualquer intenção de os esgotar, quais os mecanismos a que o estado recorre para manter os cidadãos naquela letárgica inconsciência que os transforma em meros súbditos. Há toda uma retórica usada pelos poderes que visa confundir o povo e levá-lo a crer como verdade absoluta uma mera opinião ou, pior ainda, uma mentira encapotada. Já os antigos gregos conheciam bem estas estratégias. Por isso, distinguiam claramente o discurso sofista, enredado em argumentação com mera aparência de verdade, ao serviço de determinados interesses injustificados, do discurso do filósofo, cuja única intenção era única e exclusivamente a honesta procura da verdade, sem subterfúgios nem manigâncias retóricas que distraíssem a atenção do essencial. O discurso sofista é hoje amplamente usado em arengas jurídico-judiciais ou, como não podia deixar de ser, no discurso político que pretende convencer os seus destinatários da verdade que subjaz às suas propostas, independentemente de haver nelas essa verdade que pretendem ostentar.
Mas há formas mais indiretas de fazer uso da retórica sofista. Os meios de comunicação social, poderosos instrumentos de divulgação de opinião e de (de)formação da opinião pública, organizam os seus discursos omitindo informação relevante, dando primazia a aspetos laterais claramente ao serviço da opinião dominante, desfigurando os dados de um problema, etc. Um dos mecanismos mais perversos para fazer valer a opinião do poder é a escolha sistemática de determinados comentadores (opinion makers) que enxameiam os órgãos de comunicação de massas. Ao selecionar apenas os que se identificam com uma determinada linha de pensamento, excluem do debate público o contraditório, tão essencial à formação de opiniões isentas sustentadas no conhecimento global de um problema. Em vez disso, o povo é sistematicamente bombardeado com opinião de um único quadrante político-económico como se não houvesse alternativa a esse discurso.
O sistema educativo deveria ser um poderoso motor de formação de cidadãos intervenientes e críticos. Todavia, de forma mais ou menos eficaz, o sistema encarrega-se de minar essa justa pretensão, recorrendo às mais variadas estratégias.
Assiste-se amiúde a uma cuidadosa domesticação dos currículos e dos programas das disciplinas, por via das horas concedidas ou suprimidas, das disciplinas ou áreas existentes ou eliminadas, dos conteúdos a ministrar (optando por uns e detrimento de outros) ou da dimensão desmedida dos programas, evitando assim que o professor possa dispor de tempo para explorar aspetos menos convenientes ao sistema.
Também a proliferação de linguagens pseudopedagógicas, tão complexas quanto inúteis, são, muitas vezes, autênticos gatos escondidos com o rabo de fora. Soma-se ainda a parafernália de instrumentos burocráticos que o poder impõe às escolas e aos professores, a difusão de orientações sobre os mais variados e concretos assuntos que se abatem sobre as escolas a partir dos órgãos do poder central, a remoção prática (mas não retórica) da tão prometida autonomia das escolas por via da centralização das mais pequenas decisões ou da sua municipalização (que é outra forma de ingerência do estado no sistema educativo, talvez até bem mais insidiosa), os meios de policiamento da ação docente e a constante alteração do sistema, bem como a profusão anárquica de leis, decretos e normativos…
Empenhados que estão em não falhar no cumprimento do número infernal de normas e burocracias que lhes são impostas (sob pena de virem a sofrer as devidas penalizações), poucas energias restam aos professores para promover nos alunos o espírito crítico e a formação de cidadãos interventivos e conscientes da sua responsabilidade política.
Há também um certo discurso insidioso, com vista a desmobilizar os docentes. Confunde-se amiúde formação política com propaganda partidária, de modo a manter os professores arredados de quaisquer considerações que possam ser interpretadas como oposição ao poder. Mas ao eliminar das aulas todo o discurso com conotações políticas, suprime-se igualmente toda a possibilidade de levar os alunos a refletir acerca da sua condição de cidadãos e das opções que, num estado democrático, se lhes apresentam.
Uma outra estratégia com resultados bastante eficazes é a desvalorização do teor educativo de determinadas disciplinas, consideradas inúteis na preparação dos nossos alunos para a vida ativa. Parece que no tempo das tecnologias de ponta já não há lugar para o pensamento crítico, mas apenas para a aprendizagem de mecanismos técnicos cuja ameaça aos sistemas políticos e económicos é praticamente nula. Sob aparência da verdade, esconde-se a finalidade que nenhum poder ousa confessar: transformar o sistema educativo num mecanismo de preparação de produtores, de agentes económicos do sistema capitalista, inteiramente ignorantes quanto aos mecanismos de dominação, de subjugação e de produção de condições conducentes a inaceitáveis desigualdades que o mesmo sistema promove. Os nossos alunos saem da escola para a fábrica por forma a manterem e alimentarem o sistema económico tal como ele se apresenta, sem exercerem sobre ele qualquer censura intelectual! É, afinal, o que convém ao poder político e ao poder económico ao serviço qual aquele parece estar.
Não sei bem se foi isto que Torga denunciou ao longo da sua vida de escritor, mas talvez não esteja muito longe do que aqui deixei registado. Um homem inteiro, que não vendeu nenhuma das suas dimensões, nem prescindiu de ser tão interventivo quanto lhe foi possível. Nem sempre acertou? Decerto que não. Mas só está isento de erro quem nunca se atreve a ser, porque a sua vida, na modalidade em que decorre, é já um mero equívoco!

quarta-feira, 20 de junho de 2018

Sínodo dos Jovens 2018


De acordo com o documento de trabalho do Sínodo dos Jovens de 2018, é preciso ouvir os jovens em plena liberdade, permitindo que se pronunciem sobre os mais variados problemas, incluindo aqueles que a Igreja tem considerado encerrados.
Graças a Deus, temos um papa disposto a escutar as bases e não apenas a fazer o que quase todos até agora têm feito: produzir doutrina de forma unilateral, das cúpulas para as bases, sem atender minimamente à perspetiva do povo. E esta surdez permanente tem-se feito sentir tanto a montante como a jusante. De facto, o medo de perder o controlo da situação tem levado a instituição a manter-se rigidamente insensível às vozes do povo. E tal acontece tanto no processo anterior à elaboração da doutrina, como também na verificação da sua aceitação e execução pelas bases. De que serve uma “bela” doutrina que não é respeitada por ninguém? Este facto não deverá levar a igreja a considerar a hipótese de estar errada quanto às posições que unilateralmente assume? A voz do povo na sua globalidade não revelará a voz de Deus? A rejeição prática e universal da doutrina não significará simplesmente que o seu conteúdo pouco ou nada corresponde à vontade de Deus?
É cada vez mais urgente ouvir os jovens (e os menos jovens) a respeito de questões fundamentais de ética sexual. A proibição de métodos anticoncecionais artificiais está inteiramente desajustada da realidade e não tem qualquer fundamento bíblico ou ético. A Humanae Vitae (encíclica de Paulo VI tristemente conhecida por ter proibido aos católicos o uso de métodos artificiais de contraceção) labora claramente em erro! Os supostas justificações que recolheu do argumentário conservador não têm qualquer sustentação lógica. São meros ardis pseudointelectuais (como aliás muitos dos documentos da Igreja sobre moral sexual) para manter uma suposta tradição que está errada desde a sua origem.
Embora com matizes diferentes (porque há dados bíblicos sobre algumas destas questões), a discussão deve estender-se igualmente à tradicional condenação da homossexualidade ou das reconfigurações das famílias, após o fracasso de um primeiro casamento, ou do acesso das mulheres a lugares de chefia na Igreja…
Os conservadores dirão que se trata de vender a Igreja ao espírito do tempo. Eu diria que se trata essencialmente de escutar a voz de Deus em ação na história da humanidade. Uma Igreja petrificada nos seus dogmas caducos não vai chegar a lado nenhum. Pelo contrário, cava o fosso da própria morte. Que credibilidade terá uma instituição que clama no deserto ao arrepio de tudo quanto pensam, sentem, dizem e fazem as suas bases?
Dir-me-ão que esta perspetiva é demasiado perigosa, uma vez que se arrisca lançar fora o bebé com a água do seu banho. Eu diria que não é menos perigosa a perspetiva autista com que as instâncias da Igreja têm conduzido a vida do povo cristão. Vemos bem os resultados a que se chegou, com a debandada geral das novas gerações! Não se trata, evidentemente, de arruinar os fundamentos da fé cristã. Ninguém em seu perfeito juízo aceitará tal visão, por mais revolucionário que seja. Tudo quanto constituir o núcleo da identidade genuinamente cristã deverá ser mantido e aprofundado. Mas o critério para julgar a identidade cristã não são nem podem ser os dogmas de concílios ou de papas, mas Jesus Cristo e o seu Evangelho.
Quando a Igreja estiver disposta a rever a sua história (incluindo a enorme massa desconforme de cânones, dogmas, doutrinas, imposições e afins) à luz do Evangelho de Cristo, teremos de novo (disso não tenho dúvida) o rejuvenescer da fé e da alegria cristã, na sua pureza original. Porque a fé cristã não é esse emaranhado de catecismos, leis e dogmas que a Igreja foi acumulando ao longo de séculos. Mas a simplicidade do amor ao próximo, dita e cumprida em cada minuto da nossa precária existência, bem como a confiança desmedida num Deus que nos amou desde sempre e nos acolhe na sua eternidade indizível. E num tempo em que os ventos sopram cruzados e tumultuosos, bem precisamos de uma orientação espiritual que seja firme no essencial e benevolente em tudo.

sábado, 16 de junho de 2018

"A arte subtil de dizer que se f*da"



Há dias, percorrendo os corredores de um hipermercado, enquanto me dedicava à aborrecida tarefa de escolher e trazer para casa os mantimentos de que vamos precisando, passei pela banca de exposição de livros. Um pouco ao acaso, dei uma vista de olhos às novidades expostas. Um título desassombrado despertou a minha curiosidade: “A arte subtil de dizer que se f*da”. Digo antecipadamente que não costumo gastar dinheiro na aquisição de livros que se classificam como “autoajuda” (este não se enquadra bem no género, mas anda lá perto). Nunca confiei muito neste tipo de literatura e, como os recursos não são infinitos, há que escolher onde ocupar o seu tempo e gastar o seu dinheiro. Normalmente, prefiro seguir por outros caminhos que me são mais aprazíveis.
Mas aquele título era irresistível! Alguém teve a coragem de usar o calão na identificação do seu texto, sem medo de perder a clientela! Merecia, pelo menos, média dúzia de minutos da minha atenção. Algum tempo despendidos no meio da fastidiosa tarefa de recolher batatas e dentífricos não haveria de perturbar substancialmente a harmonia do universo. Por isso, peguei no volume e li a contracapa. Fiquei imediatamente deslumbrado! Então não era verdade que desenvolver o pensamento positivo fosse a receita certa para adquirir uma vida feliz? Parece que não! Pelo menos para o autor, esta ideia tão difundida era, no mínimo, perigosa. Na maior parte das situações, significava fugir aos problemas. E essa não era, definitivamente, a atitude correta. Em vez de os resolver, escamoteava-os, mantinha-nos em banho-maria ou permitia que se avolumassem desmedidamente.
Resolvi fazer uma loucura (com risco controlado, evidentemente): comprar o bizarro volume. E estava tão curioso em relação às propostas do autor, que não esperei terminar os três ou quatro livros que lia naquele momento para iniciar a sua exploração. E não me arrependi. Aliás, em momento algum me arrependi de o haver comprado e haver dedicado o tempo necessário à sua compreensão. Naqueles dias, passei por instantes de volúpia intelectual com que não era acometido há bastante tempo.
Cada vez mais tenho dificuldade em ser surpreendido com as leituras que faço ou com as palestras que ouço. É por isso que raramente frequento conferências. Para além do tempo que demoro na deslocação para o local do evento, não é tão fácil desembaraçar-me delas como o é terminar imediatamente uma inútil leitura. É por isso que sinto enorme alegria quando sou surpreendido por algo realmente novo e intelectualmente perspicaz. Mark Manson, o autor americano de que falo, conseguiu despertar em mim este sentimento de fascínio por uma estimulante descoberta.
Sem dó nem piedade, o autor expõe as nossas fragilidades numa prosa tão autêntica como escorreita e viva. Um filão de sabedoria transborda nas sucessivas páginas. Um após outro, os capítulos vão denunciando as nossas desatinadas estratégias de fuga aos problemas, de desresponsabilização por tudo quanto nos acontece e de vitimização pela infelicidade que, afinal, vamos cavando à nossa volta. A dor é, por vezes, tão profunda, que preferimos mascará-la, como se a felicidade estivesse à mão de semear e resultasse apenas da vontade benigna de um qualquer redentor exterior.
É assim que, ao longo das suas duzentas páginas, vai desmascarando os processos autodestrutivos de vitimização a que muitos recorrem por se acharem “no direito” de obter de alguém a satisfação daquelas condições que lhes hão de desvendar a felicidade. Mas como os problemas continuam lá, morrem asfixiados nesse processo de fuga e culpabilização do outro. A verdade é que jamais os outros serão exatamente como nós gostaríamos que fossem. E ainda bem que assim é! Logo, só há uma maneira de nos libertarmos do sofrimento nocivo (sim, também há um sofrimento que não é nocivo!): assumirmos pessoalmente a responsabilidade por tudo o que de importante nos vai acontecendo e tomarmos as decisões essenciais ao processo de autoconstrução da vida.
Normalmente, a pessoa que se acha “no direito” crê estar num patamar elevado em relação às outras. Como ser moralmente superior, raramente põe em causa as suas mais profundas convicções. Há uns anos, alguém que ocupava um cargo proeminente na política portuguesa declarou “nunca se enganar e raramente ter dúvidas”. Ora é exatamento o ceticismo em relação às próprias convicções que nos abre as portas para novos patamares de aperfeiçoamento humano. Mas a estúpida convicção de que temos sempre de ter razão mantém-nos no grau zero da nossa insanidade autossuficiente.
Se assumirmos a responsabilidade por tudo o que nos acontece, estaremos disponíveis para tomar decisões sobre o nosso futuro. Em sentido inverso, recusar-nos a decidir, deixando que os factos rolem automaticamente independentemente da nossa vontade e disparando contra tudo o que mexe por ser supostamente o causador da nossa intranquilidade, faz-nos permanecer obstinadamente no ponto inicial do percurso, como alguém que andou perdido numa floresta em torno dos mesmos lugares, sem encontrar o rumo adequado.
Uma das palavras-chave deste livro é “compromisso”. De facto, comprometer-se com algumas (poucas) dimensões da vida, excluindo todas as outras que estariam igualmente disponíveis, oferece-nos a oportunidade de crescermos no contexto das opções que tomámos. Querer viver a vastidão das possibilidades com que somos confrontados é, pelo contrário, condenar-se a uma insonsa superficialidade, tanto no plano das relações pessoais como no da vida profissional ou cívica. Só se alcança a profundidade com dedicação e tempo. Saltitar de relação em relação, de profissão em profissão, etc. condena-nos a uma vida trivial, sem densidade e sem sentido.
Em suma, recomendo a leitura deste saboroso volume (e queira fazer o favor de acreditar que eu não tenho qualquer interesse financeiro no assunto). Mas só a quem estiver preparado para o confronto com as misérias pessoais. Caso contrário, talvez não valha a pena…

domingo, 3 de junho de 2018

Amar a liberdade



O recente debate sobre a eutanásia veio pôr a lume as várias conceções do ser humano e da sua posição no mundo social. Essencialmente, revelaram-se duas antropologias em confronto: a tradicional, que encara o indivíduo como alguém que precisa inexoravelmente de tutor, incapaz de tomar decisões adequadas acerca da sua vida e do seu destino, e a antropologia que se foi construindo a partir das filosofias iluministas, a qual opõe a este ponto de vista a defesa intransigente de um homem maduro, adulto, que toma nas suas mãos o próprio destino e não delega em ninguém as principais decisões acerca da sua vida. Enquanto para a primeira, no topo da escala de valores, encontra-se o valor primordial da vida, como uma espécie de divindade intocável que tudo submete independentemente das configurações que ela própria vier a tomar; para a segunda visão do mundo, o valor primacial é o da liberdade, da autodeterminação individual da qual decorre o reconhecimento da capacidade de autogestão da vida e de autonomia do sujeito face aos outros e à sociedade em que aceita viver.
Os autoproclamados “defensores da vida” (como se os outros o não fossem também!) parecem não se preocupar minimamente com o facto de que a vida biológica não diferencia de modo algum o ser humano de todos os outros elementos que com ele partilham o mesmo princípio vital, como, por exemplo, um simples arbusto ou um lagarto. Estaremos então obrigados eticamente a defender a todo o custo a própria vida, mesmo quando estão em jogo outros valores como a liberdade e o significado que cada ser humano tem o direito e o dever de atribuir às condições em que a própria vida se desenrola?
Pelo contrário, os defensores da liberdade, ainda que tenham em grande consideração o valor da vida pessoal, assumem que, acima dele, como elemento realmente diferenciador, especificamente humano, há a liberdade que nos distingue definitivamente do mero lagarto (sem nenhum desprimor para o dito). Somos liberdades que são chamadas a construir a própria existência quotidiana a partir das decisões que tomamos e da forma como agimos em conformidade com tais opções. A vida humana, ao contrário da vida das plantas ou dos animais, é uma caixinha de surpresas com as portas abertas sobre o futuro. Mas ao contrário das caixinhas mais corriqueiras, cabe a nós optar pelas “surpresas” com que nos identificamos (ou queremos identificar-nos) e rejeitar as indesejadas. A vida humana não é um edifício inteiramente construído e acabado desde o instante em que nascemos. É, pelo contrário, um estaleiro em permanente edificação. E somos nós, cada ser pessoal, o mestre de obras que põe tijolo sobre tijolo no ato concreto e significativo de tomar decisões e assumir valores, ao mesmo tempo que rejeita opções com que se não identifica. Ou seja, somos nós próprios os nossos construtores! É por isso que o uso da nossa liberdade é inalienável. E mesmo aqueles que, tolhidos pela própria inação ou pelo medo do que aí virá, não quiserem assumir a responsabilidade da sua autoedificação, já estão a fazê-lo, ainda que inconscientemente, no próprio ato de aceitarem ser joguetes nas mãos dos outros e caminharem ao sabor do vento, como canas batidas por temporais.
Ao contrário do que possa parecer a mentes mais incautas, nada disto colide com a ideia de que fomos postos no mundo pela vontade benevolente de um deus. Se atendermos ao que o livro do Génesis refere, na sua linguagem aprazivelmente mítica, o ser humano foi trazido à existência por Deus, mas de forma alguma concluído: é no uso da própria liberdade, com todos os riscos que daí possam advir (e o Génesis põe-nos de sobreaviso a respeito deles), que o ser humano cumpre a vontade de Deus quando no ato da criação o quis livre e autónomo, dotado de razão e consciência. E é verdade exatamente o contrário daquilo que os mais conservadores têm propalado, ou seja, que a demissão do uso da própria liberdade é a negação do destino que Deus quis para cada um de nós. Fomos criados livres; é essa indiscutivelmente a nossa condição e, por mais que o neguemos, mesmo quando delegamos em alguma autoridade o poder de gerir o nosso destino, fazemo-lo no uso da liberdade de nos autolimitarmos por medo, preguiça ou insegurança face às próprias capacidades ou à complexidade da vida e aos riscos que lhe são inerentes.
É indiscutivelmente mais fácil deixarmo-nos guiar por tutores. Afinal, decidir em cada momento o que é melhor para nós é cansativo e exige a mobilização das nossas limitadas energias. Muitos preferem abdicar desse direito! Mas o facto de terem a liberdade de o fazerem não lhes dá, de modo algum, o direito a impor aos outros semelhantes restrições. A gestão da liberdade de cada um deve ser decidida por cada um. A prescindir das situações em que o bem dos outros que connosco partilham a mesma comunidade tem de ser salvaguardado face a um uso irracional da própria liberdade, em todas as outras situações (ou seja, naquelas em que não está em jogo a dignidade e o direito do outro) a liberdade individual deve ser preservada e promovida, no reconhecimento de que é na liberdade que o ser humano se define autenticamente humano.
Assim, o debate sobre a eutanásia veio trazer à colação as diferentes e conflituantes conceções antropológicas. Ao contrário do que alguns disseram, não fiquei absolutamente nada admirado com o facto de o Partido Comunista — um acérrimo defensor de um Estado paternalista e da imposição de limitações absurdas à liberdade individual em favor de um suposto interesse coletivo — estivesse ao lado das conceções mais conservadoras. Afinal, o princípio que os rege a todos é o mesmo: o indivíduo deve ser encarado como uma peça despicienda de uma engrenagem que o supera e o devora no quotidiano coletivo. Foi assim para todos os regimes totalitários (de direita e de esquerda, comunistas, fascistas e afins). Todos eles se baseavam no pressuposto de que o cidadão comum não tem capacidade para gerir os próprios destinos (nem os destinos das comunidades onde se insere) e deve, por isso, viver sob a proteção do PAI — chame-se ele como se chamar: duce, führer, ditador, papa… — que lhe vigia os passos e toma as decisões que melhor lhe convém. O risco da liberdade parece-lhes demasiado grande! E decerto, pensam eles, haverá quem saiba melhor do que o Pai o que é bom para cada filho? Tudo se torna mais simples quando é esta entidade suprema a tomar todas as decisões essenciais tanto na organização da vida social como na orientação da vida privada. Ao cidadão comum não é reconhecido o direito de gerir os próprios destinos porque não se lhe reconhece capacidade para tal. Como uma criança cuja liberdade tem de ser severamente vigiada, o cidadão deve limitar-se a cumprir ordens superiores. Ao fazê-lo, tais regimes degradam o ser humano à condição de meros comparsas no teatro da vida. É-lhe negado o direito mais básico a construir-se enquanto autenticamente humano. Em vez disso, assoma constantemente no balcão da vida o Pai zeloso que tudo faz pelo seu bem, que pensa por ele, que decide por ele, que afinal o avilta, negando-lhe a possibilidade de vir a ser aquilo que efetivamente descobre como significativo.
Infelizmente, o cristianismo na sua vertente católica sofre do mesmo mal. Fundada numa conceção errada do cristianismo, a Igreja tem elevado à condição quase divina uma casta de “iluminados” (todos homens!) que se autoproclamam legítimos intérpretes da vontade divina, negando a todo o povo cristão (em termos sociais é o correspondente ao cidadão comum) a possibilidade sequer de opinar sobre os mais variados assuntos da vida comunitária. É por isso que a lista de documentos sobre todos os assuntos da vida privada e coletiva é vasta e quase inteiramente no mesmo sentido: coartar a liberdade individual e determinar até ao mínimo pormenor as decisões de cada indivíduo sobre todos os âmbitos da vida, desde a contraceção à homossexualidade ou desde a fecundação medicamente assistida à definição de formas autocráticas como a comunidade se deve gerir. É por isso que, sem qualquer surpresa, ouvimos recentemente denodados elogios de alguns bispos à posição assumida pelo Partido Comunista sobre a questão da eutanásia.
Que dizer, então, da tão espinhosa questão da eutanásia? Também neste caso se confrontam as duas posições acima referidas. Os partidários de uma sociedade que limita ao máximo a liberdade de cada indivíduo, por evidente desconfiança em relação às suas reais capacidades de decidir adequadamente, defenderam a não aprovação da lei e os partidários da liberdade individual defenderam a aprovação da mesma. Apesar dos argumentos esgrimidos pelos opositores do projeto de lei (e alguns desses argumentos devem claramente levar-nos a tomar medidas para que os abusos não tenham margem de manobra e todos os doentes terminais tenham cuidados de saúde adequados no momento derradeiro da própria existência), a questão primordial é a da liberdade. Até onde estou disposto a estender a liberdade do indivíduo, ainda que a sua posição seja diametralmente oposta à minha? É claro que quanto maior for a margem de liberdade, tanto maior será o risco de decidirmos ao arrepio dos nossos interesses e dos interesses dos outros. Mas (e agora dirijo-me aos crentes) Deus não correu o risco de nos criar livres e de respeitar a nossa autonomia apesar das atrocidades que com o seu uso abusivo fomos cometendo? De facto, a alternativa é desumana porque degrada o indivíduo à condição infantil de um autómato sob o comando alheio. Todo o indivíduo tem o direito e o dever de tomar nas próprias mãos o próprio destino, incluindo o direito e o dever de dispor da própria vida como bem entender, desde que esse direito não colida com os interesses dos demais. É por isso que a não aprovação da lei sobre a eutanásia foi um lance errado que, não tenho dúvida, tem os dias contados. Vivemos num tempo em que já não é possível manter o indivíduo sob o poder opressivo da consciência alheia. A liberdade é o destino do ser humano.

terça-feira, 22 de maio de 2018

É possível amar a Deus?



Li algures que não é possível amar a Deus. Por definição, Deus é invisível, inaudível, intocável e, portanto, incontactável. É através dos sentidos que nós percecionamos o mundo e com ele estabelecemos algum tipo de relação. Entes impercetíveis aos sentidos são, por definição, para nós, inexistentes, uma vez que estão para lá de toda a experiência possível. E uma vez fora do âmbito da vivência humana, são como a noite eterna de onde vimos e para onde nos aviamos, da qual não temos qualquer conceito e muitos menos qualquer emoção.
Perante tão polémica e definitiva declaração (são muitas, de facto, as pessoas que dizem amar a Deus), eu prefiro afirmar o seu contrário, que não é possível odiar a Deus. Quem não acredita que existe está, à partida, impedido de o odiar, uma vez que se não odeia o que não tem qualquer espécie de existência. Quem acredita que exista também o não pode fazer, uma vez que é inteiramente impensável odiar o amor absoluto, o belo indefetível, a verdade esplendorosa e o bem sem concessões. Quem diz odiá-lo é porque fez dele uma pobre e deformada imagem. Na verdade, não é a ele que odeia, mas à sua caricatura. Por definição, diria eu, Deus é inodiável.
Será o ser humano realmente incapaz de amar a Deus, dada a sua natureza? A história do sentimento religioso e das suas manifestações revela o contrário, embora seja sempre possível defender que, a despeito de todo o misticismo religioso, o suposto amor a Deus é mais um conceito imaginário do que uma realidade concreta. Sem dúvida que a ideia de Deus (ou melhor, a ideia do sagrado, quaisquer que sejam os seus contornos) move as vontades humanas, desde que a humanidade se autoconcebe como racionalmente superior. E se move as vontades, não pode incitar também o mundo primário das emoções e dos sentimentos? Na verdade, ao contrário do que afirma o autor a que acima aludi, nós também amamos ideias, conceitos ou valores, por mais abstratos que sejam. Claro, tudo depende daquilo que consideramos ser o amor.
Por outro lado, ainda que Deus seja por natureza indefinível e inimaginável, a ideia da sua presença absoluta e benigna move vontades e emociona consciências. Deus é o futuro absoluto por que todos ansiamos e simultaneamente o princípio sem princípio onde tudo quanto existe está ancorado. Não será a ideia de um tal ser suficiente para merecer do ser humano o mais denodado amor?

segunda-feira, 30 de abril de 2018

Hans Küng e a reforma da Igreja Católica



Há pessoas que marcam a nossa existência sem nunca as termos conhecido pessoalmente. Por qualquer motivo, foram para nós o rosto de um mundo em que acreditámos, um mundo ausente, mas possível. Também eu tenho os meus heróis, que “desfloraram florestas virgens” (José Régio, Cântico negro), acrescentando ao incessante processo temporal uma esperança que não teria se não houvessem existido. E tenho-os nos vários âmbitos da vida. A minha insaciável fome de conhecimento tem-me conduzido a procurar, um pouco por todo o lado, mesmo nos mais inesperados recantos da cultura, respostas às minhas inquietações. Também na teologia, uma das fontes de conhecimento por que nunca deixei de me interessar, tenho as minhas predileções. E acima de todas elas, há um nome que foi para mim o marco miliar da minha formação. Assim que me iniciei no estudo da teologia e pude contactar com este gigante do pensamento, apaixonei-me de imediato pela profundidade dos seus estudos, pelo seu estilo (tanto na escrita como na vida), pela sua atitude, numa espécie de amor à primeira vista que perdura até aos dias de hoje, depois de ter lido muitos outros autores. Há nele uma audácia que admiro, uma incessante vontade de procurar a verdade, sem as baias que as estrutura e os preconceitos tendem a impor, e uma autenticidade natural que me encantaram. Nos seus escritos encontrei resposta à questão premente sobre como é possível ser-se cristão no mundo contemporâneo, aparentemente hostil ao pensamento religioso, e aberto às possibilidades que as mudanças epocais vão trazendo. Esse homem chama-se Hans Küng.

Nasceu na Suíça de língua alemã, em 1928, estudou teologia em Roma e em Paris, doutorando-se com uma tese sobre a “Justificação”, um dos temas centrais nos ínvios caminhos da relação tumultuosa, já cinco vezes centenária, entre o mundo protestante e a mundividência católica. A sua irreverência valeu-lhe o epíteto de enfant terrible, para além de muitos dissabores. Quase todo o seu percurso profissional se desenvolveu em Tubinga, na Alemanha, onde foi professor de teologia católica e, posteriormente, depois de lhe ter sido revogada a licença para ensinar teologia católica, professor de teologia ecuménica na mesma universidade, até à sua reforma por limite de idade.
Um dos aspetos que mais admiro neste homem desabrido é o facto de nunca se haver dobrado às injunções do poder eclesial, ainda que tenha sido submetido a processos judiciais internos que lhe valeram a expulsão do mundo académico enquanto teólogo católico. É a sua determinação, bem como um indefetível amor pela verdade, que me atraem neste homem ousado. Contra ventos e marés, segue o seu percurso, convicto de que a investigação académica — e a consequente busca da verdade que lhe está associada — não pode jamais estar submetida a critérios de poder ou a dogmatismos absurdos que distraem o investigador do seu principal objetivo e impedem a sua consecução.
A sua vasta produção teológica e filosófica conduz-nos pelo maravilhoso mundo não só da teologia sistemática (cristologia, tratado sobre Deus, eclesiologia, soteriologia, etc.) como da teologia ecuménica, da história e teologia das religiões, da teologia moral e da ética filosófica. Um homem de um saber realmente enciclopédico tem dado contributos significativos para a afirmação do saber teológico num mundo secularizado e para o diálogo intra e inter-religioso, bem como para o diálogo entre as religiões e o mundo contemporâneo.
Para além de todas as polémicas que os seus escritos têm levantado, foi a discussão destemida do dogma da infalibilidade papal, definido pelo Concílio Vaticano I (1869-1870) sob forte pressão do ultraconservador Pio IX, que lhe valeu a revogação, num processo movido pela Congregação para a Doutrina da Fé, da missio canonica.
Os seus sucessivos alertas sobre a situação problemática por que tem passado a Igreja Católica no contexto do mundo moderno e sobre a necessidade urgente de reformas têm caído, em larga medida, em saco roto. Em vez de encarar a crise profunda e examinar as razões reais de tal crise, sem preconceitos nem cedências, a instituição tem vindo a encerrar-se nos seus discursos herméticos, em práticas tradicionais cujo sentido dificilmente pode ser descortinado pelo homem contemporâneo e numa forma organizativa medieval com escassa participação dos leigos e, sobretudo, das mulheres.
Mas os factos recentes sobre os múltiplos casos de pedofilia na Igreja, de encobrimento por parte de bispos e papas e paralelamente os escândalos financeiros do Vaticano atiraram gasolina sobre a fogueira. E é com pena (não por causa da instituição enquanto tal, mas por causa do Evangelho que ela anuncia) que observamos a debandada geral dos fiéis por não reconhecerem na Igreja uma instituição realmente credível.

E foi para responder a esta crise sem precedentes que Hans Küng escreveu mais um dos seus incisivos ensaios, publicado em 2011, com o título sugestivo “A Igreja ainda tem salvação?”, que eu li em tradução italiana (“Salviamo la Chiesa”).
O Autor começa por fazer o diagnóstico da doença de que padece a Igreja. Num implacável relatório “clínico”, aponta, denodadamente, todas as suas maleitas. Mas não se fica por aí. Longe de se manter no cómodo patamar da crítica, apresenta soluções e propostas que, a seu ver, poderiam resultar na convalescença do paciente. É curioso observar que algumas destas propostas se encontram, neste preciso momento, em fase de implementação! Desta vez, após a eleição de Francisco, a Igreja parece não ter feito ouvidos de mercador ao texto de Küng e, sobretudo, às necessidades reais e urgentes da própria instituição.
Talvez um dos pontos mais centrais da sua teologia seja aquilo que o Autor chama o critério da verdade. A exigência de uma reforma parece ser evidente, mas que reforma? Com base em que critério poderá a Igreja encetar o seu percurso de mutação de paradigma? Para alguns, parece ser o espírito de tempo a ditar o caminho de mudança. As instituições, por questões de sobrevivência, precisam de se acomodar ao tempo atual, sob pena de esgotarem os seus recursos de sentido e extinguirem-se. No entanto, para a Igreja não deve nem pode ser esse o critério último, pois a Igreja existe por causa de Cristo e em função do Evangelho que ele anunciou e viveu. Portanto, só pode ser este o critério de verdade, tanto na teologia como na vida concreta da comunidade cristã, como ainda na vida quotidiana de cada cristão. Mas não se trata do Cristo vestido com roupagens imperiais que se foi paulatinamente substituindo ao Jesus real, que viveu e morreu há dois mil anos nas faldas do império romano e, misteriosamente, acabou por conquistar o mundo. É o Cristo histórico, real, ainda não alienado pela instituição em função de objetivos obscuros.
E é, pois, com base neste critério que o Autor descreve as graves enfermidades de que padece a Igreja.

A primeira (e talvez aquela que maiores estragos causou na história do cristianismo) é a centralização do poder nas estruturas romanas e, sobretudo, no monarca absoluto que, a partir da Idade Média, vai reivindicando o poder autocrático e indiscutível, o papa. Tal visão unilateral do exercício do poder terá sido a principal causa da separação entre as Igrejas latina e ortodoxa, concluído no século XI, tendo tido, mais tarde, um papel preponderante na reforma protestante (século XVI). Sem sombra de dúvida, o absolutismo monárquico católico foi o maior responsável pelos principais cismas que laceraram o tecido do cristianismo.
Tal centralização veio a culminar com dois dogmas, sendo provavelmente um deles o mais absurdo de todos os que até agora a Igreja definiu. Refiro-me aos dogmas do poder absoluto e da infalibilidade do papa, estabelecidos pelo Concílio Vaticano I, num contexto histórico de hostilidade global face ao poder temporal da Igreja.
Uma segunda infeção, que corre a par com a anterior, é o excessivo juridismo (legalismo) de que padece a instituição. Aliás, o direito canónico tem sido, desde os seus alvores até à atualidade, uma arma poderosa nas mãos do poder centralizado para a permanente afirmação do sistema romano e da autocracia eclesial. Este excessivo juridismo tem consequências que vão muito para além desta questão específica. Constitui, de facto, um retorno à mentalidade farisaica contra a qual vemos Jesus em ação nos evangelhos. E ao moldar as estruturas da Igreja, afastou-a liminarmente da mensagem originária do Evangelho de Cristo e da sua rebeldia face a uma Lei (que se cria divina) promotora de desumanidade e morte. E é ainda com base nesta mentalidade antievangélica que se proíbe o divórcio em todas as circunstâncias ou a participação plena dos recasados na eucaristia, para dar apenas dois exemplos.
Das duas anteriores é herdeira a terceira moléstia: o dogmatismo e o seu braço policiário. Crendo-se cada vez mais investida na verdade e a única instituição à altura de compreender o pensamento de Deus, a Igreja arroga-se o direito de estabelecer a sua doutrina e a sua prática através de um fechado sistema dogmático que não admite grandes oscilações nem mudanças. O dogma, uma vez proclamada, identifica-se com a verdade absoluta de Deus. É, por isso, inamovível e inalterável. Está, assim, vedado ao pensamento teológico a submissão de tais afirmações ao juízo crítico que toda a procura honesta e humilde da verdade deve realizar. Daí resulta que todos os que se atreverem a exercer o seu direito a discordar e a pensar criticamente serão julgados pelo tribunal eclesiástico — a inquisição de má memória, que foi (e continua a ser, embora noutros moldes e com outro nome) pensada como braço policial e judiciário de controlo do pensamento e da ação dos crentes.
A centralização autocrática do poder e o desenvolvimento de textos jurídicos com a pretensão de tudo controlar e tudo prever (a casuística teve uma influência deletéria também sobre a moral) incrementaram algumas dicotomias que estavam perfeitamente ausentes nas comunidades cristãs primitivas: a oposição entre poder e serviço, entre clero e leigos, entre homens e mulheres. De facto, as funções na Igreja foram sendo pouco a pouco interpretadas como exercício de poder, à maneira do imperador ou dos legados imperiais, em vez de serem expressarem, tanto na teoria como na prática, o exercício de um carisma e de um serviço para o bem comum. Foi também a partir da Idade Média que se concluiu o processo de exclusão dos leigos da tomada de decisões na Igreja e a identificação desta com a hierarquia (ou seja, um “poder sagrado”). E é a esta conceção antievangélica que costuma chamar-se clericalismo, à qual se associa também o morbo do carreirismo que subverte a verdade, a autenticidade e a liberdade nas relações humanas.
A exclusão das mulheres dos lugares de decisão iniciou bem cedo. Se no princípio (os textos paulinos são disso testemunho) as comunidades cristãs tinham mulheres que assumiam papéis preponderantes na organização da vida comunitária (seriam qualquer coisa como os “párocos” de hoje), a sua exclusão por mero preconceito de género foi um dos mais gritantes sinais de que o cristianismo se estava a afastar da liberdade originária que Jesus imprimiu ao grupo dos seus seguidores.
Decerto que a exclusão da mulher não é alheia a uma visão claramente negativa da sexualidade, enquanto transmissora do pecado original, do prazer sexual, da “impureza” que o líquido seminal e a menstruação trariam. E será essa visão antropológica errónea (muito sob a influência de Santo Agostinho) que provocará o afastamento da mulher (cada vez mais identificada com o pecado sexual) e a imposição do celibato obrigatório aos padres e bispos (durante o primeiro milénio, padres e bispos podiam casar). A partir desta estreita perspetiva, tudo quanto se pudesse associar à sexualidade era visto com suspeição e a moral sexual será rigidamente moldada por esta ideia de “pureza” assexual que nunca caracterizou o ser humano. Não admira que a masturbação seja considerada pecado grave, tal como a homossexualidade, a relação sexual pré-matrimonial e por aí fora, num rosário de proibições que não tem fim.
E continuaram a ser estas perspetivas tenebrosas a ditarem outras interdições a que, infelizmente, o século XX ainda tinha de assistir: a proibição do uso de métodos anticoncecionais artificiais, a exclusão do recurso a métodos de fecundação medicamente assistida, a interdição absoluta do aborto…
Mas a patologia da Igreja não se fica por aqui. O alinhamento das estruturas eclesiais com um poder político e económico retrógrado (o antigo regime versus sistema liberal, a monarquia versus república, as ditaduras de direita versus sistemas democráticos), bem como com as formas de dominação e exploração dos pobres transformaram a Igreja numa instituição cada vez mais identificada com o passado, incapaz de compreender o mundo moderno.
Aliás, é sintomático o conjunto de tomadas de posição da Igreja ao longo dos séculos XVII-XIX no sentido de hostilizar a ciência incipiente e condenar tudo quanto fosse fruto do espírito moderno, oriundo do iluminismo, como por exemplo a afirmação de que os seres humanos são constitutivamente portadores de direitos, como o direito à liberdade de expressão e de religião. Tudo isto é liminarmente condenado pela cegueira retrógrada da instituição eclesial.
Assim sendo, Hans Küng propõe a reforma do sistema eclesial tal como ele se apresenta hoje, dada a sua ineficácia, a sua responsabilidade pelos maiores cismas do cristianismo e o seu escandaloso afastamento em relação ao Evangelho de Cristo. Provavelmente, a reforma terá de ser gradual. Mas a sua urgência obriga a Igreja a enveredar por caminho ainda não trilhados, sob pena de se transformar num gueto insignificante e, mais importante ainda, não ser para o mundo essa luz que Cristo foi, é e desejamos que continue a ser, a despeito da Igreja.
Eis as propostas mais relevantes:
1. A substituição do sistema monárquico de poder por uma forma de organização eclesial mais democrática (que é também mais próxima das comunidades cristãs das origens). As bases devem ser auscultadas tanto na eleição dos seus dirigentes como nas decisões que a todos dizem respeito. Os leigos devem passar a ter um papel muito mais determinante nas decisões fundamentais e na eleição para os cargos que exigem uma ordenação. E não por mera concessão da autoridade, mas pela dignidade específica do leigo e pelos direitos que lhe devem ser reconhecidos. Sobretudo os bispos devem ser eleitos pelas bases e não nomeados por Roma, num controlo absoluto sobre cada uma das igrejas particulares.
2. O bispo de Roma (papa), uma vez que assume também um papel global, deve ser eleito de forma mais democrática e universal, por representantes de todas as igrejas (incluindo leigos).
3. O papa deve renunciar à pretensão do poder jurídico absoluto (e de uma suposta infalibilidade), por forma a que todas as grandes decisões sejam tomadas sinodalmente e não a partir de cima. No exercício da sua função deve ouvir as bases e atender às suas inquietações.
4. A cúria romana e o governo central da Igreja devem ser sujeitos a uma reforma profunda, de modo a serem estruturas de apoio à Igreja universal e não meras formas do exercício do poder centralizado.
5. O direito canónico deve ser simplificado e reformado segundo moldes mais consentâneos com o Evangelho.
6. O celibato obrigatório para os candidatos às ordens deve ser pura e simplesmente abolido, permitindo aos ordenados que fundem as suas comunidades familiares, à semelhança do que aconteceu durante o primeiro milénio do cristianismo.
7. As mulheres devem poder aceder a todos os níveis de organização eclesial (diaconato, presbiterado, episcopado, cardinalato, papado). Não há qualquer motivo razoável para as manter arredadas dos cargos de maior responsabilidade. Só por mero preconceito são ainda excluídas dessas funções.
8. Todos os títulos a que não corresponde nenhuma função devem ser liminarmente suprimidos. Na Igreja não pode nem deve haver títulos honoríficos.
9. Regresso a uma vida simples por parte dos dirigentes da Igreja, sem pompas, ostentações de riqueza e outros aparatos que desvirtuem os valores que a Igreja é chamada a proclamar (e a viver).
10. Liberdade de expressão para todos, sobretudo para os teólogos. A afirmação do valor da liberdade deve levar à abolição da inquisição e de toda a forma de repressão interna.
11. Entendimento ecuménico com as outras Igrejas não católicas (ortodoxos e protestantes). Tal entendimento deve conduzir a resultados muito práticos: a comunhão na eucaristia e o acesso de todos a todas as celebrações e sacramentos de qualquer das denominações cristãs, etc. É urgente dar por findo o tempo dos anátemas e das excomunhões. Só por motivos realmente muito graves deveria ser possível expulsar alguém da comunidade cristã ou não permitir que participe nas suas celebrações (imaginemos o caso de alguém que tenha um discurso reiterado de ódio, apelando a ideias xenófobas e racistas).
12. A Igreja deve também modificar a sua moral sexual e familiar. Não se entende como é possível sustentar a condenação da homossexualidade ou formas alternativas de organização familiar que não são, em si mesmas, nenhum atropelo aos direitos humanos e à dignidade dos outros. Nem se entende por que razão devem permanecer válidas a proibição do uso de métodos anticoncecionais ou a condenação absoluta do aborto, como se a mera junção de um espermatozoide e de um óvulo fosse suficiente para fazer surgir uma pessoa humana, etc. É ainda incompreensível manter uma posição rígida face ao divórcio, por força daquela mentalidade jurídica que tanto mal tem feito à Igreja.

O Autor termina desejando que o novo paradigma de Igreja inclua quatro linhas de força: 1) uma Igreja que tenha como ponto de referência para a sua ação as origens cristãs e queira corresponder às instâncias da sociedade contemporânea; 2) uma Igreja que promova a participação de todos, sem excluir ninguém (leigos, mulheres, homossexuais, recasados…); 3) uma Igreja aberta às várias denominações cristãs, sem exclusivismos confessionais; 4) uma Igreja universal, que não seja eurocêntrica, nem defenda o cristianismo em oposição às outras religiões.

Por último, numa nota pessoal, gostaria de exprimir a impressão com que fico sempre que leio os ensaios deste teólogo. Pela ousadia do seu discurso e pela forma crítica como o faz, não o vejo apenas como teólogo, mas decerto também como profeta, na esteira dos grandes profetas que, contra sua própria vontade, tinham de proclamar desgraças iminentes, ao arrepio daquilo que muitos gostariam de ouvir, atraindo sobre si a irritação das classes dirigentes.
Ao terminar a leitura deste excelente ensaio, pensei como seria bom para a Igreja e para o mundo se a instituição lhe desse realmente ouvidos e pusesse em marcha o regime de reformas que este homem propõe! De ceto modo, é o que está a acontecer. E ainda bem, uma vez que o mundo contemporâneo precisa mais do que nunca da “boa notícia” (evangelho) de Cristo e é à Igreja que incumbe a tarefa de o tornar operativo no tempo e no espaço. Mas quando o transmissor falha na sua missão de transmitir, que será do conteúdo da mensagem?